Sofrer uma violência gera violência em quem a sofre?

        De onde surge a violência? Violência gera mais violência? Somos todos violentos? Existe distinção entre uma violência em que se emprega força “física” e uma violência “psicológica” em que se emprega força emocional? Sofrer uma violência gera violência em quem a sofre? A violência gera raiva na vítima que responde violentamente contra si mesmo ou contra o seu agressor?

        Somos animais dotados de pensamentos e sentimentos arredios ou gregários, desconfiados ou curiosos, agressivos ou compassivos em relação ao mundo. Se a agressão gera mais agressão, por analogia, compaixão pode gerar mais compaixão. Se respondemos com violência recebemos mais violência em troca. Se reagimos com violência é porque aprendemos a responder dessa maneira. Se quisermos mudar o mundo, precisamos antes mudar a nós mesmos.

        Você prefere ser tratado com violência ou com compaixão? Compadecer-se de alguém é tentar sentir como esse alguém está se sentindo. Tentar, pois nunca sentiremos como alguém se sente. It’s impossible! O sentimento de um indivíduo somente por ele pode ser vivenciado. Mas podemos nos lembrar como nos sentimos quando um sofrimento nos atormenta. Porém, também podemos ser violentos com a gente mesmo. E, assim, agimos com relação aos outros, violentamente. Você age com violência ou compaixão consigo mesmo?

        Conforme você se relaciona consigo mesmo, da mesma forma você se relaciona com as outras coisas e pessoas. Se você é violento consigo mesmo, você é violento com os demais. Se você é compassivo consigo, você é compassivo com o mundo. A sua forma de comunicação consigo mesmo gera o seu jeito de se comunicar com o mundo e vice-versa. Você cria o mundo através do jeito como você experiencia o seu mundo e através do jeito como você é determinado pelo mundo em que você vive.

A dominação se exerce pela Palavra

        A espécie homo sapiens foi capaz de construir esse sistema de comunicação através das palavras falada, escrita, pensada, calada. Supomos que, inicialmente, a palavra tenha servido para facilitar a compreensão do mundo pelas pessoas. A palavra faria com que todos pudessem se entender sobre cada situação ou objeto existente. Que maravilhoso! Quando alguém fala ‘tenho sede’, um outro alguém lhe oferece um pouco de agua. Se alguém fala ‘banana’, eu sei do que ele está falando. Quão maravilhosas são as palavras! Falar da beleza estética da mulher do seu vizinho para um amigo e ele concordar sobre a admiração que também exerce em apreciar uma específica parte daquela.

        Mas com a evolução da linguagem, a palavra se transformou no mais eficiente poder de dominação de um homo sapiens sobre outro homo sapiens. Mas utilize as palavras de forma cautelosa diante de um animal, tipo cobra, jacaré ou tigre, ele não conhece as palavras e pode não compreender o que você esteja tentando comunicar. Mas, se você quer ser um homo sapiens que exerce poder sobre os outros homo sapiens, domine as palavras. Seja eloquente orador, como os gregos antigos nas praças públicas inventando a democracia (o poder exercido pela oratória).

        Esse poder de dominação de homens não somente é exercido sobre uma multidão de homens, mas, principalmente, sobre o mais próximo, sobre aquele que se encontra do seu lado. A linguagem fortalece a compreensão do mundo e favorece a habilidade dos mais capazes na oratória. Parece ser uma característica biológica do homo sapiens considerar que os fenômenos têm causa e efeito. Essa característica, conjugada com a habilidade da oratória, capacita o homo sapiens para fazer diagnósticos e julgamentos sobre os fatos e as pessoas.

A violência é um estado de dominação

        Apesar de tanta doçura e comedimento ao dirigir a nossa palavra, a violência de nossa existência biológica não nega – somos animais. Animais violentos e territoriais que se utilizam das palavras para demarcar o nosso território. A capacidade da oratória, a necessidade de exercer o poder sobre as coisas e as pessoas e de demarcar seu território transformaram a comunicação verbal entre os homo sapiens em uma arma de dominação e destruição.

        Estamos sempre atentos ao que o outro faz, como faz, para que faz, diagnosticando e julgando o seu comportamento. Sempre na intenção de dominação do outro. A violência é o exercício do poder de dominação sobre algo ou alguém. “Quando nos concentramos em tornar mais claro o que o outro está observando, sentindo e necessitando em vez de diagnosticar e julgar, descobrimos a profundidade de nossa própria compaixão, pela ênfase em escutar – a nós e aos outros.       Quando utilizamos a comunicação para ouvir nossas necessidades mais profundas e as dos outros, percebemos os relacionamentos por um novo enfoque”.

O processo da comunicação não-violenta

        “Os quatro componentes do modelo da comunicação não-violenta: observação, sentimento, necessidades e pedido. As ações concretas que estamos observando e que afetam nosso bem-estar; como nos sentimos em relação ao que estamos observando; as necessidades, valores, desejos, etc. que estão gerando nossos sentimentos; as ações concretas que pedimos para enriquecer nossa vida”.

        “Primeiramente, observamos o que está de fato acontecendo numa situação: o que estamos vendo os outros dizerem ou fazerem que é enriquecedor ou não para nossa vida? O truque é ser capaz de articular essa observação sem fazer nenhum julgamento ou avaliação – mas simplesmente dizer o que nos agrada ou não naquilo que as pessoas estão fazendo. Em seguida, identificamos como nos sentimos ao observar aquela ação: magoados, assustados, alegres, divertidos, irritados, etc. Em terceiro lugar, reconhecemos quais de nossas necessidades estão ligadas aos sentimentos que identificamos aí”. E, finalmente, pedimos o que necessitamos da outra pessoa para enriquecer a nossa vida”.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        “A comunicação não-violenta ajuda a nos ligarmos uns aos outros e a nós mesmos, possibilitando que nossa compaixão natural floresça. Ela nos guia no processo de reformular a maneira pela qual nos expressamos e escutamos os outros, mediante a concentração em quatro áreas: o que observamos, o que sentimos, do que necessitamos, e o que pedimos para enriquecer nossa vida. A comunicação não-violenta promove maior profundidade no escutar, fomenta o respeito e a empatia”.

Referencias

ROSEMBERG, Marshall B. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006.

 

Sentimentos de dor e de prazer formam o nosso jeito de ser

Dar a palavra aos sentimentos

        O que é dor? O que é prazer? Como você sabe que sente dor e não prazer ou vice-versa? Você já pensou que o seu jeito de sentir dor ou de sentir prazer tem a ver com a maneira como você lida com as coisas da sua vida? Os nossos sentimentos de dor e de prazer formam o nosso jeito de ser. Os sentimentos de dor ou prazer constituem os nossos padrões mentais.

        “Dentre todos os fenômenos mentais que podemos descrever, os sentimentos e os seus ingredientes essenciais – a dor e o prazer – são de longe os menos compreendidos no que diz respeito a sua biologia e em particular a neurobiologia”.

        Algum dia você já se perguntou para que serve ter sentimentos? Você, uma vez, não, algumas vezes, pensou que preferia levar a vida do seu animalzinho de estimação? Afinal, ele tem comida na hora certa, dorme quando quer e ainda tem o seu carinho e o seu cuidado!

        E quanto a você? Esse animalzinho que sente, nem sempre estimado, o que lhe provoca dor? Outras vezes, muito amado e bem cuidado, transborda de prazer; prazer que passa tão rápido! Talvez o melhor mesmo fosse não sentir. Melhor do que ficar nessa gangorra de ajustes e correções para atingir um equilíbrio entre a dor e o prazer.

A emoção e os sentimentos humanos, os nossos afetos

        Dor e prazer talvez sejam dois conceitos fundamentais na tentativa de compreender os seres humanos e as suas maneiras de viver.

        Tomemos por exemplo que você pode pensar que o amor é um estado agradável causado por algo exterior a você. Bem, então essa é uma ideia que você tem sobre algo exterior a você que lhe causa um estado agradável. A essa ideia você chama de amor.

        Então, o que você faz é separar o processo de sentir do processo de ter uma ideia sobre algo exterior que lhe pode causar uma emoção. No exemplo acima, o amor, um estado agradável. Quando você desloca a sua emoção para uma ideia, você evita lidar com a dor ou o prazer que essa emoção possa lhe proporcionar.

        Apreciemos agora o fato de como você faz para evitar sentir dor ou prazer ou sentir mais dor e mais prazer. Suponha que você está sentindo uma emoção que lhe provoca dor. Você pode querer sentir mais dor ou deixar de sentir a dor. O que você faz?

        Vamos supor, por exemplo, que o seu estado emocional, no momento, é uma saudade. Essa saudade lhe provoca um estado desagradável que chamaremos de dor. Você, então, busca lembrar de mais coisas que lhe aumentam o nível do seu estado desagradável de dor. Então, você sente mais saudade, mais dor.

        Agora, você não suporta mais esse estado desagradável de dor, por sentir saudade, em que você se encontra. O que você faz para parar de sentir essa dor? Como você faz para parar de sentir essa saudade?

        O poder dos afetos é tal que a única possibilidade de, no nosso caso, deixar de sentir dor é sentir um afeto contrário ainda mais forte do que esse que estamos sentindo. A esse afeto mais forte que a dor que estamos sentindo chamamos de prazer. Na psicoterapia, vivenciamos as nossas dores e nos abrimos para os sentimentos de prazer que nos reeducam para lidar com as nossas dores.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

       “Um afeto não pode ser controlado ou neutralizado exceto por um afeto contrário mais forte do que o afeto que necessita ser controlado”.

Referencias

DAMÁSIO, António. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Educação e tratamento na sexualidade humana

        “A OMS (Organização Mundial de Saúde) tem trabalhado na área da saúde sexual desde pelo menos 1974, quando as deliberações de um comitê de especialistas resultaram na publicação de um relatório técnico intitulado ‘Educação e tratamento na sexualidade humana’ (WHO, 1975).

        Em 2000, a Organização PanAmericana da Saúde (OPAS) e a OMS convocaram várias consultas de especialistas para analisar a terminologia e identificar as opções do programa. No decorrer destas reuniões, foram desenvolvidas as definições de trabalho dos termos-chave utilizados aqui. Em uma reunião subsequente, organizada pela OPAS e pela Associação Mundial de Saúde Sexual (WAS), foram abordadas várias preocupações com a saúde sexual em relação à integridade do corpo, segurança sexual, erotismo, gênero, orientação sexual, apego emocional e reprodução” (WHO, 2010).

Sexo

        “O sexo refere-se às características biológicas que definem os seres humanos como feminino ou masculino. Embora esses conjuntos de características biológicas não sejam mutuamente exclusivos, pois existem indivíduos que possuem ambos, eles tendem a diferenciar humanos como machos e fêmeas” (WHO, 1975). Sendo assim, de acordo com a WHO (World Health Organization), o sexo dos seres humanos é definido por características biológicas. Isso é fundamental para se compreender a sexualidade. As questões de gênero se referem a características construídas culturalmente. O sexo dos seres humanos é construído por características biológicas.

        “Em geral, em muitas línguas, o termo sexo é frequentemente usado para significar ‘atividade sexual’, mas para fins técnicos no contexto de discussões sobre sexualidade e saúde sexual, a definição acima é preferida” (WHO, 1975). Portanto, quando você disser que fez, faz ou fará sexo, considere que isso é impossível. Você não faz sexo. O seu sexo é algo com que você nasce, biologicamente, com ele. O seu sexo é o conjunto das suas características biológicas.

Sexualidade

        A definição de trabalho da sexualidade é: “… um aspecto central de ser humano ao longo da vida engloba sexo, identidades e papéis de gênero, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução. A sexualidade é vivida e expressa em pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, comportamentos, práticas, papéis e relacionamentos. Embora a sexualidade possa incluir todas essas dimensões, nem todas elas são sempre experimentadas ou expressadas. A sexualidade é influenciada pela interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, políticos, culturais, legais, históricos, religiosos e espirituais” (WHO, 2006a). Se você achava que a sua sexualidade se resumia a apenas sentir ‘tesão’ considere a influência e a interação de todos esses valores.

        A sexualidade humana é um aspecto muito mais complexo do que supunha a sua crença heteronormativa, familiar, capitalista, política ou religiosa. A sexualidade humana, como hoje ‘entendemos?’, começou a ser inventada no século 18. A sua sexualidade é uma construção que você faz durante a sua vida, desde a sua concepção. A sua sexualidade não é algo fixo, ela muda durante a sua vida. A sua sexualidade é construída por você, pela sociedade em que você vive e o momento histórico dessa sociedade.

 

 Saúde sexual

        “A saúde sexual não pode ser definida, entendida ou tornada operacional sem uma ampla consideração da sexualidade, que está subjacente a comportamentos e resultados importantes relacionados à saúde sexual. De acordo com a definição de trabalho atual, a saúde sexual é: ‘… um estado de bem-estar físico, emocional, mental e social em relação à sexualidade; não é apenas a ausência de doença, disfunção ou enfermidade. A saúde sexual requer uma abordagem positiva e respeitosa da sexualidade e das relações sexuais. Bem como a possibilidade de experiências sexuais prazerosas e seguras, sem coerção, discriminação e violência. Para que a saúde sexual seja alcançada e mantida, os direitos sexuais de todas as pessoas devem ser respeitados, protegidos e cumpridos’” (WHO, 2006a).

        O exercício da sua sexualidade de forma saudável deve seguir as normas e as regras de convivência da sociedade na qual você vive. A sua sexualidade, portanto, é normatizada e regulamentada pela ética da sociedade em que você atua. A sua sexualidade deve seguir as orientações aprovadas pela sociedade da qual você faz parte. Você é normatizado e também normatiza a sexualidade dos outros. O exercício de uma sexualidade ‘saudável’ depende de ser aprovado pela sociedade na qual você é indivíduo.

 Direitos sexuais

        Há um crescente consenso de que a saúde sexual não pode ser alcançada e mantida sem respeito e proteção de certos direitos humanos. A definição de trabalho dos direitos sexuais abaixo é uma contribuição para o diálogo contínuo sobre direitos humanos relacionados à saúde sexual.

        “O cumprimento da saúde sexual está vinculado à medida em que os direitos humanos são respeitados, protegidos e cumpridos. Os direitos sexuais abrangem certos direitos humanos que já são reconhecidos nos documentos internacionais e regionais de direitos humanos e outros documentos de consenso e nas leis nacionais.

        O exercício responsável dos direitos humanos exige que todas as pessoas respeitem os direitos dos outros. A aplicação dos direitos humanos existentes à sexualidade e à saúde sexual constituem direitos sexuais. Os direitos sexuais protegem os direitos de todas as pessoas para cumprir e expressar sua sexualidade. E desfrutar da saúde sexual, no respeito pelos direitos de terceiros e no âmbito da proteção contra a discriminação” (OMS, 2006a, atualizado em 2010). Visto desse lugar, a sua sexualidade é um direito. Atentemos para o fato que os direitos humanos são construções sociais, portanto sujeitos aos humores sociais da sua época. O que hoje é um direito, amanhã poderá não sê-lo. Mas o que vem a ser um direito, mesmo?

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        Para a WHO, a saúde sexual é considerada um valor comunitário e não individual. A saúde sexual é um valor coletivo, um bem de todos. Devendo cada um gozá-la individualmente, sem prejuízo de outrem e, solidariamente, com todos. A saúde sexual de cada indivíduo pode assim ser normatizada e regulada pela coletividade. A sexualidade é um direito seu, normatizado e regulado pela sua sociedade.

Referencias

WHO (World Health Organization). Saúde sexual e reprodutiva: Definir a saúde sexual. Publicado em 2006, atualizado em 2010. Acesso em 21 de agosto de 2017. Disponível em

Uma resposta de estresse descontrolada

        Há situações que mexem muito conosco e chegam a nos desestabilizar. Uma situação que mexa tanto conosco a ponto de nos desestabilizar pode ativar uma resposta de estresse descontrolada. A essas respostas de estresse intensas e descontroladas chamamos de luta ou fuga. Ou lutamos insanamente para readquirir o nosso estado anterior de conforto ou fugimos para nos proteger de uma agressão ambiente de proporções monstruosas.

        No início, uma situação aumenta o nosso nível de atenção, logo a seguir essa situação pode ser percebida como perigosa. Então passamos para um estágio de apreensão, onde nos postamos em forma endurecida, a respiração encurta e acelera, os nossos sentidos estão no máximo tônus de atenção. Esse estado de mobilização pode ser suficiente para dar conta da situação. Quando reconhecemos o nível baixo de periculosidade dos acontecimentos, nos reorganizamos para um nível mais baixo de atenção.

        Entretanto, a situação pode nos levar ao aumento do nível de atenção. É quando nos sentimos ameaçados, aumentamos mais ainda o tônus da atenção dos sentidos. A ansiedade aumenta, uma sensação de isolamento torna a situação estranha e arriscada. Estamos no limiar do medo.

        Ainda nesse ponto, podemos atacar o evento estranho que nos assusta como forma de afasta-lo. Ou, podemos fugir para longe do evento de forma que ele não invada o nosso espaço. Também podemos sentir tão ameaçados que não consigamos enfrentar nem fugir do evento constrangedor. O medo aumenta e o pânico já se aproxima.

        Sensações confusas, fantasias de risco de vida, a ansiedade aumenta, a imaginação invade a realidade, o medo é real, pois a morte é iminente. Os pensamentos não servem para nada nessa hora, aliás, eles são os primeiros a abandonar o barco. Um comportamento de entrega e submissão ao evento nos paralisa. O evento tomou conta de mim, estou só, imóvel. Não conseguimos mais decidir lutar ou fugir, estamos em pânico.

        “Quando não podemos avançar nem recuar, não conseguindo nos compor com a situação, ficamos no estado de ansiedade e pânico”. Quando o que afeta uma pessoa é excessivo para a sua capacidade de enfrentamento, ela sucumbe. O pânico é a resposta que a pessoa encontra para reagir a uma experiencia que excede a sua capacidade de enfrentamento. No pânico, uma experiencia que podia ser da afetação de um objeto externo é vivida como um objeto interno.

        A experiencia de atenção crescente se transforma em sensações de aceleramento dos batimentos cardíacos, falta de ar, pensamento de que vai morrer, etc. O pânico transforma o próprio corpo no estimulo estressante.

A percepção das emoções

        Como sabemos quando estamos sentindo uma emoção? como sabemos discriminar que emoção é essa que estamos sentindo? As emoções são constituídas por alterações respiratórias, cardíacas, vasculares, digestivas e musculares. Se uma pessoa consegue discriminar os componentes viscerais e musculares da emoção, ela consegue uma percepção dos seus sentimentos e da sua atitude frente ao estimulo que está provocando a emoção. Entretanto, poucas pessoas têm suficiente discriminação para perceber o tipo de emoção que sentem.

        A principal característica de uma pessoa que se encontra em pânico é a ausência total de percepção de suas emoções. Uma pessoa em pânico “se desliga”, torna-se ausente de si e da situação. Essa ausência de si provoca o estranhamento que a pessoa tem em relação ao seu corpo. O seu corpo é o inimigo. O inimigo que mora dentro dela.

        Incapaz de enfrentar ou de fugir do inimigo que mora dentro dela, a pessoa evita a consciência da emoção. Uma espécie de suicídio sem morte. Uma forma de assimilar a avalanche de sensações irrompidas.

        As pessoas aprendem, pela experiencia, padrões organizados de se comportar perante certas situações. Esses padrões de respostas cristalizados limitam os nossos comportamentos. Tendemos sempre a reagir de uma mesma maneira, diante de uma mesma situação. O padrão de comportamento das pessoas em pânico tende a desconexão da consciência diante de um estresse excessivo.

        “Na crise de Pânico, a pessoa vive um profundo estranhamento em relação às suas sensações corporais; seu corpo é vivido como uma fonte de ameaça. Essa é uma das características centrais do pânico: os perigos vêm de dentro, vêm do próprio corpo. O controle da hiperventilação, por meio de exercícios respiratórios específicos, é um recurso importante no controle das crises de Pânico”.

        “Podemos dizer que as causas do processo que leva ao pânico são experiências internas não assimiladas. A pessoa não consegue identificar o que está vindo junto com as crises, todas as experiências de vida que foram negadas, excluídas de seu mundo, e, assim, acaba tendo crises de pânico frente ao desconhecido que a invade por dentro”. 

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        Aprendemos pela experiência. A experiência cria padrões de comportamentos adaptativos aos estímulos, situações e ambientes. A ansiedade é gerada em qualquer contato com o desconhecido, pois ainda não formamos padrões de comportamento em reação ao que desconhecemos.

 Referencias

SCARPATO, Artur. O estranho que me habita: a Síndrome do Pânico numa perspectiva formativa. São Paulo: Revista Reichiana, número 10, 2001, p. 50-66. Acesso em 31 de outubro de 2013. Disponível em

 

Uma produção espontânea e despreocupada dos movimentos

        Existe uma psicoterapia que busca proporcionar aos seus alunos um ensino que considera o corpo na sua singularidade, em respeito à complexidade anatômica e dinâmica de cada um. Essa pratica de psicoterapia propõe um conhecimento experiencial da dinâmica do corpo através da observação dos seus movimentos. Num segundo momento utiliza-se a observação efetuada de forma consciente para produzir ludicamente novas possibilidades de movimentos. O lúdico provoca uma produção espontânea e despreocupada dos movimentos.

        Um movimento sem sentido é um desperdício intencional e desajustado. Um movimento vem sempre expresso com um sentimento. Entretanto, há o momento para sentir o movimento e outro para conhecer o movimento.

        Um movimento não é a representação de um sentimento, mas do próprio movimento em relação com os acontecimentos. Qualquer ação corporal pode ser descrita: através da parte do corpo que se move, em que direção o movimento se realiza, em que velocidade se processa e de quanta intensidade utiliza. Os nossos tecidos, órgãos e músculos retêm e conservam na memória os nossos gestos.

O corpo é a própria matéria para a criação de si mesmo

        As práticas que utilizam a expressão corporal podem nos capacitar a ampliação da nossa consciência do corpo e dos seus movimentos para utilizar o corpo de forma mais diversa e espontânea. Essa pratica se utiliza dos movimentos singulares dos seus alunos para ressurgir novos movimentos inexplorados e ainda não corporificados.

        Essas práticas possibilitam aos antigos movimentos se desencadearem e se desenrolarem em diferentes partes do corpo. Isso possibilita um acesso a partes do corpo inexploradas, uma desconstrução de uma maneira habitual de se mover, de estar no mundo. A desarticulação e a decomposição de antigas formas de se movimentar possibilita uma multiplicidade de novos movimentos.

        O movimento tem origem no corpo e não fora dele. É a partir do movimento que o corpo se relaciona com o ambiente. O corpo se movimenta então se relaciona. E esse movimento está repleto de sentimento. Trata-se de sentir o movimento. Sentir o movimento é expressar o movimento com consciência. O que essa psicoterapia busca é as possibilidades de movimentos que são produzidas a partir das sensações.

        Mas para que possamos acessar a multiplicidade de movimentos que são produzidos a partir das sensações, antes precisamos ter um corpo. Criar um corpo é a primeira tarefa da psicoterapia do movimento.

O processo é mais importante que o resultado

        “O modo como fazemos uso do corpo afeta diretamente o desempenho funcional dele. A qualidade de uso do corpo exerce uma influência contínua sobre o nosso funcionamento, formando um hábito. Quando nos afastamos de antigos hábitos, nos afastamos também de antigas ideias pré-concebidas”.

        Essa psicoterapia começa a partir das nossas sensações. A percepção do corpo em movimento interfere diretamente sobre a consciência que temos de nós mesmos. O aluno dá início a essa psicoterapia quando experiencia novas avaliações sensoriais na percepção do movimento, sem passar por um processo de intelectualização.

        A técnica de Frederick Matthias Alexander (1869-1955) consiste em não-fazer o movimento. No lugar disso, fazer uma pausa para pensar e sentir a intenção do movimento antes de nos movermos. Essa pratica solicita que nos coloquemos inteiramente no momento presente, para não-fazer o movimento, para possibilitar que outro movimento surja. Isso significa “recusar-se a atuar diretamente na busca de seu ‘fim’ e manter toda a atenção nos ‘meios pelos quais’ esse fim pode ser alcançado”.

Agimos por impulso

        “O pensamento tem movimento. Nos tornarmos conscientes de nós mesmos através de nossos movimentos. Certamente o processo inverso também ocorre – nossos pensamentos influenciam nossos movimentos e podem modificá-los”.

        “A técnica de Moshé Feldenkrais (1904-1984) visa um corpo organizado para se mover com o mínimo de esforço e o máximo de eficiência. Uma forte característica da técnica é a execução excessivamente lenta dos movimentos. O objetivo é aguçar nossa atenção para separar a ação da intenção do movimento. Ao focar nossa atenção nos meios pelos quais executamos uma ação, exploramos o alcance máximo dessa ação no espaço e no tempo e, consequentemente, eliminamos a maior parte do esforço inútil”.

        A incapacidade de variar os níveis de tensão de nossos comportamentos automáticos constitui uma ação compulsiva, que será executada em qualquer lugar da mesma forma como nas experiências anteriores. “Nessa perspectiva, a compulsão é um comportamento parasita que impede a expressão da espontaneidade: toda ação é espontânea quando não é compulsiva. Isto significa dizer que ampliar o repertório de possibilidades que tenho para realizar minhas ações, é também oferecer outros recursos viáveis para reações não compulsivas diante de novas experiências, abrindo caminho para a espontaneidade”.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        A tarefa do psicoterapeuta é “criar um ambiente acolhedor que facilite a conquista do funcionamento integral (e espontâneo) por parte do aluno ou paciente. Deve-se permitir que as pessoas levem o tempo de que precisarem para realizar a experiência em si mesmas. O melhor modo de agir deve ser encontrado por escolha pessoal, sem nenhuma compulsão moral para agir ‘certo’”.

Referencias

RESENDE, Catarina Mendes. Saúde e corpo: contribuições para uma formalização teórica e pratica do método Angel Vianna de Conscientização do Movimento como um instrumento terapêutico. Rio de Janeiro: UFRJ/Instituo de Estudos em Saúde Coletiva, 2008.

 

As pessoas vivem cheias de tedio

         Apesar de tantas opções de divertimento ou, talvez, por conta disso, as pessoas vivem cheias de tedio. Quando termina o divertimento, o passeio, a balada, o cinema, o almoço, as pessoas se dão conta que estão com elas mesmas. É quando o tedio se faz presente. Mas isso é bem fácil de explicar: é muito difícil ficar com alguém que a gente não conhece. Afinal, o que temos para conversar com essa pessoa?

         As pessoas estão sempre irritadas, intolerantes, contrariadas, sofrendo por antecipação. As pessoas se concentram apenas por poucos instantes e a memória retém muito pouca experiencia. As pessoas se comportam dessa mesma maneira com relação a si mesmas: convivem pouco consigo e se ignoram. As pessoas recebem muita informação, diariamente, sobre o mundo, sobre tudo o que está acontecendo. Mas a informação sobre si mesmas, onde é que elas conseguem?

         Algumas pessoas tem a estranha pratica de escovar os dentes após as refeições. Outras pessoas tem a estranha pratica de tomar banho pelo menos uma vez por dia. E quantas vezes por dia higienizamos nossas emoções e os nossos pensamentos? Se não escovamos os dentes após as refeições, o que fazemos com aquela sobra de comida que ficou entre os dentes? Se não tomamos banho, o que fazemos com o odor que exala do nosso corpo? E quando uma ansiedade nos invade, uma ideia punitiva nos atormenta, como procedemos?

O tedio é uma escolha?

         Somos mesmo livres? Os nossos pensamentos são tão livres que pensamos coisas que outras pessoas jamais pensaram? Escolhemos o que pensamos? E o que fazemos? Somos livres para fazer o que temos vontade? Estou sentado numa cadeira, sinto sede, me levanto da cadeira, caminho até a cozinha, abro a geladeira, pego o vasilhame com agua gelada, encho um copo com um pouco daquela agua. Como sou livre para fazer o que eu quero, eu jogo a agua na pia e retorno para sentar na cadeira onde me encontrava. Concluo, então, que sou livre para fazer o que quiser, mas continuo com sede. Mas por que é que isso não acontece com meus pensamentos e as minhas emoções? Meus pensamentos e minhas emoções me escravizam. Por que é que parece que é algo que pensa em mim e não eu que penso?

         Nossos pensamentos são formados nas nossas experiencias, nas nossas relações com o ambiente e na relação que mantemos com a gente mesmo. Aquilo a que chamamos de eu é um produto das interações que experienciamos com o mundo. Os nossos pensamentos são o produto da interação de vários fatores: nossa genética, as relações com o fisiológico de quem ou onde fomos gerados, o nosso ambiente social e geográfico, as nossas relações com a gente mesmo.

         Essas interações são realizadas sem que nós tenhamos quaisquer escolhas sobre como essas interações deveriam ser processadas. As escolhas que hoje fazemos estão fundamentadas no produto dessas interações que fizemos. Essas escolhas que hoje fazemos são tomadas fundamentadas em escolhas que não tivemos a menor influência sobre elas. Fizemos essas interações sem que pudéssemos decidir sobre qual direção tomar. E ainda dizem que somos livres para escolher? As nossas escolhas são o produto de uma escolha fundamentada numa base de dados sobre a qual tivemos muita pouca escolha.

Podemos desfazer o tedio?

         O registro das nossas experiencias é de certa forma construído sem a nossa influencia consciente. A nossa própria consciência é produto desses registros. Sendo assim, se é essa nossa consciência, fundada em bases por nos ignoradas, que representa a nossa capacidade de escolha, somos mesmo dotados de liberdade de escolha?

         Submetidos a ideia dessa suposta liberdade de escolha, muitas pessoas, em todas as sociedades do mundo, se cobram maneiras de comportamento. Essas pessoas se punem quando falham na obtenção das suas metas. As pessoas se punem caso se comportem de maneiras que não correspondam as suas expectativas.

         A consciência de um fenômeno não é uma compreensão direta daquele fenômeno. O que pensamos de um acontecimento é um produto gerado por um processo complexo que envolve as nossas sensações, as nossas emoções, os nossos sentimentos. As nossas emoções e os nossos sentimentos são também gerados por um complexo processo de produção do qual não temos nenhuma consciência. Mas nem tudo está perdido, se não podemos escolher como sentimos, podemos compreender como sentimos. E compreendendo como sentimos, podemos fazer diferente.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        Você não sabe como fazer isso sozinho? Mas quer fazer do seu jeito?

Referencias

CURY, Augusto. Ansiedade: como enfrentar o mal do século: a Síndrome do Pensamento Acelerado e como e por que a humanidade adoeceu coletivamente, das crianças aos adultos. São Paulo: Saraiva, 2014.

A representatividade e a autoridade das instituições tradicionais

        Os movimentos sociais que explodiram na década de 1960 contavam com a participação de indivíduos das classes medias que encorajavam os indivíduos das classes mais populares para se engajarem nas lutas. Aqueles movimentos questionavam a representatividade e a autoridade das instituições tradicionais como o Estado, a Igreja, a Escola e a Família. De forma geral, esses movimentos afirmavam que o privado é político e a desigualdade ultrapassava o econômico.

        Nesse contexto social, das décadas de 1960 e 1970, surgem os movimentos feministas e os movimentos homossexuais com inspiração liberacionista. Esses movimentos viam as mulheres e os homossexuais como indivíduos oprimidos que deviam lutar pela sua liberdade. Esses movimentos concebem o poder como uma atividade de repressão, operando de cima para baixo, da classe dominante para a classe dominada. Esses movimentos estavam fundamentados na luta de classes de inspiração na teoria de Karl Marx (1818-1883), na opressão exercida pelas classes dominantes sobre as classes dominadas.

        Nas décadas de 1970 e 1980, a sociedade heterossexual tentou mostrar que a maioria das pessoas eram heterossexuais. Os movimentos de liberação homossexuais caíram na armadilha heterossexual de que a homossexualidade seria algo restrito a uma minoria que a sociedade precisava aprender a conhecer e respeitar. Naquela época, a homossexualidade era chamada de homossexualismo.

A homossexualidade é algo socialmente forjado

        O termo homossexualismo foi criado no ambiente medico, no século 19. O sufixo ismo denota uma condição patológica como diversas outras condições consideradas doenças. O sufixo ismo também denota um conceito teórico fechado em si mesmo, portanto, sem interação com outros sistemas. Daí a luta dos movimentos homossexuais para alterar a pratica sexual para sexualidade e não sexualismo, pois como já se tinha conhecimento, a pratica heterossexual não se limitava apenas a procriação da espécie.

        Durante as décadas de 1970 e 1980, fizeram-nos pressupor que a maioria das pessoas eram heterossexuais. Fazendo-nos ter a impressão de que a “homossexualidade era algo restrito a uma minoria diferente que a sociedade precisava aprender a conhecer e respeitar”. Entretanto, esse pressuposto de que a maioria das pessoas é heterossexual é bastante questionável. “Se a homossexualidade é uma construção social, a heterossexualidade também é”. O binário hétero-homo é também uma construção histórica. “As pessoas nunca couberam apenas em um número limitado de orientações do desejo”.

O advento da AIDS confirma o paradigma heterossexual

        Eis que no início da década de 1980, algo de novo vem desequilibrar os paradigmas sociais. Rapidamente, a AIDS no meio da década já é considerada uma epidemia – o câncer gay. “A epidemia é tanto um fato biológico como uma construção social. A AIDS foi construída culturalmente e houve uma decisão de delimita-la como DST. Uma epidemia que surge a partir de um vírus, que poderia ter sido pensada como a hepatite B. Ou seja, uma doença viral, acabou sendo compreendida como uma doença sexualmente transmissível. Então, a AIDS foi um choque. E da forma como foi compreendida tornou-se uma resposta conservadora a Revolução Sexual”, iniciada nos anos 1960. “A epidemia de AIDS mostrou que, na primeira oportunidade, os valores conservadores e os grupos sociais interessados em manter tradições se voltaram contra as vanguardas sociais”.

A Queer Nation

        “A ideia por trás do Queer Nation era a de que parte da nação foi rejeitada, foi humilhada, considerada abjeta, motivo de desprezo e nojo, medo de contaminação. É assim que surge o Queer, como reação e resistência a um novo momento biopolítico instaurado pela AIDS.

        Queer é um xingamento, é um palavrão em inglês. Realmente é um palavrão, um xingamento, uma injuria.     A problemática Queer não é exatamente a da homossexualidade, mas a da abjeção. A ‘abjeção’ se refere ao espaço a que a coletividade costuma relegar aqueles e aquelas que considera uma ameaça ao seu bom funcionamento, a ordem social e política. O ‘aidético’, identidade do doente de AIDS na década de 1980, encarnava esse fantasma ameaçador contra o qual a coletividade expunha seu código moral.

        Os movimentos Queer focarão mais na critica as exigências sociais, aos valores, as convenções culturais com forças autoritárias e preconceituosas. E se pautarão menos pela demanda de aceitação ou incorporação coletiva. O Queer, portanto, não é uma defesa da homossexualidade, é a recusa dos valores morais violentos que instituem e fazem valer a linha da abjeção, essa fronteira rígida entre os que são socialmente aceitos e os que são relegados a humilhação e ao desprezo coletivo”.

O poder está em toda parte

        “O movimento homossexual e sua bandeira do ‘orgulho gay’ é uma palavra de ordem com origem em uma classe média branca letrada que, provavelmente de forma inconsciente, parecia tentar criar uma imagem limpa e aceitável da homossexualidade”. Os movimentos homossexuais veem o poder como algo que opera pela repressão. Os sujeitos homossexuais lutam pela liberdade da sua expressão sexual.

        “O Queer busca tornar visíveis as injustiças e violências implicadas na disseminação e na demanda do cumprimento das normas e das conversões culturais, violências e injustiças envolvidas tanto na criação dos ‘normais’ quanto dos ‘anormais’”. Para o Queer Nation, o poder é concebido como mecanismos sociais disciplinadores. No Queer, a luta é para descontruir as crenças, normas e convenções culturais que constituem os sujeitos.

        Ninguém detém o poder. Nos é que associamos o poder a alguém ou a uma instituição. O poder é uma situação estratégica constituída numa dada sociedade em uma época especifica.

A sexualidade como algo construído socialmente

        “Essa nova onda dos movimentos sociais problematiza a cultura e a imposição social de normas e convenções culturais que, de forma astuciosa e frequentemente invisível, nos forma como sujeitos, ou melhor, nos assujeitam.

        O gênero é relacionado a normas e convenções culturais que variam no tempo e de sociedade para sociedade. Homens e mulheres que constroem um perfil de gênero esperado e escondem seu desejo por pessoas do mesmo sexo sofrem menos perseguição? A sociedade incentiva essa forma ‘comportada’, no fundo, reprimida e conformista, de lidar com o desejo, inclusive por meio da forma como persegue e maltrata aqueles que são cotidianamente humilhados sendo xingados de afeminados, bichas, viados, termos que lembram o sentido original de Queer na língua inglesa.

        As pessoas aprendem sobre sexualidade ouvindo injurias com relação a si próprias ou com relação aos outros. Quer você seja a pessoa que sofre a injuria, é xingada, é humilhada; quer seja a que ouve ou vê alguém ser maltratado dessa forma, é nessa situação da vergonha que descobre o que é a sexualidade.

        Daí ser simplista resumir essas violências no termo ‘homofobia’, a violência dirigida a homossexuais, pois essas violências se dirigem a todos e todas, apenas em graus diferentes. Essas violências são expressão da forma como somos socializados dentro de um regime de terrorismo cultural. Algo coletivamente imposto e experienciado; sobretudo, algo que vai além de atos isolados de violência. Fazendo do medo da violência a forma mais eficiente de imposição da heterossexualidade compulsória”.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        “A ameaça constante de retaliações e violências nos induz a adotar comportamentos heterossexuais. Ironias, piadas, injurias e ameaças costumam preceder tapas, socos ou surras. A recusa violenta de formas de expressão de gênero ou sexualidade em desacordo com o padrão é antecedida e até apoiada por um processo educativo, ou seja, por um currículo oculto comprometido com a imposição da heterossexualidade compulsória”.

Referencias

MISKOLCI, Richard. Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças. Belo Horizonte: Autentica Editora: UFOP – Universidade Federal de Ouro Preto, 2016 – Serie Cadernos da Diversidade; 6.

 

Ansiedade como uma leve tensão emocional

        O que é a ansiedade? Quais são os sintomas que definem um estado de ansiedade. Em geral, define-se ansiedade como uma leve tensão emocional, vivenciada no corpo como um todo. Estamos ansiosos quando dizemos a nos mesmos que não estamos nos sentindo bem. Quando sentimos um mal-estar generalizado, uma sensação de que algo ruim irá acontecer.

        Essa sensação pode vir sob a forma de um aperto no peito, de uma contração muscular que repercute no interior do corpo, uma tensão no pescoço e na face, um desconforto visceral ou respiratório. Uma sensação acompanhada de emoções intensas, de apreensão e medo de que algo desagradável irá acontecer.

        A ansiedade é uma reação habitual de nosso jeito de estar no mundo. A ansiedade é provocada pelo estresse das situações corriqueiras que desestabilizam o nosso equilíbrio. Ficamos ansiosos quando saímos de um estado de equilíbrio para um estado de desequilíbrio. A vida é movimento. Sendo assim, não se vive sem ansiedade.

        Por exemplo, se estou com as minhas necessidades alimentares saciadas, não sinto fome. Quando começo a sentir fome, me preparo para estabilizar os meus níveis de nutrientes. Nem sempre temos algo disponível na geladeira para comer. Às vezes, precisamos comprar os alimentos e ainda tê-los que cozinhar para comer. Quanta demora para voltar ao estado de equilíbrio sem fome.

        Essa impossibilidade de suprir, imediatamente, a minha fome, aumenta a minha sensação de fome. A minha fome será maior quanto maior for o tempo que eu não suprir a minha fome. Sem nos alimentar, definhamos. Uma sensação ruim, além da fome, é claro, começa a nos preencher de algo desagradável, de um mal-estar generalizado. A fome não suprida pode nos levar a um estado ansioso de excitação. Muitas pessoas sentem raiva quando estão com fome.

        Mas nem só de pão vive o homem. A ansiedade também está presente nas circunstancias rotineiras da vida e perante as situações imprevisíveis. A ansiedade provoca alterações em nossas funções neurovegetativas, em nossa coordenação muscular, em nossa emoção, uma impaciência corporal, que pode nos levar ao temor e ao pânico.

        Essa impaciência experimentada no corpo sob a forma de um mal-estar indefinível nos faz pensar que a nossa existência corre perigo de continuação. Aqui, alguns filósofos, psicólogos e poetas entram em ação e passam a chamar a ansiedade de angustia.

        Portanto, a ansiedade ou a angustia emerge diretamente da relação do homem com o mundo. Em particular, a ansiedade emerge da forma como cada um de nós responde as situações da nossa existência. Todos as pessoas são ansiosas, porém, cada um tem o seu jeito próprio de vivenciar a ansiedade.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        Assim como cada um lida com a ansiedade a sua maneira, cada um faz a gestão da sua ansiedade de acordo com as circunstancias. Daí a necessidade de cada um exigir um tratamento individual do seu estar no mundo.

Referencias

CUNHA, A. G. Pelos trilhos da angustia (ansiar, angustiar, neurotizar). In DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO DA LÍNGUA PORTUGUESA. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira (2ª Edição), Pg. 52, 1998. Acesso em 02 de março de 2017. Disponível em

Você não vê sentido na sua existência?

        Você se sente angustiado e não vê sentido na vida que está levando? Você se sente limitado, aprisionado e acuado? Você sente que essa vida que você está levando não é a vida que você imaginou para você? Você sente que vive a vida dos outros e não a sua própria vida? Você não vê sentido na sua existência?

        Você vive se lamentando muito por ter nascido nesta época de dificuldades? Não parece uma época muito inspiradora, mesmo. Você sente uma sensação de perda, pessimismo e desencanto com o presente?

        Sim, é verdade. Você tem uma mente que deixa você desanimado. Você se sente tão desanimado, mas tão desanimado que nem tem forças para o suicídio.  Que tal se você experimentasse viver sentimentos humanos e necessários, tais como a angústia, a desilusão, a tristeza, a perda e o cansaço? Somente para sair um pouco dessa sua rotina desanimada!

        Você está sempre se desculpando e culpando os outros, o sistema, os seus pais, a vida, tudo? O que é isso que você faz com você? Você sabe qual é o jeito certo de fazer as coisas? Você diz que faz tudo errado, mas que esse não é o seu jeito de fazer as coisas.

        Você sente muita inveja daqueles que fazem o que querem? Bem, é você quem acredita nisso – que eles fazem o que querem. Será que os outros fazem mesmo aquilo que querem? Você é aquele que sempre faz o que os outros querem? E você é somente aquele que queria apenas poder querer aquilo que faz!

        Se você quer ser médico (a), professor (a), padeiro (a), um “bom” (a) filho (a), corrupto (a), etc., você precisa fazer alguma coisa a respeito disso. Se você quer ter um projeto de vida e valores, você precisa fazer alguma coisa a respeito disso?

        No entanto, você se sente tão desanimado. Você se sente tão perdido. Você se sente cansado. Você se sente muito cansado.

O que a psicologia pode fazer por você?

        Em diversos momentos das nossas vidas nos deparamos com dificuldades nos relacionamentos, nas conquistas ou nas satisfações. O que faz a psicologia é entender como essas dificuldades se processam em nos. A psicologia nos ajuda entender como nos comportamos dessa ou daquela maneira nos ajuda a lidar com as dificuldades de forma satisfatória.

        A psicologia nos ajuda conhecer os nossos limites, as nossas potencialidades e capacidades, assim, aprendemos a evitar sofrimentos desnecessários.

        Durante um processo de psicoterapia você será encorajado a vivenciar e expressar os seus sentimentos. E através da identificação e compreensão de como os seus sentimentos se formam você aprendera a lidar com eles com autonomia de poder.

Como é que você sabe que você é você?

        Você sabe como você sabe o que você sente? Como é que você sabe que você é você que está sentindo? Você sabe como se ligam aquilo que você sabe, a mente, e aquilo que você sente, o corpo? Vamos tentar uma compreensão, dentre outras tantas que estão por aí.

        Você sabe o que é atitude? Alguns psicólogos definem atitude como um “constructo hipotético”. Chi …. Caramba! Já começou complicando! Sem estresse! Constructo hipotético é somente uma entidade que não existe fisicamente. Calma! Calma! Não é uma entidade espiritual. É uma ideia. Constructo hipotético é uma ideia sobre alguma coisa. A psicologia está repleta de constructos hipotéticos, assim como as pesquisas cientificas.

        Mas voltemos a atitude. Alguns cientistas creem que a atitude precede e causa o comportamento de uma pessoa, quando ela se encontra diante um objeto particular ou em uma certa situação. Quando os psicólogos falam de atitudes se referem em geral a um afeto ou disponibilidade para responder de certa maneira frente a um objeto ou fenômeno social. Hum… continua complicado! Calma, vamos pesquisando! Afinal, segundo alguns psicólogos, todos nós somos cientistas – eu, você, a torcida do Flamengo.

        Nina Bull, entre 1947/1951, examinou a relação entre a emoção e a postura, associando essa relação como uma relação entre o corpo e a mente. Vejam que coisa fantástica ela concluiu: que existe uma relação de sentimento que está associada com a emoção e uma atitude motora (postura ou posicionamento) e que uma mudança quantitativa nos sentimentos resulta numa mudança no comportamento expressivo.

        Que máximo! Quer dizer que se eu mudar a intensidade de um sentimento, por exemplo, a raiva, eu mudarei a minha postura? Mas claro, quanto mais raivoso mais tenso a gente vai ficando. Cada vez mais vou expressando uma postura parecida como uma postura de combate, de luta!

        Seis principais estados emocionais foram denominados por Nina Bull: alegria, triunfo, medo, raiva, desgosto e depressão. Uns deles possuem uma significação positiva, para algumas pessoas, como os que se traduzem como agradáveis: alegria e triunfo. Os demais inspiram estados desagradáveis, para alguns.

        Para cada emoção estudada, Nina Bull concluiu que existe um complexo particular de atitudes motoras, associadas com esta emoção. Ainda mais, ela afirma que determinados comportamentos aumentam, amplificam este sentimento. Em outras palavras, existe uma postura particular para cada emoção que intensifica as emoções, determinando-se desta forma a relação entre o afeto e o sistema nervoso.

        A sua atividade cognitiva, ou seja, seu pensamento, é, portanto, afetado por processos emocionais. Os rendimentos nos exames ou outras situações de avaliação podem ser diminuídos quando você é tomado por uma reação ansiosa de medo.

        Você pode estar se perguntando como isso acontece. Como as atitudes são ativadas e expressas no corpo? Tem gente que estuda isso e se apoia na hipótese de que as atitudes são ativadas e expressas no corpo através do sistema nervoso central e do sistema nervoso periférico.

        Ah… e você achava que era causado pelo sopro divino! Que nada, o neuroanatomista James Papez (1937) já demonstrara que a emoção não é função de centros cerebrais específicos e sim de um circuito, envolvendo quatro estruturas básicas, interconectadas por feixes nervosos: o hipotálamo, o tálamo, o giro cingulado e o hipocampo.

        Caramba! Quanta estrutura envolvida apenas para eu sentir raiva! É.… e ainda tem aquela tal amígdala. Amigdala? O que a sua amigdala tem a ver com as suas emoções? E quem fez cirurgia e retirou as amigdalas? Calma! Essa amigdala não é o gânglio linfático localizado na garganta, não. Essa amigdala é uma estrutura em forma de amêndoa, situada dentro da região anteroinferior do lobo temporal cerebral.

        Essa amigdala é fundamental para a autopreservação. Ela é o centro identificador do perigo. É a amigdala que nos possibilita o medo e a ansiedade, e nos coloca em situação de alerta. Sentindo medo e ansiedade você se prepara para fugir ou enfrentar o perigo. Essa amigdala cerebral é muita nossa amiga.

        Você sabe que todo cientista é uma pessoa cruel, né. Pois, então, você sabia que eles destruíram as amígdalas (são duas, uma para cada um dos hemisférios cerebrais) de um ratinho (os ratinhos são os bichinhos preferidos para a crueldade cientifica). Isso fez com que o bichinho se tornasse dócil, sexualmente não-discriminativo, afetivamente descaracterizado e indiferente às situações de risco.

        Emoções e sentimentos, como ira, pavor, paixão, amor, ódio, alegria e tristeza, são criações mamíferas, processadas no sistema límbico. É no sistema límbico que se organizam os pensamentos, as emoções e os desejos, e é onde a pessoa se reconhece como um eu. Atenção, onde se organizam e não onde se originam!

        Porém, esse acesso a como uma pessoa se reconhece como um eu, ainda não foi identificado diretamente no organismo físico.

Psicologia e Psicoterapia

Você não sabe como fazer isso sozinho?

Mas quer fazer do seu jeito?

Busque a ajuda de um psicólogo para fazer do seu jeito junto com você.

Referencias

FROHLICH, Sulamita e FRANCO, Carlos Alberto da silva. Os pares de nervos cranianos: uma abordagem em neurociência cognitiva. UFRJ – IM – DCC NEUROCIÊNCIA COGNITIVA E COMPUTAÇÃO MP – 01/2004. Acesso em 28 de janeiro de 2015. Disponível em