As pessoas vivem cheias de tedio

         Apesar de tantas opções de divertimento ou, talvez, por conta disso, as pessoas vivem cheias de tedio. Quando termina o divertimento, o passeio, a balada, o cinema, o almoço, as pessoas se dão conta que estão com elas mesmas. É quando o tedio se faz presente. Mas isso é bem fácil de explicar: é muito difícil ficar com alguém que a gente não conhece. Afinal, o que temos para conversar com essa pessoa?

         As pessoas estão sempre irritadas, intolerantes, contrariadas, sofrendo por antecipação. As pessoas se concentram apenas por poucos instantes e a memória retém muito pouca experiencia. As pessoas se comportam dessa mesma maneira com relação a si mesmas: convivem pouco consigo e se ignoram. As pessoas recebem muita informação, diariamente, sobre o mundo, sobre tudo o que está acontecendo. Mas a informação sobre si mesmas, onde é que elas conseguem?

         Algumas pessoas tem a estranha pratica de escovar os dentes após as refeições. Outras pessoas tem a estranha pratica de tomar banho pelo menos uma vez por dia. E quantas vezes por dia higienizamos nossas emoções e os nossos pensamentos? Se não escovamos os dentes após as refeições, o que fazemos com aquela sobra de comida que ficou entre os dentes? Se não tomamos banho, o que fazemos com o odor que exala do nosso corpo? E quando uma ansiedade nos invade, uma ideia punitiva nos atormenta, como procedemos?

O tedio é uma escolha?

         Somos mesmo livres? Os nossos pensamentos são tão livres que pensamos coisas que outras pessoas jamais pensaram? Escolhemos o que pensamos? E o que fazemos? Somos livres para fazer o que temos vontade? Estou sentado numa cadeira, sinto sede, me levanto da cadeira, caminho até a cozinha, abro a geladeira, pego o vasilhame com agua gelada, encho um copo com um pouco daquela agua. Como sou livre para fazer o que eu quero, eu jogo a agua na pia e retorno para sentar na cadeira onde me encontrava. Concluo, então, que sou livre para fazer o que quiser, mas continuo com sede. Mas por que é que isso não acontece com meus pensamentos e as minhas emoções? Meus pensamentos e minhas emoções me escravizam. Por que é que parece que é algo que pensa em mim e não eu que penso?

         Nossos pensamentos são formados nas nossas experiencias, nas nossas relações com o ambiente e na relação que mantemos com a gente mesmo. Aquilo a que chamamos de eu é um produto das interações que experienciamos com o mundo. Os nossos pensamentos são o produto da interação de vários fatores: nossa genética, as relações com o fisiológico de quem ou onde fomos gerados, o nosso ambiente social e geográfico, as nossas relações com a gente mesmo.

         Essas interações são realizadas sem que nós tenhamos quaisquer escolhas sobre como essas interações deveriam ser processadas. As escolhas que hoje fazemos estão fundamentadas no produto dessas interações que fizemos. Essas escolhas que hoje fazemos são tomadas fundamentadas em escolhas que não tivemos a menor influência sobre elas. Fizemos essas interações sem que pudéssemos decidir sobre qual direção tomar. E ainda dizem que somos livres para escolher? As nossas escolhas são o produto de uma escolha fundamentada numa base de dados sobre a qual tivemos muita pouca escolha.

Podemos desfazer o tedio?

         O registro das nossas experiencias é de certa forma construído sem a nossa influencia consciente. A nossa própria consciência é produto desses registros. Sendo assim, se é essa nossa consciência, fundada em bases por nos ignoradas, que representa a nossa capacidade de escolha, somos mesmo dotados de liberdade de escolha?

         Submetidos a ideia dessa suposta liberdade de escolha, muitas pessoas, em todas as sociedades do mundo, se cobram maneiras de comportamento. Essas pessoas se punem quando falham na obtenção das suas metas. As pessoas se punem caso se comportem de maneiras que não correspondam as suas expectativas.

         A consciência de um fenômeno não é uma compreensão direta daquele fenômeno. O que pensamos de um acontecimento é um produto gerado por um processo complexo que envolve as nossas sensações, as nossas emoções, os nossos sentimentos. As nossas emoções e os nossos sentimentos são também gerados por um complexo processo de produção do qual não temos nenhuma consciência. Mas nem tudo está perdido, se não podemos escolher como sentimos, podemos compreender como sentimos. E compreendendo como sentimos, podemos fazer diferente.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        Você não sabe como fazer isso sozinho? Mas quer fazer do seu jeito?

Referencias

CURY, Augusto. Ansiedade: como enfrentar o mal do século: a Síndrome do Pensamento Acelerado e como e por que a humanidade adoeceu coletivamente, das crianças aos adultos. São Paulo: Saraiva, 2014.

A representatividade e a autoridade das instituições tradicionais

        Os movimentos sociais que explodiram na década de 1960 contavam com a participação de indivíduos das classes medias que encorajavam os indivíduos das classes mais populares para se engajarem nas lutas. Aqueles movimentos questionavam a representatividade e a autoridade das instituições tradicionais como o Estado, a Igreja, a Escola e a Família. De forma geral, esses movimentos afirmavam que o privado é político e a desigualdade ultrapassava o econômico.

        Nesse contexto social, das décadas de 1960 e 1970, surgem os movimentos feministas e os movimentos homossexuais com inspiração liberacionista. Esses movimentos viam as mulheres e os homossexuais como indivíduos oprimidos que deviam lutar pela sua liberdade. Esses movimentos concebem o poder como uma atividade de repressão, operando de cima para baixo, da classe dominante para a classe dominada. Esses movimentos estavam fundamentados na luta de classes de inspiração na teoria de Karl Marx (1818-1883), na opressão exercida pelas classes dominantes sobre as classes dominadas.

        Nas décadas de 1970 e 1980, a sociedade heterossexual tentou mostrar que a maioria das pessoas eram heterossexuais. Os movimentos de liberação homossexuais caíram na armadilha heterossexual de que a homossexualidade seria algo restrito a uma minoria que a sociedade precisava aprender a conhecer e respeitar. Naquela época, a homossexualidade era chamada de homossexualismo.

A homossexualidade é algo socialmente forjado

        O termo homossexualismo foi criado no ambiente medico, no século 19. O sufixo ismo denota uma condição patológica como diversas outras condições consideradas doenças. O sufixo ismo também denota um conceito teórico fechado em si mesmo, portanto, sem interação com outros sistemas. Daí a luta dos movimentos homossexuais para alterar a pratica sexual para sexualidade e não sexualismo, pois como já se tinha conhecimento, a pratica heterossexual não se limitava apenas a procriação da espécie.

        Durante as décadas de 1970 e 1980, fizeram-nos pressupor que a maioria das pessoas eram heterossexuais. Fazendo-nos ter a impressão de que a “homossexualidade era algo restrito a uma minoria diferente que a sociedade precisava aprender a conhecer e respeitar”. Entretanto, esse pressuposto de que a maioria das pessoas é heterossexual é bastante questionável. “Se a homossexualidade é uma construção social, a heterossexualidade também é”. O binário hétero-homo é também uma construção histórica. “As pessoas nunca couberam apenas em um número limitado de orientações do desejo”.

O advento da AIDS confirma o paradigma heterossexual

        Eis que no início da década de 1980, algo de novo vem desequilibrar os paradigmas sociais. Rapidamente, a AIDS no meio da década já é considerada uma epidemia – o câncer gay. “A epidemia é tanto um fato biológico como uma construção social. A AIDS foi construída culturalmente e houve uma decisão de delimita-la como DST. Uma epidemia que surge a partir de um vírus, que poderia ter sido pensada como a hepatite B. Ou seja, uma doença viral, acabou sendo compreendida como uma doença sexualmente transmissível. Então, a AIDS foi um choque. E da forma como foi compreendida tornou-se uma resposta conservadora a Revolução Sexual”, iniciada nos anos 1960. “A epidemia de AIDS mostrou que, na primeira oportunidade, os valores conservadores e os grupos sociais interessados em manter tradições se voltaram contra as vanguardas sociais”.

A Queer Nation

        “A ideia por trás do Queer Nation era a de que parte da nação foi rejeitada, foi humilhada, considerada abjeta, motivo de desprezo e nojo, medo de contaminação. É assim que surge o Queer, como reação e resistência a um novo momento biopolítico instaurado pela AIDS.

        Queer é um xingamento, é um palavrão em inglês. Realmente é um palavrão, um xingamento, uma injuria.     A problemática Queer não é exatamente a da homossexualidade, mas a da abjeção. A ‘abjeção’ se refere ao espaço a que a coletividade costuma relegar aqueles e aquelas que considera uma ameaça ao seu bom funcionamento, a ordem social e política. O ‘aidético’, identidade do doente de AIDS na década de 1980, encarnava esse fantasma ameaçador contra o qual a coletividade expunha seu código moral.

        Os movimentos Queer focarão mais na critica as exigências sociais, aos valores, as convenções culturais com forças autoritárias e preconceituosas. E se pautarão menos pela demanda de aceitação ou incorporação coletiva. O Queer, portanto, não é uma defesa da homossexualidade, é a recusa dos valores morais violentos que instituem e fazem valer a linha da abjeção, essa fronteira rígida entre os que são socialmente aceitos e os que são relegados a humilhação e ao desprezo coletivo”.

O poder está em toda parte

        “O movimento homossexual e sua bandeira do ‘orgulho gay’ é uma palavra de ordem com origem em uma classe média branca letrada que, provavelmente de forma inconsciente, parecia tentar criar uma imagem limpa e aceitável da homossexualidade”. Os movimentos homossexuais veem o poder como algo que opera pela repressão. Os sujeitos homossexuais lutam pela liberdade da sua expressão sexual.

        “O Queer busca tornar visíveis as injustiças e violências implicadas na disseminação e na demanda do cumprimento das normas e das conversões culturais, violências e injustiças envolvidas tanto na criação dos ‘normais’ quanto dos ‘anormais’”. Para o Queer Nation, o poder é concebido como mecanismos sociais disciplinadores. No Queer, a luta é para descontruir as crenças, normas e convenções culturais que constituem os sujeitos.

        Ninguém detém o poder. Nos é que associamos o poder a alguém ou a uma instituição. O poder é uma situação estratégica constituída numa dada sociedade em uma época especifica.

A sexualidade como algo construído socialmente

        “Essa nova onda dos movimentos sociais problematiza a cultura e a imposição social de normas e convenções culturais que, de forma astuciosa e frequentemente invisível, nos forma como sujeitos, ou melhor, nos assujeitam.

        O gênero é relacionado a normas e convenções culturais que variam no tempo e de sociedade para sociedade. Homens e mulheres que constroem um perfil de gênero esperado e escondem seu desejo por pessoas do mesmo sexo sofrem menos perseguição? A sociedade incentiva essa forma ‘comportada’, no fundo, reprimida e conformista, de lidar com o desejo, inclusive por meio da forma como persegue e maltrata aqueles que são cotidianamente humilhados sendo xingados de afeminados, bichas, viados, termos que lembram o sentido original de Queer na língua inglesa.

        As pessoas aprendem sobre sexualidade ouvindo injurias com relação a si próprias ou com relação aos outros. Quer você seja a pessoa que sofre a injuria, é xingada, é humilhada; quer seja a que ouve ou vê alguém ser maltratado dessa forma, é nessa situação da vergonha que descobre o que é a sexualidade.

        Daí ser simplista resumir essas violências no termo ‘homofobia’, a violência dirigida a homossexuais, pois essas violências se dirigem a todos e todas, apenas em graus diferentes. Essas violências são expressão da forma como somos socializados dentro de um regime de terrorismo cultural. Algo coletivamente imposto e experienciado; sobretudo, algo que vai além de atos isolados de violência. Fazendo do medo da violência a forma mais eficiente de imposição da heterossexualidade compulsória”.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        “A ameaça constante de retaliações e violências nos induz a adotar comportamentos heterossexuais. Ironias, piadas, injurias e ameaças costumam preceder tapas, socos ou surras. A recusa violenta de formas de expressão de gênero ou sexualidade em desacordo com o padrão é antecedida e até apoiada por um processo educativo, ou seja, por um currículo oculto comprometido com a imposição da heterossexualidade compulsória”.

Referencias

MISKOLCI, Richard. Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças. Belo Horizonte: Autentica Editora: UFOP – Universidade Federal de Ouro Preto, 2016 – Serie Cadernos da Diversidade; 6.

 

Ansiedade como uma leve tensão emocional

        O que é a ansiedade? Quais são os sintomas que definem um estado de ansiedade. Em geral, define-se ansiedade como uma leve tensão emocional, vivenciada no corpo como um todo. Estamos ansiosos quando dizemos a nos mesmos que não estamos nos sentindo bem. Quando sentimos um mal-estar generalizado, uma sensação de que algo ruim irá acontecer.

        Essa sensação pode vir sob a forma de um aperto no peito, de uma contração muscular que repercute no interior do corpo, uma tensão no pescoço e na face, um desconforto visceral ou respiratório. Uma sensação acompanhada de emoções intensas, de apreensão e medo de que algo desagradável irá acontecer.

        A ansiedade é uma reação habitual de nosso jeito de estar no mundo. A ansiedade é provocada pelo estresse das situações corriqueiras que desestabilizam o nosso equilíbrio. Ficamos ansiosos quando saímos de um estado de equilíbrio para um estado de desequilíbrio. A vida é movimento. Sendo assim, não se vive sem ansiedade.

        Por exemplo, se estou com as minhas necessidades alimentares saciadas, não sinto fome. Quando começo a sentir fome, me preparo para estabilizar os meus níveis de nutrientes. Nem sempre temos algo disponível na geladeira para comer. Às vezes, precisamos comprar os alimentos e ainda tê-los que cozinhar para comer. Quanta demora para voltar ao estado de equilíbrio sem fome.

        Essa impossibilidade de suprir, imediatamente, a minha fome, aumenta a minha sensação de fome. A minha fome será maior quanto maior for o tempo que eu não suprir a minha fome. Sem nos alimentar, definhamos. Uma sensação ruim, além da fome, é claro, começa a nos preencher de algo desagradável, de um mal-estar generalizado. A fome não suprida pode nos levar a um estado ansioso de excitação. Muitas pessoas sentem raiva quando estão com fome.

        Mas nem só de pão vive o homem. A ansiedade também está presente nas circunstancias rotineiras da vida e perante as situações imprevisíveis. A ansiedade provoca alterações em nossas funções neurovegetativas, em nossa coordenação muscular, em nossa emoção, uma impaciência corporal, que pode nos levar ao temor e ao pânico.

        Essa impaciência experimentada no corpo sob a forma de um mal-estar indefinível nos faz pensar que a nossa existência corre perigo de continuação. Aqui, alguns filósofos, psicólogos e poetas entram em ação e passam a chamar a ansiedade de angustia.

        Portanto, a ansiedade ou a angustia emerge diretamente da relação do homem com o mundo. Em particular, a ansiedade emerge da forma como cada um de nós responde as situações da nossa existência. Todos as pessoas são ansiosas, porém, cada um tem o seu jeito próprio de vivenciar a ansiedade.

        Assim como cada um lida com a ansiedade a sua maneira, cada um faz a gestão da sua ansiedade de acordo com as circunstancias. Daí a necessidade de cada um exigir um tratamento individual do seu estar no mundo.

Referencias

CUNHA, A. G. Pelos trilhos da angustia (ansiar, angustiar, neurotizar). In DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO DA LÍNGUA PORTUGUESA. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira (2ª Edição), Pg. 52, 1998. Acesso em 02 de março de 2017. Disponível em

Você não vê sentido na sua existência?

        Você se sente angustiado e não vê sentido na vida que está levando? Você se sente limitado, aprisionado e acuado? Você sente que essa vida que você está levando não é a vida que você imaginou para você? Você sente que vive a vida dos outros e não a sua própria vida? Você não vê sentido na sua existência?

        Você vive se lamentando muito por ter nascido nesta época de dificuldades? Não parece uma época muito inspiradora, mesmo. Você sente uma sensação de perda, pessimismo e desencanto com o presente?

        Sim, é verdade. Você tem uma mente que deixa você desanimado. Você se sente tão desanimado, mas tão desanimado que nem tem forças para o suicídio.  Que tal se você experimentasse viver sentimentos humanos e necessários, tais como a angústia, a desilusão, a tristeza, a perda e o cansaço? Somente para sair um pouco dessa sua rotina desanimada!

        Você está sempre se desculpando e culpando os outros, o sistema, os seus pais, a vida, tudo? O que é isso que você faz com você? Você sabe qual é o jeito certo de fazer as coisas? Você diz que faz tudo errado, mas que esse não é o seu jeito de fazer as coisas.

        Você sente muita inveja daqueles que fazem o que querem? Bem, é você quem acredita nisso – que eles fazem o que querem. Será que os outros fazem mesmo aquilo que querem? Você é aquele que sempre faz o que os outros querem? E você é somente aquele que queria apenas poder querer aquilo que faz!

        Se você quer ser médico (a), professor (a), padeiro (a), um “bom” (a) filho (a), corrupto (a), etc., você precisa fazer alguma coisa a respeito disso. Se você quer ter um projeto de vida e valores, você precisa fazer alguma coisa a respeito disso?

        No entanto, você se sente tão desanimado. Você se sente tão perdido. Você se sente cansado. Você se sente muito cansado.

O que a psicologia pode fazer por você?

        Em diversos momentos das nossas vidas nos deparamos com dificuldades nos relacionamentos, nas conquistas ou nas satisfações. O que faz a psicologia é entender como essas dificuldades se processam em nos. A psicologia nos ajuda entender como nos comportamos dessa ou daquela maneira nos ajuda a lidar com as dificuldades de forma satisfatória.

        A psicologia nos ajuda conhecer os nossos limites, as nossas potencialidades e capacidades, assim, aprendemos a evitar sofrimentos desnecessários.

        Durante um processo de psicoterapia você será encorajado a vivenciar e expressar os seus sentimentos. E através da identificação e compreensão de como os seus sentimentos se formam você aprendera a lidar com eles com autonomia de poder.

Como é que você sabe que você é você?

        Você sabe como você sabe o que você sente? Como é que você sabe que você é você que está sentindo? Você sabe como se ligam aquilo que você sabe, a mente, e aquilo que você sente, o corpo? Vamos tentar uma compreensão, dentre outras tantas que estão por aí.

        Você sabe o que é atitude? Alguns psicólogos definem atitude como um “constructo hipotético”. Chi …. Caramba! Já começou complicando! Sem estresse! Constructo hipotético é somente uma entidade que não existe fisicamente. Calma! Calma! Não é uma entidade espiritual. É uma ideia. Constructo hipotético é uma ideia sobre alguma coisa. A psicologia está repleta de constructos hipotéticos, assim como as pesquisas cientificas.

        Mas voltemos a atitude. Alguns cientistas creem que a atitude precede e causa o comportamento de uma pessoa, quando ela se encontra diante um objeto particular ou em uma certa situação. Quando os psicólogos falam de atitudes se referem em geral a um afeto ou disponibilidade para responder de certa maneira frente a um objeto ou fenômeno social. Hum… continua complicado! Calma, vamos pesquisando! Afinal, segundo alguns psicólogos, todos nós somos cientistas – eu, você, a torcida do Flamengo.

        Nina Bull, entre 1947/1951, examinou a relação entre a emoção e a postura, associando essa relação como uma relação entre o corpo e a mente. Vejam que coisa fantástica ela concluiu: que existe uma relação de sentimento que está associada com a emoção e uma atitude motora (postura ou posicionamento) e que uma mudança quantitativa nos sentimentos resulta numa mudança no comportamento expressivo.

        Que máximo! Quer dizer que se eu mudar a intensidade de um sentimento, por exemplo, a raiva, eu mudarei a minha postura? Mas claro, quanto mais raivoso mais tenso a gente vai ficando. Cada vez mais vou expressando uma postura parecida como uma postura de combate, de luta!

        Seis principais estados emocionais foram denominados por Nina Bull: alegria, triunfo, medo, raiva, desgosto e depressão. Uns deles possuem uma significação positiva, para algumas pessoas, como os que se traduzem como agradáveis: alegria e triunfo. Os demais inspiram estados desagradáveis, para alguns.

        Para cada emoção estudada, Nina Bull concluiu que existe um complexo particular de atitudes motoras, associadas com esta emoção. Ainda mais, ela afirma que determinados comportamentos aumentam, amplificam este sentimento. Em outras palavras, existe uma postura particular para cada emoção que intensifica as emoções, determinando-se desta forma a relação entre o afeto e o sistema nervoso.

        A sua atividade cognitiva, ou seja, seu pensamento, é, portanto, afetado por processos emocionais. Os rendimentos nos exames ou outras situações de avaliação podem ser diminuídos quando você é tomado por uma reação ansiosa de medo.

        Você pode estar se perguntando como isso acontece. Como as atitudes são ativadas e expressas no corpo? Tem gente que estuda isso e se apoia na hipótese de que as atitudes são ativadas e expressas no corpo através do sistema nervoso central e do sistema nervoso periférico.

        Ah… e você achava que era causado pelo sopro divino! Que nada, o neuroanatomista James Papez (1937) já demonstrara que a emoção não é função de centros cerebrais específicos e sim de um circuito, envolvendo quatro estruturas básicas, interconectadas por feixes nervosos: o hipotálamo, o tálamo, o giro cingulado e o hipocampo.

        Caramba! Quanta estrutura envolvida apenas para eu sentir raiva! É.… e ainda tem aquela tal amígdala. Amigdala? O que a sua amigdala tem a ver com as suas emoções? E quem fez cirurgia e retirou as amigdalas? Calma! Essa amigdala não é o gânglio linfático localizado na garganta, não. Essa amigdala é uma estrutura em forma de amêndoa, situada dentro da região anteroinferior do lobo temporal cerebral.

        Essa amigdala é fundamental para a autopreservação. Ela é o centro identificador do perigo. É a amigdala que nos possibilita o medo e a ansiedade, e nos coloca em situação de alerta. Sentindo medo e ansiedade você se prepara para fugir ou enfrentar o perigo. Essa amigdala cerebral é muita nossa amiga.

        Você sabe que todo cientista é uma pessoa cruel, né. Pois, então, você sabia que eles destruíram as amígdalas (são duas, uma para cada um dos hemisférios cerebrais) de um ratinho (os ratinhos são os bichinhos preferidos para a crueldade cientifica). Isso fez com que o bichinho se tornasse dócil, sexualmente não-discriminativo, afetivamente descaracterizado e indiferente às situações de risco.

        Emoções e sentimentos, como ira, pavor, paixão, amor, ódio, alegria e tristeza, são criações mamíferas, processadas no sistema límbico. É no sistema límbico que se organizam os pensamentos, as emoções e os desejos, e é onde a pessoa se reconhece como um eu. Atenção, onde se organizam e não onde se originam!

        Porém, esse acesso a como uma pessoa se reconhece como um eu, ainda não foi identificado diretamente no organismo físico.

Psicologia e Psicoterapia

Você não sabe como fazer isso sozinho?

Mas quer fazer do seu jeito?

Busque a ajuda de um psicólogo para fazer do seu jeito junto com você.

Referencias

FROHLICH, Sulamita e FRANCO, Carlos Alberto da silva. Os pares de nervos cranianos: uma abordagem em neurociência cognitiva. UFRJ – IM – DCC NEUROCIÊNCIA COGNITIVA E COMPUTAÇÃO MP – 01/2004. Acesso em 28 de janeiro de 2015. Disponível em

O que é invenção da nossa cultura?

         Natural e cultural, sexo e gênero. O que é da natureza do homem, o que é invenção da nossa cultura? O sexo corresponde somente ao que é biológico – órgãos sexuais e hormônios sexuais? O gênero é uma construção social? As relações entre os sexos são relações somente para a procriação? As relações de gênero são relações de poder? Existe alguma relação entre sexo e poder?

         Existem teóricos que garantem que o binário sexo macho e sexo fêmea é uma produção cultural. Existe diferença entre os sexos dos indivíduos de uma espécie ou isso vale somente para a espécie homo sapiens? Mas por que a existência de sexos distintos entre indivíduos de uma espécie não valeria para o homo sapiens?  Essa ideia binaria de sexos macho e fêmea é uma construção cultural ou foi Deus quem fez? E Deus, quem fez?

         É a partir do século 17 que a cultura ocidental começa a fazer as distinções nas características físicas dos indivíduos da espécie homo sapiens entre masculinas e femininas. Para os indivíduos masculinos acharam que ficava bom características masculinas e para os indivíduos femininos acharam que seria mais apropriado características femininas. Foi a partir desse pensamento que os órgãos sexuais passaram a ter nomes distintos e que um seria masculino e o outro feminino. É que vinha surgindo a ideia de identidade, coisa que até aquele século ainda não se cogitava. Até aquela época, as pessoas eram vistas como um todo: as nações, as tribos, os religiosos, os súditos, os bons, os maus. É então que a partir do século 17, nós inventamos o indivíduo. Para ter existência, um indivíduo necessita de características que o identifiquem como tal. E a primeira característica requerida de um indivíduo é a respeito do seu sexo. É menino ou menina?

A criação do gênero

         Para suportar a invenção da identidade, os homo sapiens, agora chamados de indivíduos, passam a ser caracterizados, identificados e instituídos pelo gênero (invenção cultural). Como tendência biológica do homo sapiens de separar tudo para compreender, surge o binômio gênero masculino e gênero feminino. Outra tendência biológica do homo sapiens é considerar que as coisas são duplas e são opostas entre si. Nesse pensamento de separação e oposição, como bem e mal, nada e tudo, triste e alegre, forte e fraco, orgulho e humildade, valentia e covardia, o homo sapiens inventou os gêneros masculino e feminino e os opuseram um contra o outro. E, satisfeitos com a sua nova invenção, criaram as características para distinguir os gêneros. Classificaram o gênero masculino ao lado do bem, do tudo, do alegre, do forte, do orgulho, do valente, etc. ou seja, somente coisas positivas, para fora, para cima, para o celestial. E o gênero feminino classificou-se do lado do mal, do nada, do triste, do fraco, da humildade, do covarde, etc. ou seja, ao lado de coisas negativas, para dentro, para o profundo, o abismal, para o inferno.

Segundo a terceira lei de Newton

        A cultura inventa os gêneros masculino e feminino. Desde então, um indivíduo para ser considerado do gênero masculino haveria de ter todas as características masculinas e para ser do gênero feminino haveria de ter todas as características femininas. Mas qual a origem dessas características masculinas e femininas? Ora, os indivíduos?  O indivíduo inventa a cultura que inventa o indivíduo, que inventa a si mesmo.

        Segundo a terceira lei de Newton, para toda ação (força) sobre um objeto, em resposta à interação com outro objeto, existirá uma reação (força) de mesmo valor e direção, mas com sentido oposto. Ou seja, tudo que vai, vem. Assim, o próprio indivíduo inventa a si mesmo. Antes fosse só isso! Mas acontece que a cultura (inventada pelos indivíduos) inventa o indivíduo. Que coisa mais confusa! Pois é, dizem ate que isso é coisa de “viado”. Ora, isso parece coisa da cultura do sexo/gênero binário. A cultura do sexo/gênero binário visa impedir que os indivíduos se comportem fora do binário sexo/gênero masculino/feminino. Desta forma, a cultura dos indivíduos inventa o sexo como produto dos gêneros masculino e feminino.

A luta pelo poder

        Mas tudo isso é muito confuso! Ou simples assim: se você tem o órgão sexual do macho da espécie homo sapiens é porque você é do gênero masculino e se você tem o órgão sexual da fêmea da espécie homo sapiens você é do gênero feminino. Ora, mas não é assim mesmo? Se você acha que é assim mesmo, você está querendo dizer que: o indivíduo que tem características masculinas terá, portanto, o órgão sexual do macho homo sapiens e que o indivíduo que tem características femininas terá o órgão sexual da fêmea homo sapiens. Correto? Então, você está me dizendo que a cultura determina o sexo do indivíduo. Portanto, o sexo e o gênero são construções sociais. E como toda construção social (invenção), visa o saber e o poder de uns homo sapiens sobre outros homo sapiens.

         Mas nem tudo no homo sapiens é saber e poder, pois reagindo a essa invenção social de relacionar dogmaticamente o sexo com o gênero, assistimos atualmente a uma crescente movimentação de indivíduos buscando se expressar independentemente dessas formas sexo/gênero masculino/feminino saber/poder.

         Ora, mas os indivíduos têm tantas outras formas para se expressar, pois foram escolher logo se expressar através do sexo? Podiam se expressar através da música, da literatura, da pintura, do futebol, da sua profissão, foram escolher logo se expressar alterando as características inventadas culturalmente para o seu sexo? É que a identidade, como vimos, inventada pela sociedade, tem como fundamento o sexo dos indivíduos. Por isso toda autoexpressão passa pela forma como cada indivíduo vive o seu próprio sexo. Ser um indivíduo é igual a ser uma maneira única de se expressar sexualmente.

A cultura determina como cada indivíduo deve se comportar

        Toda essa complexa engrenagem gera um código de normas, regras, modelos morais e de corpo. Esse código forma um sistema sexo/gênero que determina o que é aceitável, o que pode ser dito e o que pode ser compreendido das expressões sexuais. Todo esse sistema sexo/gênero, portanto, cria o sexo. O gênero cria o sexo e não o seu contrário. Portanto, é ilusória a suposta evidencia de que o sexo biológico determina as identidades das pessoas.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        Assim, o corpo do homo sapiens é construído por meio de apetrechos, vestimentas, adornos, piercings, escarificações, tatuagens, modificações corporais. O corpo do homo sapiens é uma produção efetuada por meio de modelos dominantes da estética corporal de uma sociedade. O corpo do homo sapiens é determinado pelo olhar do outro homo sapiens. Os movimentos atuais de expressão da identidade retornam para o corpo. Mais uma vez, a cultura homo sapiens, quando se percebe perdida no mundo das ideias, retorna ao corpo. É que toda cultura humana passa pela estética. E a estética do corpo é a única natureza humana possível, o resto são ideias em torno de.

As variadas manifestações dos comportamentos ansiosos

        Diversas pesquisas cientificas, desde a década de 1960, fizeram diferença entre as variadas manifestações dos comportamentos ansiosos. Assim, em 1980, a Associação Americana de Psiquiatria descobriu, criou ou inventou a síndrome do pânico, as Fobias, o Estresse Pós-Traumático, o Transtorno Obsessivo-Compulsivo e o Distúrbio de Ansiedade Generalizada, e juntaram essas denominações à classe dos Transtornos de Ansiedade.

        Essa classificação dos transtornos construída por essa Associação é bastante questionada por alguns psicólogos e psiquiatras. A Associação se baseia na estatística da ocorrência dos sintomas. As possibilidades e frequências para ocorrer um conjunto de sintomas é condição necessária e suficiente para aquela Associação classificar a diversidade dos sentimentos ansiosos em transtorno disso ou daquilo. Entrementes, muitas instituições, pessoas leigas e versadas no assunto, pacientes e aproveitadores da situação acreditam que essas classificações representam o fenômeno da ansiedade e seus transtornos.

        Apoiadas pela sociedade em geral, essa Associação e outras vão classificando a nossa ansiedade de viver. As associações descobrem e criam e inventam e classificam como transtornos diversas formas humanas de lidar com as situações difíceis da vida. Sabe-se lá para que interesse essas classificações se prestam. Mas rotulam as pessoas e as situações, sob os aplausos de todos.

Da atenção ao pânico

        Talvez a mais famosa dessas classificações atuais seja a síndrome do pânico que consiste em ataques de pânico inesperados e recorrentes. Mas o que vem a ser os ataques de pânico? Os ataques de pânico são caracterizados por períodos de intensa ansiedade. Sim, o pânico começa com a ansiedade. Para saber mais sobre a ansiedade, leia o post Ansiedade como uma leve tensão emocional”.

        “Os ataques de pânico, ou crises, consistem em períodos de intensa ansiedade e são acompanhados de alguns sintomas específicos. Os mais comuns são taquicardia, sensação de falta de ar, dificuldade de respirar, formigamentos, vertigem, tontura, dor ou desconforto no peito, despersonalização, sensação de irrealidade, medo de perder o controle, medo de enlouquecer, sudorese, tremores, medo de desmaiar, sensação de iminência da morte, náusea ou desconforto abdominal, calafrios ou ondas de calor, boca seca e perda do foco visual”.

        Você, provavelmente,  já ouviu falar de alguém que tenha medo de altura,. Também já ouviu falar de outros que tem medo de lugares fechados, outros que tem medo de um animal. Esses medos de uma situação ou de um objeto especifico são chamados de fobias. Nas fobias, as pessoas têm medo de algo que ocorre fora delas. No pânico, as pessoas têm medo de algo que ocorre no seu próprio corpo.

        O pânico é uma ansiedade que se intensifica num estado emocional de apreensão. O pânico evolui para uma sensação de que algo ruim irá acontecer, algo indefinido. O pânico é um crescente de atenção-apreensão-ansiedade-medo-pânico.

        Uma característica que vai paralisando a vida da pessoa que sofre de pânico é que esse estado evolui para uma ansiedade de antecipação. A pessoa acredita que determinadas situações irão propagar a sua crise de pânico. Essas pessoas acabam evitando sair de casa e se completando de medicação.

Do estresse a ansiedade

        Chamamos de estresse a resposta biológica que todos os organismos produzem como comportamento reativo aos estímulos do seu ambiente. O estresse é uma resposta funcional dos organismos para refazer um estado de satisfação que mantinham antes de ser afetados por um estimulo. Portanto, o estresse é uma reação contraria a certa ordem de funcionamento estável de um organismo.

        Somente quando uma carga de estimulo é excessiva, para além do que um organismo é capaz de suportar, inicia-se um estado de ansiedade que pode desencadear numa resposta disfuncional. Ou seja, o organismo pode desencadear uma resposta que não se orienta a restabelecer o seu estado de satisfação.

        No caso de uma pessoa, um estimulo que exceda a capacidade dessa pessoa de suporta-lo, pode proporcionar reações crescentes de apreensão, ansiedade, medo e pânico.

Referencias

SCARPATO, Artur. O estranho que me habita: a Síndrome do Pânico numa perspectiva formativa. São Paulo: Revista Reichiana, número 10, 2001, p. 50-66. Acesso em 31 de outubro de 2013. Disponível em

O desafio é ser o que somos numa vida que é o que é

        Convenceram as pessoas de que elas vivem para ser felizes. A psicologia não se propõe mostrar nenhum caminho para a felicidade. A vida é o que é. E cada um de nós é como é. O que podemos fazer então para nos sentir de “bem com a vida”? O desafio é ser o que somos numa vida que é o que é. E como fazemos isso? Podemos tentar nos conhecer mais. É possível saber como são os nossos desejos, os nossos medos? Podemos descobrir que coisas nos fazem felizes? É possível descobrir como nos comportamos nas pequenas ações do nosso dia-a-dia? Podemos tentar pensar menos no que os outros pensam sobre nós? Podemos fazer muitas coisas para viver a vida como ela é, sem precisar deixar a vida nos levar para onde ela quiser?

        E como é que eu faço para me conhecer mais? A psicoterapia pode ajudar nisso. No começo rola um certo preconceito do tipo: “terapia é coisa de maluco”, “eu não preciso disso, não sou doente”. “Se for para pagar alguém para me ouvir falar, eu vou para o bar com meus amigos”. Mas psicoterapia não é coisa de maluco. Ela tanto pode lhe ajudar a resolver um problema pontual, quanto pode ser uma jornada em busca do autoconhecimento. A psicoterapia não é o único procedimento, nem obrigatório, para o autoconhecimento. Mas para se autoconhecer necessitamos de uma relação com uma outra pessoa. Ninguém transforma ninguém, mas ninguém se transforma sozinho.

Para cada um o seu cada um

        Desde criança, somos levados a acreditar que viver tem um objetivo. Uns creem que o objetivo dessa vida é se preparar para uma outra vida. Outros creem que precisam dar um sentido a essa vida que vivem. Alguns dão sentido a sua vida quando a vida se transforma em atingir objetivos. Outros acreditam que ter é ser feliz. Estamos sempre vivendo uma vida que vira. Vivemos para o futuro.

        Acordamos de mais uma noite mal dormida, antes do sono saciar, para cumprir uma programação diária de sucesso, de metas a atingir. Levantamos da cama para acordar. Comemos produtos saudáveis pela manhã para não ficarmos doentes. Não comemos pelo prazer, mas pela meta de ser saudável. Escovamos os dentes com a pasta indicada pelo especialista para evitar tártaros e caries. Vamos trabalhar para ganhar dinheiro. Que importa se o chefe é autoritário, se os colegas querem o seu cargo, se o trabalho é tedioso, trabalhamos para ganhar dinheiro. Almoçamos para saciar a fome: não importa a qualidade do que comemos, o objetivo é “matar” a fome. Precisamos de transportes mais rápidos e eficientes para chegar onde temos de chegar. Precisamos fazer tudo mais rápido para chegar rápido em algum lugar, onde rapidamente ficaremos. Precisamos de mais tempo para descansar. Precisamos de mais tempo para dormir. Passeamos para nos divertir. Estamos sempre precisando de mais tempo para fazer as coisas. Precisamos de um objetivo para fazer as coisas. Quando fazemos por fazer, não precisamos de um tempo, simplesmente, fazemos. Fazemos pelo prazer de fazer.

Para cada sofrimento, um medicamento

        Da mesma forma lidamos com os sofrimentos. Usamos medicamentos para evitar sentir dores. Usamos medicamentos quando sentimos dores. Usamos medicamentos para sofrimentos imaginados. Usamos medicamentos para medicar os efeitos colaterais dos medicamentos que utilizamos para não sentir dores. Cada vez mais consumimos medicamentos para atingir as nossas metas.

        Estamos indispostos ou fatigados, usamos medicamentos para ficar excitados, mais inteligentes e atraentes. Ficamos muito agitados e precisamos descansar, usamos medicamentos calmantes para aplacar a nossa ansiedade. Ficamos tristes, muito tristes, melancólicos, usamos medicamentos antidepressivos para nos juntar aos indivíduos felizes da sociedade. Sentimos o tedio da vida, usamos medicamentos reguladores do humor para achar graça de tudo que acontece na vida – a vida é alegria, é tempo de sorrir, sorria, você está sendo filmado! Precisamos descansar dessa vida de alegria, usamos medicamentos indutores do sono. Temos coisas muito chatas para fazer, usamos medicamentos aditivos para a concentração.

        E usamos tantos outros medicamentos para atingir tantos outros objetivos que precisamos alcançar. Essa maneira de viver se parece com o cachorro que não sabe que o rabo é seu e se move em torno de si mesmo tentando alcançar o próprio rabo. Usar medicamentos para atingir objetivos é correr atrás do próprio rabo. O uso de medicamentos acelera o atingimento das metas e dificulta a vivencia do processo de conquista dos objetivos. A psicoterapia circula na contramão desse comportamento de atingimento de metas. A psicoterapia propõe a vivencia do processo.

A medida do sofrimento de cada um

        Os medicamentos são muito uteis para aplacar os sofrimentos. Somente você está autorizado a dizer o quanto dói as suas dores. As dores são processos biológicos disponíveis para todos nos. As dores não distinguem sexo, cor, idade, classe social, crença religiosa, nível intelectual, etc. Porém, o jeito como sentimos as dores é único para cada um de nos. A medida do sofrimento da minha dor é incomensurável pela medida do sofrimento que você mede a sua dor.

        Assim como o sofrimento de uma mesma dor é distinto para cada um de nós, os medicamentos agem de maneira diferente em cada organismo. A escolha do medicamento mais adequado para um organismo é um procedimento de tentativa e erro. O que se sabe, atualmente, é que o único elemento que não pode faltar na composição desse medicamento mais adequado para cada organismo é a combinação com a psicoterapia.

        O uso de medicamentos interfere na consciência. O uso de medicamentos minimiza a percepção do indivíduo da responsabilidade pelos seus atos. O consumo de medicamentos é mais uma meta atingida pela nossa sociedade de consumo.

Condicionamento operante

        Somos condicionados para atingir objetivos. Vamos aos shoppings fingir ser quem não somos, para comprar algo de que não precisamos, com um dinheiro que não temos, para impressionar alguém que não conhecemos. E se acaso você for aquele indivíduo que se recusa a fingir ser quem não é, a comprar o que não precisa, a gastar o dinheiro que não tem, você será enquadrado em algum transtorno recém descoberto para consumir determinado medicamento recém lançado pela indústria da “saúde”.

        A sociedade de consumo condiciona os seus indivíduos a ter para ser. A sociedade de consumo condiciona os seus indivíduos ao desapego sem vínculos, quanto mais desapego sem vínculos, mais falta, mais consumo. A sociedade do objetivo condiciona os seus indivíduos para a impaciência com a demora em obter os resultados. A sociedade da informação condiciona os seus indivíduos a aparecer para ser.

        A sociedade dos direitos humanos, dos todos somos iguais, não aceita que alguém seja feliz se for diferente. A falta de autoconhecimento deixa os indivíduos inseguros. Para se sentir seguros, os indivíduos escolhem fazer parte da massa. A massa de consumo. Os indivíduos inseguros consomem. Os indivíduos que se conhecem se distinguem da massa. A massa insegura faz valer a sua força física para impor a sua forma de viver ao que lhe é desigual. O temor da massa de perder a sua segurança produz o sentimento de desigualdade. O sentimento de desigualdade inventa os abusos e as relações hierarquizadas de poder. Ah, como é difícil ser um. Acho que preciso de psicoterapia!

Os sentimentos nos tornam humanos

        O que são os “sentimentos – o que eles significam, como funcionam, de onde procedem, e como compreende-los e usa-los”.  “Nossos sentimentos são nosso sexto sentido, o sentido que interpreta, organiza, dirige e resume os outros cinco. Os sentimentos nos tornam humanos”.

        As ferramentas, os sentidos, com que cada um de nós percebe o mundo varia um pouco para cada um de nós, bem pouquinho. Mas o que varia mesmo, e muito, é a maneira como cada um de nós percebe como o mundo faz sentido. Este processo de integrar o mundo ao nosso próprio estilo é um processo universal, ou seja, todos nós nos comportamos dessa maneira. E é também um processo criativo, pois é ele que nos singulariza, nos torna pessoas únicas. “A pessoa que carrega consigo muita raiva não apaziguada, por exemplo, provavelmente achara o mundo que encontra também raivoso e, assim, justifica e perpetua seu próprio sentimento de raiva”.

        O mundo existe independente da nossa existência, porém, o mundo, para nós, é o que percebemos dele. O mundo é uma criação nossa. Quando compreendemos que somos nós que criamos o nosso mundo, nos tornamos responsáveis por nós mesmos, por nossa vida. Aquilo a que chamamos de realidade é compreendido pelos nossos sentimentos. A realidade é uma criação dos nossos sentimentos. Como cada um sente o mundo do seu próprio jeito, a realidade que compartilho com os outros é a minha realidade compartilhada com a realidade do outro, que é outra realidade diferente da minha.

        Os sentimentos são a maneira como nós percebemos o que denominamos de realidade. “Cada um de nós é os sentimentos que tem”.

        “Sem consciência do que significam nossos sentimentos, não há uma real consciência da vida. A realidade que fazemos derivar de nossas percepções, em grande parte, é criação de nossas próprias necessidades e expectativas”.

Os pensamentos

        Os sentimentos são processos criativos que ocorrem em todos os indivíduos humanos. Esses processos formam padrões de comportamentos que podem ser previsíveis e compreensíveis. Já os pensamentos são um modo indireto de perceber a realidade. São os nossos “sentimentos que nos dizem quando alguma coisa é dolorosa e machuca, porque os sentimentos são o machucado. O pensamento explica o machucado, justifica-o, racionaliza-o, coloca-o dentro de uma perspectiva”.

        A inteligência é uma qualidade cognitiva que não propicia nenhuma vantagem na compreensão dos sentimentos. Muitas das vezes é prejudicial para o processo de compreensão dos sentimentos. As pessoas, que se pensam mais inteligentes que as outras pessoas, pensam que podem compreender a vida ordenando os seus pensamentos.

As emoções

        É característica de todo organismo vivo reagir a uma ameaça de dano. Evitar um dano emocional é um processo básico de conservação da vida, existente em todo organismo vivo que se emociona. Às vezes, no entanto, reagimos com tanta intensidade contra um sentimento doloroso que construímos defesas contra a própria viabilidade da existência desse sentimento. Tal processo de evitação dos sentimentos torna difícil acessar e compreender o sentimento evitado, porque o “empurramos para debaixo do tapete”. Parece que com essa pratica intencionamos ganhar tempo para processar os sentimentos que nos incomodam. Nós nos afastamos dos nossos sentimentos para nos proteger deles, para evitar danos momentâneos. Com esse comportamento, adiamos o contato com o sofrimento causado, acreditando que escapamos dele.

Uma evolução da nossa maneira de sentir

        A primeira etapa do desenvolvimento humano é de total dependência. O bebe humano deixado por sua própria conta após o seu nascimento não sobrevivera. A dependência é um sentimento que nos acompanhara durante toda a nossa existência, apesar de todos os esforços para a independência.

        Aprendemos diversos comportamentos durante a nossa evolução para um humano adulto. Aprendemos a fazer coisas por nós mesmos e até alteramos a maneira de fazer as coisas que nos foi ensinada. Aprendemos a nos comportar por nossa própria capacidade. Em sequência a nossa evolução, aprendemos um jeito próprio de como fazer as coisas. A esse jeito próprio de fazer as coisas chamamos de liberdade. Essa liberdade para fazer as coisas da nossa própria maneira nos torna uma pessoa única, singular. Para essa nova característica adquirida, damos o nome de identidade.

        Quando estamos plenamente à vontade com os nossos sentimentos sem precisar nos afastar deles, adquirimos a capacidade de distinguir o que é o meu sentimento com relação ao mundo e o que é que acontece no mundo que me está afetando. Essa nova fase na nossa evolução é conhecida como autonomia. Essa autonomia é conseguida quando me comprometo com os meus sentimentos e deles me aproprio. Eu me aproximo dos meus sentimentos e cuido deles como se eles fossem um bebe, totalmente dependente.

        Mas como fazemos para nos comprometer com os nossos sentimentos? Como aprendemos a cuidar de nós mesmos?

 

Referencias

VISCOTT, David. A linguagem dos sentimentos. São Paulo: Summus, 1982.

A sexualidade que não produz animaizinhos

Sexo falado e sexualidade na pratica 2

        No capitulo anterior de Sexo falado e sexualidade na pratica concluímos que a sexualidade, para ser considerada sexualidade, precisa produzir animaizinhos. Portanto, a sexualidade que não produz animaizinhos, mesmo parecendo com a sexualidade que produz animaizinhos, não é sexualidade. Então, que pratica é essa que traz tanta confusão. Que pratica é essa que provoca tanta incompreensão? Como a espécie homem resolveu essa questão?

 

Vamos falar sobre o seu sexo

        Bem, ou mal. Como nada dura para sempre, o silencio a respeito de falar sobre o seu sexo começou a frequentar as salas festivas e os confessionários religiosos da sociedade. A espécie homo sapiens sapiens foi acrescentando outras características a primitiva característica instintiva da sexualidade.

         A espécie homo sapiens sapiens enxertou noções de vida social e práticas culturais no conceito de sexualidade como instinto. Rompido o silencio a respeito de falar sobre o seu sexo,. A espécie homo sapiens sapiens passou a admitir que os animais desenvolvem características sexuais de acordo com o ambiente em que vivem. Rompido o silencio a respeito de falar sobre o seu sexo. A sexualidade muda da categoria de instinto para a categoria de pratica de uma expressão cultural.

 

Quando o seu sexo passou a ser normatizado

        Depois que abandonou o uso da força física para sobreviver (abandonou?), a espécie homo sapiens sapiens aprendeu que a palavra é o poder. He-Man já bradava: “Eu tenho a força”. E isso bastava para que ele fosse poderoso. E como a sexualidade deixou de ser um domínio pessoal para ser de domínio social, abriu-se o caminho para os fracos, aqueles que não tem força física, ditarem regras para a expressão sexual da sociedade. Consequentemente, alguns poucos passaram a ditar a maneira como todos os demais deveriam expressar a sua sexualidade.

        Quando se considera que a sexualidade é influenciada pela cultura, surgem os guardiões sociais que se julgam no direito de ditar as regras de expressão de toda sociedade. Daí aquela pratica que não tinha nome, pois não produzia animaizinhos, mas que parecia com a sexualidade, começou a ser normatizada pelo grupo social dominante. Aquela coisa que parecia ser sexualidade, mas não era, agora tem regras para se expressar. É claro, já que aquela coisa não produzia animaizinhos, precisava de regras para que controlassem aquilo que ela estava produzindo, já que não eram animaizinhos. Além, do mais, estamos no início da sociedade de mercado, onde tudo está à venda para consumo.

 

A luta do bem contra o mal

        Bem, ou mal. E como ninguém concorda com ninguém mesmo e quando concorda é porque não entendeu do que se trata. O que as pessoas querem é se dar bem! Bem, ou mal. Há aqueles que não concordam com as normas pré-estabelecidas e se revoltam e reagem contra as regras. Esses revoltosos e reagentes lutam pelo direito que, supostamente por eles suposto, cada um de nós teria de expressar a sua sexualidade, da sua própria maneira. Aquela sexualidade que não é sexualidade, pois não produz animaizinhos. Esses revoltados e reagentes lutam pelo direito à liberdade de expressão da sexualidade, que não produz animaizinhos.

 

A sexualidade dos fracos e reprimidos

        Mas os fracos são poderosos com as palavras. Os fracos fazem as normas e as regras para subjugar os fortes. E as leis ditam como os indivíduos devem se comportar para viver na sociedade. Os fracos são aqueles que tomam para si o poder das palavras falada, escrita, pensada, oculta e imaginada. Tomando para si o poder das palavras, os fracos submetem todos os demais as suas normas. Submetem os fortes, os fracos, aqueles… meio assim ou assado e aqueles que não estão nem aí para isso tudo. Dá-se início a época da repressão da sexualidade, daquela sexualidade que não produz animaizinhos.

        Como a sexualidade, atualmente, já não é mais aquela sexualidade que só produzia animaizinhos, mas é uma expressão cultural, a repressão da sexualidade é também uma repressão social. Portanto, pode-se concluir que a luta pela liberdade social é a mesma luta pela liberdade de expressão da sexualidade, que não produz animaizinhos.

        E se antes a sexualidade era só produzir animaizinhos, agora ela virou uma luta pela liberdade de repressão e pela liberdade de expressão. Mas que necessidade de repressão é essa, que não se tem mais, que luta pela liberdade de reprimir a sexualidade que não produz animaizinhos? E que liberdade é essa, que se deixou de ter, que luta para ter a sexualidade que não produz animaizinhos?

 

A pratica da sexualidade que não produz animaizinhos

        Os fracos e reprimidos dizem que nos dias atuais há muita liberdade sexual. Uma devassidão generalizada, uma pornografia ilimitada. Se a sexualidade é produzir animaizinhos, os fracos e reprimidos devem estar se referindo a liberdade de produzir animaizinhos, que não está mais limitada ao casamento entre um homem e as suas mulheres. Apesar de, como já vimos, nem mesmo entre o casal heteronormativo, toda a sexualidade produz animaizinhos.

        Os revoltosos e reagentes ainda lutam pela liberdade sexual. Os revoltosos e reagentes lutam pela liberdade de praticar uma sexualidade que não produz animaizinhos. Os revoltosos e reagentes lutam pela liberdade de não produzir animaizinhos quando praticarem a sexualidade.

 

A pratica da repressão e da liberdade sexual

        Haverá mesmo uma repressão sexual ou uma liberdade sexual, atualmente? O que ouvimos, hoje, é um discurso generalizado tanto dos fracos e reprimidos e dos revoltosos e reagentes sobre o que é a sexualidade do outro e não sobre a sua própria sexualidade. As pessoas se importam mais com quem o seu vizinho se deita do que com quem elas se deitam.

        O que ouvimos sobre a sexualidade é um blá, blá, blá permitido, ansiado e desejado por todos. No século 19, quando se começou a falar sobre o seu sexo, o discurso estava restrito aos jantares festivos e aos confessionários religiosos. Nos dias atuais, continua-se a falar sobre o seu sexo, mas o discurso ampliou os seus ambientes. Discursam sobre o seu sexo nas reuniões familiares, nas escolas, nos bares, nas esquinas, nas mídias sociais, na música popular, nos esportes, ou seja, onde há gente.

        Ainda se fala sobre o seu sexo subjugando-o aos significados das regras sociais dos fracos e reprimidos e dos revoltosos e reagentes. Fala-se sobre o seu sexo lhe dando a impressão de que você tem a liberdade de falar sobre o seu sexo. Mas será que é falar sobre o seu sexo o que você demanda? Ou o que você quer mesmo é praticar a sua sexualidade sem precisar falar dela, nem dar conta dela para alguém?

 

O poder do blá, blá, blá sobre o sexo

        O que ainda acontece é mais e mais blá, blá, blá sobre a sua sexualidade. Esse blá, blá, blá p´é uma forma de manter o poder sobre você, através do discurso sobre a sua sexualidade. A sexualidade que produz animaizinhos está inserida numa ordem econômica e social. A sexualidade que não produz animaizinhos está inserida numa ordem moral, portanto, pessoal e intransferível.

        Hoje se pratica mais o sexo falado do que o sexo… sabe, o sexo? Aquele? Não sabe como é? Você me pede que eu desenhe? Ah! Que pena, não sei desenhar. Obrigado pela sua atenção. Obrigado por se permitir ler sobre o que eu tinha a dizer sobre o seu sexo. Esse foi o meu blá, blá, blá.