Todos nós somos psicólogos práticos

Psicologia como ciência do comportamento

        Existe uma crença generalizada de que todos nós somos psicólogos práticos. Será realmente possível uma generalização sobre o comportamento do homem?

Do comportamento ao automatismo

        A tentativa da ciência de explicação das coisas apoia-se na noção de que os eventos são causas e efeitos de outros eventos sucessivos. A psicologia para ser reconhecida como ciência busca explicar o comportamento humano segundo o mesmo conceito.

        Entretanto, Sócrates (470-395 a.C.) já havia trazido uma explicação moralista e ética a respeito do comportamento do homem. Bem como Platão (427-347 a.C.) com a sua explicação racional de que o mundo que vivenciamos é uma ilusão e o mundo real seria o mundo das ideias.

        Porém, com Aristóteles (384-322 a.C.) valoriza-se a observação como forma de se chegar a explicar os eventos. Incluindo-se, nesses eventos, o comportamento do homem.

        Lá pelos anos 1250, “Tomás de Aquino (1224-1275) se utilizou das ideias de Aristóteles sobre as relações corpo-alma” e as suas observações sobre o funcionamento do homem para sustentar as suas crenças religiosas.

        No século 16, René descartes (1596-1650), constitui o homem sendo composto por duas realidades. Uma realidade material, “o corpo, comparável a uma máquina e, portanto, cujos movimentos seriam previsíveis a partir do conhecimento de suas ‘peças’ e relações entre elas”. E de uma outra realidade, imaterial, “a alma, livre dos determinismos físicos”. Com Descartes, a alma não poderia ser estudada pelas leis das ciências naturais: a biologia, a física e a química.

        Dessa concepção sobre o homem decorre duas áreas de estudo: “a parte material, o corpo, a quem se deveria dedicar a ciência; e a parte imaterial, a alma ou mente, domínio da filosofia”.

Corpo versus mente

        “Os filósofos dos séculos 18 e 19, que tinham a mente e o seu funcionamento como objeto de estudo de grande interesse, dividiram-se em duas escolas de pensamento: o empirismo inglês e o racionalismo alemão”.

        “John Locke (1632-1704) é considerado o fundador do empirismo. Comparou a mente com uma ‘tabula rasa’ onde seriam impressas, pela experiência, todas as ideias e o conhecimento”. Nada existiria na mente que não tivesse passado pelos sentidos.

        Por outro lado, “os filósofos racionalistas acreditavam que a mente tinha a capacidade inata para gerar ideias, independentemente dos estímulos do meio ambiente”. Esses filósofos acreditavam que o ente humano seria uma máquina dois em um, composta por dois elementos. Um dos elementos era o corpo, sensível ao mundo externo irreal e, o outro elemento, a alma, insensível ao mundo externo.

        Os racionalistas enfatizaram que “a percepção é ativamente seletiva e não um processo passivo de registro, como colocavam os empiristas, e, também, afirmando que fazemos interpretações individuais das informações dos órgãos dos sentidos”. Como as interpretações são individuas, cada um de nós, por isso, percebe coisas diferentes de um mesmo acontecimento.

        Para os empiristas, a percepção era composta de partes, ou elementos mais simples. “Para os racionalistas, cada percepção é uma entidade indivisível, global, cuja analise destruiria suas características próprias”.

        Apesar de percebida como produto de origem corporal, a mente era concebida como um fenômeno imaterial. Porém, “um grupo de pesquisadores procurou mostrar que havia relação entre as características dos estímulos e a percepção dos mesmos”.

Do que a mente é ao que a mente faz

        Gustav Theodor Feccher (1801-1887) é considerado o ‘fundador da Psicofísica’ ou o ‘pai da Psicologia Experimental’. A psicologia pode ser descrita como o estudo quantitativo das relações existentes entre a vida mental e os estímulos do mundo físico.

        Costuma-se estabelecer como data para o nascimento da psicologia, tal qual conhecemos hoje, o ano de 1879, quando Wilhelm Wundt (1832-1920) criou o primeiro laboratório de psicologia na Universidade de Leipzig, na Alemanha.

        Wundt fez nascer uma escola psicológica que se denominou estruturalismo porque buscava a estrutura da mente, isto é, compreender os fenômenos mentais pela decomposição dos estados de consciência produzidos pela estimulação ambiental.

        Em seguida despontam os funcionalistas William James (1842-1910), John Dewey (1859-1952) e James Cattel (1860-1944) que se interessaram mais no que a mente faz, nas suas funções, do que no que a mente é, ou em como se estrutura.

        Baseados nas concepções de Charles Darwin (1809-1882) sobre a evolução orgânica com a finalidade de adaptação ao ambiente, os funcionalistas estabeleceram, como objeto da psicologia, a interação continua entre o organismo e o seu ambiente.

        A importância do funcionalismo está na amplitude de interesses que trouxe para a psicologia. É a partir de Darwin que se tomam, para estudo, problemas práticos e relevantes da nossa vida cotidiana. Qual seria a finalidade de se estudar os problemas práticos e relevantes da nossa vida cotidiana? A quem pode interessar o estudo dos problemas práticos e relevantes da nossa vida cotidiana? Seria a psicologia, a ciência mais capacitada para estudar esses problemas práticos e relevantes da nossa vida cotidiana? Esse estudo é, realmente, necessário? A psicologia é necessária? O que a psicologia pode fazer por você?

Referencias

BRAGHIROLLI, Elaine Maria, BISI, Guy Paulo, RIZZON, Luiz Antônio e NICOLETTO, Ugo. Psicologia geral. Petrópolis: Vozes, 2010.

A sexualidade é influenciada pela interação de fatores

Sexo falado e sexualidade na pratica 1

        A sexualidade é “… um aspecto central de ser humano ao longo da vida engloba sexo, identidades e papéis de gênero, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução. A sexualidade é vivida e expressa em pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, comportamentos, práticas, papéis e relacionamentos. Embora a sexualidade possa incluir todas essas dimensões, nem todas elas são sempre experimentadas ou expressadas. A sexualidade é influenciada pela interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, políticos, culturais, legais, históricos, religiosos e espirituais” (WHO, 2006a).

        Ufa! Essa definição de sexualidade divulgada pela WHO (World Health Organization) abrange tantas características, utilidades, influencias e dimensões que fica mesmo difícil dizer o que é a sexualidade. É tanta coisa que não fica nada. Esse conceito de sexualidade, que talvez vise a esclarecer, só torna assustadora qualquer tentativa de expressão da sexualidade.

        O que quer dizer a OMS quando define a sexualidade como um aspecto central do ser humano? Onde se encontra o centro do ser humano? Ou, o que é o centro para um ser humano? O que é o ser humano? E as expressões da sexualidade? São tantas as possibilidades que determinar uma maneira ou duas de expressão da sexualidade, como o binário homo heterossexual, fica parecendo coisa de autoritarismo. O autoritarismo é expresso por um indivíduo ou grupo de indivíduos quando se julgam mais aptos que os demais indivíduos para determinar o sentido da vida deles, e principalmente, da vida dos outros.

 

Quando não se falava sobre o seu sexo

        Era uma vez, quando ainda não se falava sobre o seu sexo. É espantoso, mas é vero. Houve uma época em que não se falava sobre o seu sexo, somente se fazia sexo. Naqueles tempos remotos, a sexualidade era considerada uma atividade instintiva da espécie homem, bem como das demais espécies animais. E pasmem, naqueles tempos longínquos, já se pressupunha que esse instinto ligado ao sexo teria uma finalidade.

        Como será que se sentiram nossos mais longínquos ancestrais quando viram as suas mulheres aumentarem o volume da barriga e depois sair um animalzinho de dentro dela? E não é que associaram isso ao fazer sexo? Mas, como pode uma coisa dessas? De onde surgiu essa associação de fazer sexo com a produção de animaizinhos?

        Bem, o fato é que, muito tempo depois daqueles tempos em que a espécie homem se assustava com o nascimento dos seus animaizinhos, concluiu-se que a sexualidade animal teria a finalidade de reproduzir novos animaizinhos. Naquele tempo, quando ainda não se falava sobre o seu sexo, todos os comportamentos que não produzissem animaizinhos eram considerados praticas “contra a natureza”. Naqueles tempos do era uma vez, quando ainda não se falava sobre o seu sexo, já se normatizava sobre o seu comportamento sexual.

        Naquele tempo, quando ainda não se falava sobre o seu sexo, era sabido que a sexualidade servia para a procriação e também se sabia como isso era feito. A sexualidade ascendeu ao status de algo que existe pois era a responsável pela produção de animaizinhos. Portanto, quando a sexualidade não produzia animaizinhos era considerada contra a natureza. Como nomear, então, aquele comportamento que, aparentemente parecia ser sexualidade, pois tentava produzir animaizinhos, mas não produzia outros animaizinhos?

 

A pratica da sexualidade que é “contra a natureza”

        Será que essa sexualidade que não produz animaizinhos também seria instinto? Poderia o ato de produzir animaizinhos, embora não produzindo animaizinhos também ser instintivo? Ou somente quando a sexualidade produz animaizinhos ela é instinto? Considerando que a sexualidade dos animais produz outros animaizinhos, então, quando a pratica da sexualidade não produz animaizinhos, não é sexualidade. Portanto, o ato que não produz animaizinhos não pode ser considerado uma pratica “contra a natureza”, já que não é sexualidade.

        A pratica da sexualidade que se parece com o ato de produzir animaizinhos, mas que não produz animaizinhos, portanto não é a sexualidade. Então, que pratica será essa que apesar de visar a produção de animaizinhos, portanto seria a sexualidade, mas não produz animaizinhos, portanto não é a sexualidade?

        Não perca o próximo capítulo de Sexo falado e sexualidade na pratica 2. Enquanto isso, deixe o seu sexo abaixo, quer dizer, deixe o seu comentário sobre o seu sexo abaixo. Não, não, não! Não é nada disso. Não deixe nada, não. Leve. Leve alguma coisa daqui. Leve algo sobre esse meu bla, bla, bla sobre o seu sexo. Leve algo do meu sexo falado. Ou, melhor, faça sexo. Ou, talvez, não faça. Deixa estar! Mas lembre-se: “sexo não tem sexo: é quem gosta com quem quer” (Tavares, 2007).

 

Referencias

TAVARES, Bráulio. A resposta do computador. In TAVARES, Ulisses. Quando nem Freud explica, tente a poesia! São Paulo: Francis, 2007.

(WHO) WORLD HEALTH ORGANIZATION. Saúde sexual e reprodutiva: definir a saúde sexual. Acesso em 04 de junho de 2017. Disponível em

Será que esse tal de psicológico existe?

Não julgar “é uma postura tipicamente pós-moderna. A crítica é característica da modernidade” (Maffesoli, 2008).

        O psicológico existe ou é mais uma das invenções do homem? Você já percebeu que o que chamamos de psicológico é sempre alguma coisa abstrata? Você nunca viu o psicológico. Você nunca ouviu o psicológico. Você nunca tocou num psicológico. Você já cheirou um psicológico? Você sabe que sabor tem o psicológico? Será que esse tal de psicológico existe?

        Às vezes, esse tal de psicológico é uma manifestação de processos internos que acontecem em você, outras vezes é um produto das suas vivências externas. Às vezes, esse tal de psicológico é um conteúdo do seu mundo interno, outras vezes é um processo desse mesmo mundo. Mas esse tal de psicológico é sempre visto de forma abstrata e como se fosse natural, quer dizer, como se sempre tivesse sido desse jeito.

        Outra característica, desse tal de psicológico é que ele é considerado como algo da espécie homem. Isso quer dizer que todos os indivíduos da espécie homem, sem exceção, têm esse tal do psicológico.

        Você pode nomear, esse tal de psicológico, por um número enorme de palavras e expressões, como por exemplo: manifestações do aparelho psíquico, individualidade, subjetividade, mundo interno, manifestações do homem, pensar e sentir o mundo, consciência, inconsciente, vivências, engrenagens de emoções, motivações, comportamentos, habilidades e potencialidades, experiências emocionais, conflitos pulsionais, psique, pensamento, sensações, entendimento de si e do mundo, manifestações da vida mental, tudo que é percebido pelos sentidos (Bock, 1997).

        Ufa, quantos nomes para se chamar esse tal de psicológico! Será que esse tal de psicológico é mesmo o mesmo para toda a espécie homem? Ou estamos falando de algo que não existe ou que é único para cada um de nós, por isso esses vários nomes? Bem, para simplificar, vou considerar que esse tal de psicológico existe e é único para cada um de nós, embora possa ser chamado por vários nomes.

        Bem, vou escolher chama-lo de subjetividade. Vou chamar esse tal de psicológico de subjetividade para pensar um pouco sobre a sua construção. Escolhi subjetividade porque é como esse tal de psicológico é mais tratado na atualidade por aqueles que “juram” que ele existe.

        O que a palavra subjetividade lhe sugere? Ela lhe parece sugerir imediatamente interioridade? Você confirma? Essa é a percepção mais utilizada atualmente – subjetividade tem a ver com interioridade. Mas porque rapidamente relacionamos subjetividade e interioridade?

        Você sabia que subjetividade e interioridade são enunciados de origens diversas que são posteriormente superpostos pelos discursos psicológicos? Isso mesmo, os discursos psicológicos criaram uma relação de reciprocidade entre subjetividade e interioridade.

        Mas, você sabe, que, ao contrário, a subjetividade, além de ser da ordem dos efeitos, é também da ordem da exterioridade? Ou seja, a subjetividade é produzida em relações saber/poder e também de você consigo mesmo, quando você se coloca como objeto para um trabalho sobre si mesmo, como fazem as ciências, as filosofias, as religiões, as psicologias, as sociologias, etc. (Prado Filho e Martins, 2007).

        Então, você percebe que tanto a subjetividade quanto a interioridade são produções (invenções, criações do homem ou descobertas?) históricas. Michel Foucault, um francês muito insatisfeito e critico com que os outros diziam, afirmou que o cristianismo inventou a interioridade e a modernidade inventou a subjetividade.

        Então, essa relação entre estas duas figuras do discurso – subjetividade e interioridade – é uma relação histórica inventada pela espécie homem. A noção de interioridade inventada pelo cristianismo, há vinte séculos atrás, é anterior a noção de subjetividade inventada na era moderna, que ainda vai completar cinco séculos.

        Você, tão esperto quanto Foucault, percebe que isso indica que o moderno conceito de subjetividade se apoia na ideia cristã de interioridade. Portanto, a nossa vivencia da subjetividade encontra-se, por isso mesmo, totalmente contaminada pela concepção cristã de interioridade (Prado Filho e Martins, 2007).

        Você, como qualquer outro indivíduo da espécie homem, considera que o indivíduo da espécie homem é um animal nesse planeta capaz de produzir as suas próprias condições de existência? Se sim, compreende que a sua subjetividade surge das suas relações sociais com os outros indivíduos da espécie homem e com as coisas que produzimos. Portanto, você concluirá que a sua subjetividade tem a ver com o acesso e o controle das condições sociais de vida disponíveis a você (Lacerda Junior, 2010).

        Sob este aspecto, você percebe que cada indivíduo da espécie homem é uma forma autentica de conhecer a realidade? Você compreende que qualquer cientista, filosofo ou religioso produz sabedoria tão legítima em relação à vida social quanto você também produz?

        Este posicionamento implica que o sentido de verdade e a supremacia do valor da ciência, da filosofia ou da religião, como formas de produção da verdade, é inconsistente. A compreensão da vida passa também pela sua forma de apreender a realidade (Canda, 2010).

        Sendo assim, agora, você sabe o que responder à pergunta do nosso texto – será que esse tal de psicológico existe?

 

Palestra – Mario Sergio Cortella – Você sabe com quem está falando? – Legendado – Duração 9:02

 

Referencias

BOCK, Ana Mercês Bahia. Formação do psicólogo: um debate a partir do significado do fenômeno psicológico. Psicologia ciência e profissão, 1997,17, (2), 37 – 42. Acesso em 18 de outubro de 2014. Disponível em

CANDA, Cilene Nascimento. Lá vai a vida a rodar: reflexões sobre práticas cotidianas em Michel Maffesoli. Revista Rascunhos Culturais •Coxim/MS • v.1 • n.2 • p. 63 – 77 • jul /dez, 2010. Acesso em 12 de maio de 2015. Disponível em

LACERDA JUNIOR, Fernando. Psicologia para fazer a crítica? Apologética, individualismo e marxismo em alguns projetos PSI. PUC-Campinas, 2010. Acesso em 28 de março de 2013. Disponível em

PRADO FILHO, Kleber; MARTINS, Simone. A subjetividade como objeto da (s) Psicologia (s). Psicologia & Sociedade; 19 (3): 14-19, 2007. Acesso em 07 de setembro de 2013. Disponível em