Os sintomas que você diz sentir

        Você procurou o seu médico porque sentiu umas pontadas de dor no estômago ou sentiu o seu coração bater acelerado ou porque aquela dor de cabeça não cessa ou por causa de dores na coluna ou por medo de estar com uma grave doença. O seu médico examinou você, cuidadosamente, fez alguns exames clínicos e laboratoriais, porém não encontrou nada “físico” que pudesse provocar os sintomas que você diz sentir.

        Então, mais cuidadosamente, ele, o seu médico, age, delicadamente também, para não ferir o seu orgulho de herói. Ele lhe diz: os seus exames estão “normais”, o que você está sentindo deve ser emocional. Chi.… você pensa: eu sou um fracassado, não sei nem cuidar de mim mesmo. Muita calma nessa hora! Esses sintomas, que estão se manifestando em você de forma incomoda, têm a ver com o seu jeito de lidar com a sua ansiedade.

Mas o que é ansiedade, mesmo?

        A ansiedade é uma característica biológica que encontramos no bicho homem, porém, sabemos que outros animais também têm esta característica. A ansiedade ocorre quando temos o pressentimento de que a nossa existência corre o risco de se acabar.

        Esse perigo de morte da nossa vida pode ser real ou imaginário. Pode-se argumentar qual seria a diferença para quem corre risco de morte, se o perigo é real ou imaginário. Afinal, se a realidade é o que percebemos dela, ser real ou imaginário, não faz a menor diferença para quem vive essa situação. A diferença existe somente para quem observa.

        Bem, mas voltando a ansiedade, ela é uma característica do estar vivo. Quem está vivo, evita a morte com todas as suas forças. Quem está vivo, luta pela manutenção da vida, enfrenta até mesmo um dragão. Seja lá o que for, é o seu dragão, mesmo que pareça um gatinho para os outros. Quem está vivo, foge para manter a vida, se afasta do risco da morte. Quem está vivo, se finge de morto para manter a vida, se esconde das ameaças de morte. Quem está vivo, até se mata para manter a vida, defende a vida com a sua própria morte.

Todos nós somos ansiosos

        A ansiedade é uma característica de grande parte dos animais vertebrados que possuem uma massa cerebral constituída de neurônios denominada de amígdala, cuja função é de alertar o organismo sobre uma situação de risco. Uma situação de risco evoca a ansiedade. Assim como existem diferentes maneiras de estar vivo, também existem diferentes maneiras de estar ansioso.

        Cada um de nós faz as coisas do seu jeito. Repito, cada um do seu jeito. Cada um de nós vive cada situação a sua própria maneira. O seu jeito de andar, por exemplo, não é igual ao jeito de andar de mais ninguém. O seu jeito de evitar o desequilíbrio ao caminhar é diferente de qualquer outra pessoa. Assim, o jeito de estar ansioso é somente seu, ninguém mais fica ansioso do jeito que você fica.

Ansiedade ou morte!

        A ansiedade poderia ser caracterizada como uma emoção que traduz um sentimento de insegurança ou medo da morte. Portanto, viver e ansiar são inseparáveis. Vida e ansiedade, tudo a ver! A característica da grande e definitiva morte seria a ausência ou extinção da vida. A característica das pequenas mortes que vivemos diariamente é um desafio para as nossas maneiras de estar vivo. Mas, o que é viver ou morrer as nossas maneiras de estar vivo? Quem responde essa? Claro, é a ansiedade. É a nossa ansiedade que nos mostra como reagir aos estímulos que provocam, incomodam, entristecem e alegram a nossa existência.

        Assim, a ansiedade nossa de todo o dia se expressa pelo medo de ser ignorante, pelo medo de estar mal informado, pelo medo de perder o controle, pelo medo de perder, pelo medo de morrer de repente, pelo medo de morrer demoradamente, pelo medo do fracasso, pelo medo do sucesso, pelo medo de ter medo, pelo medo de ter ansiedade, pelo medo do tédio.

Podemos expressar a nossa ansiedade de todo dia pelo medo

        Bem, então a nossa ansiedade que é uma característica ou função biológica se expressa no bicho homem pelo medo. Isso, o medo é uma das formas de expressão da nossa ansiedade. Ah, que bom. Quer dizer que existem outras formas de expressar a ansiedade? Claro, podemos viver a nossa ansiedade de diversas maneiras, com medo ou sem medo. Cada um de nós vive a sua ansiedade de modo singular e único. Repito, de modo singular e único, do seu jeito único de estar no mundo.

        Afora o medo, a ansiedade também pode ser expressa por alguns daqueles sintomas que levaram você a procurar o seu médico. A ansiedade pode ser vivida por algumas manifestações físicas como boca seca, pulso acelerado, transpiração abundante, dores no tórax, vertigens, desmaios, dores crônicas, estados físicos que vão e voltam, tipo alergias, resfriados, entre outras. Uma das ansiedades mais “na moda” atualmente tem expressão na doença autoimune, exemplo da pessoa que se mata para defender a própria vida. O suicídio é a única questão filosófica que realmente importa. O suicídio voltou a estar na moda.

A ansiedade tem causa?

        Portanto, a ansiedade é um estado biológico e funcional do organismo humano. A ansiedade é um alarme disparado no organismo para enfrentar diversas situações da vida quotidiana. A ansiedade funciona como uma forma de reagirmos aos estímulos do ambiente interno e externo.

        A ansiedade é desencadeada pelo habito que cada um de nós tem de enfrentar as dificuldades da vida. E são tantos os desafios! Muitos e constantes e aparecem de qualquer lugar, em qualquer tempo, de onde menos se espera. A expectativa é uma forma de ansiedade antecipatória de algo criado pela nossa imaginação. A ansiedade pode surgir do desafio de um relacionamento afetivo, da rejeição da expressão sexual, da exclusão social, do uso de substancias viciantes, do teste para um emprego, etc.

A ansiedade e seus sub usos

        Os nossos contemporâneos desejam ser vistos como singulares e únicos, mas ter a consciência de ser singular e único traz junto o sentimento da solidão. Os nossos contemporâneos, para fugirem da solidão, estão com essa mania de caracterizar cada vivencia singular da ansiedade em transtorno disso ou daquilo. Com isso fornecem rótulos de ansiedade para que cada um de nós se sinta um pouco amado e inserido na sociedade.

        Assim, dizemos que estamos estressados, sofremos de déficit de atenção, sofremos de hiperatividade, sofremos de inatividade, sofremos de depressão, sofremos de bipolaridade, sofremos de medo, sofremos de pânico. Todo esse arsenal de rótulos são diferentes nomeações da nossa já conhecida ansiedade. Comum mesmo, para todos nós, é o sofrimento. Esse é inevitável – momentâneo ou duradouro.

As suas necessidades de cuidado duram uma vida inteira

        Do que você precisa para viver? Será que você incluiria a psicoterapia como algo imprescindível para a sua sobrevivência? Você se olha e se vê como qualquer outro bicho-animal? Um bichinho-animal precisa para viver: respirar, comer e de outro bicho-animal mais experiente que cuide dele. Esse cuidado dura até que o bichinho-animal adquira comportamentos que o capacitem a cuidar de si mesmo por toda a sua vida. Esse aprendizado varia de alguns minutos a alguns poucos dias. Praticamente, um bicho-animal já nasce sabendo viver. Quando você se olha e se vê como bicho-homem, as suas necessidades de cuidado duram uma vida inteira. O bicho-homem não nasce sabendo viver, ele aprende enquanto vive.

        Dentre algumas necessidades básicas descobertas pelo bicho-homem, destaco três perguntas que alguns desses bichos fazem: quem sou eu, de onde eu vim e para onde eu vou? Esses são os bichos que procuram a psicoterapia, os perguntadores, os inquietos, os curiosos, os cientistas, os adeptos de religiões e os insatisfeitos com as suas próprias respostas e as respostas dos outros para as suas questões.

        Tem, também, aqueles bichos que são levados para a psicoterapia por alguém, por engano ou por ocasião, pois não tem a menor ideia do que está se passando com eles. São aqueles bichos com dificuldades de aprendizagem, com dificuldades de concentração, com dificuldades de relacionamentos, com dificuldades de lidar com as dificuldades dos outros, enfim, em dificuldades. Há aqueles outros bichos com indefinições profissionais, vítimas de abusos sexuais dentro da própria família e fora dela, vítimas do alcoolismo, com falta de foco, com falta de projetos de vida, com falta de amor, com falta.

        Mas também tem aqueles bichos que procuram a psicoterapia por vontade própria. Aqueles que querem entender os amores desfeitos ou que estão por se desfazer ou como fazer um. Aqueles que ainda querem entender os seus complicados relacionamentos com os pais ou com os filhos. Aqueles que tem sentimentos de rejeição e muitas outras questões. O bicho-homem não cessa de criar necessidades para si.

        Ah! Tem também aqueles bichos desenganados pela medicina. Aqueles orientados para procurar a psicoterapia porque os motivos das suas queixas são de “fundo emocional”. E mais alguns tantos outros bichos precisam de psicoterapia por motivos impensáveis como a asma, gagueira, hipertensão, dores no corpo, insônia, depressão, irritabilidade e outros incômodos crônicos menos famosos.

        Os bichos buscam a psicoterapia ou são levados até ela? Algo parece comum, muitos bichos buscam a psicoterapia para encontrar respostas para o que consideram que não vai bem na sua vida. E, por incrível que pareça, não é que eles encontram! Os bichos encontram uma pessoa em si mesmos. Alguém que sempre esteve ali com eles e eles ainda não tinham notado.

        Se você deseja mudar um comportamento, um jeito de sentir, uma forma de pensar, a psicoterapia é uma atividade que ajuda você a obter êxito nessa mudança. Você também pode tentar mudar sozinho seus comportamentos, sentimentos e pensamentos.

Basta saber como proceder

        O que um psicoterapeuta faz é acompanhar você no seu processo de mudança. E cá entre nós, estar acompanhado num processo de mudança é bem melhor do que estar sozinho. É que aprendemos o nosso jeito de ser nas relações que temos com o mundo. Portanto, o que pretendemos mudar é a nossa forma de nos relacionar com o mundo. Essa forma de se relacionar com o mundo passa pela forma como nos relacionamos com nós mesmos. Esse é o desafio da psicoterapia: compreender como nos relacionamos com nós mesmos. E para isso, nada melhor do que ter uma outra pessoa por perto nessa caminhada.