As variadas manifestações dos comportamentos ansiosos

        Diversas pesquisas cientificas, desde a década de 1960, fizeram diferença entre as variadas manifestações dos comportamentos ansiosos. Assim, em 1980, a Associação Americana de Psiquiatria descobriu, criou ou inventou a síndrome do pânico, as Fobias, o Estresse Pós-Traumático, o Transtorno Obsessivo-Compulsivo e o Distúrbio de Ansiedade Generalizada, e juntaram essas denominações à classe dos Transtornos de Ansiedade.

        Essa classificação dos transtornos construída por essa Associação é bastante questionada por alguns psicólogos e psiquiatras. A Associação se baseia na estatística da ocorrência dos sintomas. As possibilidades e frequências para ocorrer um conjunto de sintomas é condição necessária e suficiente para aquela Associação classificar a diversidade dos sentimentos ansiosos em transtorno disso ou daquilo. Entrementes, muitas instituições, pessoas leigas e versadas no assunto, pacientes e aproveitadores da situação acreditam que essas classificações representam o fenômeno da ansiedade e seus transtornos.

        Apoiadas pela sociedade em geral, essa Associação e outras vão classificando a nossa ansiedade de viver. As associações descobrem e criam e inventam e classificam como transtornos diversas formas humanas de lidar com as situações difíceis da vida. Sabe-se lá para que interesse essas classificações se prestam. Mas rotulam as pessoas e as situações, sob os aplausos de todos.

Da atenção ao pânico

        Talvez a mais famosa dessas classificações atuais seja a síndrome do pânico que consiste em ataques de pânico inesperados e recorrentes. Mas o que vem a ser os ataques de pânico? Os ataques de pânico são caracterizados por períodos de intensa ansiedade. Sim, o pânico começa com a ansiedade. Para saber mais sobre a ansiedade, leia o post Ansiedade como uma leve tensão emocional”.

        “Os ataques de pânico, ou crises, consistem em períodos de intensa ansiedade e são acompanhados de alguns sintomas específicos. Os mais comuns são taquicardia, sensação de falta de ar, dificuldade de respirar, formigamentos, vertigem, tontura, dor ou desconforto no peito, despersonalização, sensação de irrealidade, medo de perder o controle, medo de enlouquecer, sudorese, tremores, medo de desmaiar, sensação de iminência da morte, náusea ou desconforto abdominal, calafrios ou ondas de calor, boca seca e perda do foco visual”.

        Você, provavelmente,  já ouviu falar de alguém que tenha medo de altura,. Também já ouviu falar de outros que tem medo de lugares fechados, outros que tem medo de um animal. Esses medos de uma situação ou de um objeto especifico são chamados de fobias. Nas fobias, as pessoas têm medo de algo que ocorre fora delas. No pânico, as pessoas têm medo de algo que ocorre no seu próprio corpo.

        O pânico é uma ansiedade que se intensifica num estado emocional de apreensão. O pânico evolui para uma sensação de que algo ruim irá acontecer, algo indefinido. O pânico é um crescente de atenção-apreensão-ansiedade-medo-pânico.

        Uma característica que vai paralisando a vida da pessoa que sofre de pânico é que esse estado evolui para uma ansiedade de antecipação. A pessoa acredita que determinadas situações irão propagar a sua crise de pânico. Essas pessoas acabam evitando sair de casa e se completando de medicação.

Do estresse a ansiedade

        Chamamos de estresse a resposta biológica que todos os organismos produzem como comportamento reativo aos estímulos do seu ambiente. O estresse é uma resposta funcional dos organismos para refazer um estado de satisfação que mantinham antes de ser afetados por um estimulo. Portanto, o estresse é uma reação contraria a certa ordem de funcionamento estável de um organismo.

        Somente quando uma carga de estimulo é excessiva, para além do que um organismo é capaz de suportar, inicia-se um estado de ansiedade que pode desencadear numa resposta disfuncional. Ou seja, o organismo pode desencadear uma resposta que não se orienta a restabelecer o seu estado de satisfação.

        No caso de uma pessoa, um estimulo que exceda a capacidade dessa pessoa de suporta-lo, pode proporcionar reações crescentes de apreensão, ansiedade, medo e pânico.

Referencias

SCARPATO, Artur. O estranho que me habita: a Síndrome do Pânico numa perspectiva formativa. São Paulo: Revista Reichiana, número 10, 2001, p. 50-66. Acesso em 31 de outubro de 2013. Disponível em

O desafio é ser o que somos numa vida que é o que é

        Convenceram as pessoas de que elas vivem para ser felizes. A psicologia não se propõe mostrar nenhum caminho para a felicidade. A vida é o que é. E cada um de nós é como é. O que podemos fazer então para nos sentir de “bem com a vida”? O desafio é ser o que somos numa vida que é o que é. E como fazemos isso? Podemos tentar nos conhecer mais. É possível saber como são os nossos desejos, os nossos medos? Podemos descobrir que coisas nos fazem felizes? É possível descobrir como nos comportamos nas pequenas ações do nosso dia-a-dia? Podemos tentar pensar menos no que os outros pensam sobre nós? Podemos fazer muitas coisas para viver a vida como ela é, sem precisar deixar a vida nos levar para onde ela quiser?

        E como é que eu faço para me conhecer mais? A psicoterapia pode ajudar nisso. No começo rola um certo preconceito do tipo: “terapia é coisa de maluco”, “eu não preciso disso, não sou doente”. “Se for para pagar alguém para me ouvir falar, eu vou para o bar com meus amigos”. Mas psicoterapia não é coisa de maluco. Ela tanto pode lhe ajudar a resolver um problema pontual, quanto pode ser uma jornada em busca do autoconhecimento. A psicoterapia não é o único procedimento, nem obrigatório, para o autoconhecimento. Mas para se autoconhecer necessitamos de uma relação com uma outra pessoa. Ninguém transforma ninguém, mas ninguém se transforma sozinho.

Para cada um o seu cada um

        Desde criança, somos levados a acreditar que viver tem um objetivo. Uns creem que o objetivo dessa vida é se preparar para uma outra vida. Outros creem que precisam dar um sentido a essa vida que vivem. Alguns dão sentido a sua vida quando a vida se transforma em atingir objetivos. Outros acreditam que ter é ser feliz. Estamos sempre vivendo uma vida que vira. Vivemos para o futuro.

        Acordamos de mais uma noite mal dormida, antes do sono saciar, para cumprir uma programação diária de sucesso, de metas a atingir. Levantamos da cama para acordar. Comemos produtos saudáveis pela manhã para não ficarmos doentes. Não comemos pelo prazer, mas pela meta de ser saudável. Escovamos os dentes com a pasta indicada pelo especialista para evitar tártaros e caries. Vamos trabalhar para ganhar dinheiro. Que importa se o chefe é autoritário, se os colegas querem o seu cargo, se o trabalho é tedioso, trabalhamos para ganhar dinheiro. Almoçamos para saciar a fome: não importa a qualidade do que comemos, o objetivo é “matar” a fome. Precisamos de transportes mais rápidos e eficientes para chegar onde temos de chegar. Precisamos fazer tudo mais rápido para chegar rápido em algum lugar, onde rapidamente ficaremos. Precisamos de mais tempo para descansar. Precisamos de mais tempo para dormir. Passeamos para nos divertir. Estamos sempre precisando de mais tempo para fazer as coisas. Precisamos de um objetivo para fazer as coisas. Quando fazemos por fazer, não precisamos de um tempo, simplesmente, fazemos. Fazemos pelo prazer de fazer.

Para cada sofrimento, um medicamento

        Da mesma forma lidamos com os sofrimentos. Usamos medicamentos para evitar sentir dores. Usamos medicamentos quando sentimos dores. Usamos medicamentos para sofrimentos imaginados. Usamos medicamentos para medicar os efeitos colaterais dos medicamentos que utilizamos para não sentir dores. Cada vez mais consumimos medicamentos para atingir as nossas metas.

        Estamos indispostos ou fatigados, usamos medicamentos para ficar excitados, mais inteligentes e atraentes. Ficamos muito agitados e precisamos descansar, usamos medicamentos calmantes para aplacar a nossa ansiedade. Ficamos tristes, muito tristes, melancólicos, usamos medicamentos antidepressivos para nos juntar aos indivíduos felizes da sociedade. Sentimos o tedio da vida, usamos medicamentos reguladores do humor para achar graça de tudo que acontece na vida – a vida é alegria, é tempo de sorrir, sorria, você está sendo filmado! Precisamos descansar dessa vida de alegria, usamos medicamentos indutores do sono. Temos coisas muito chatas para fazer, usamos medicamentos aditivos para a concentração.

        E usamos tantos outros medicamentos para atingir tantos outros objetivos que precisamos alcançar. Essa maneira de viver se parece com o cachorro que não sabe que o rabo é seu e se move em torno de si mesmo tentando alcançar o próprio rabo. Usar medicamentos para atingir objetivos é correr atrás do próprio rabo. O uso de medicamentos acelera o atingimento das metas e dificulta a vivencia do processo de conquista dos objetivos. A psicoterapia circula na contramão desse comportamento de atingimento de metas. A psicoterapia propõe a vivencia do processo.

A medida do sofrimento de cada um

        Os medicamentos são muito uteis para aplacar os sofrimentos. Somente você está autorizado a dizer o quanto dói as suas dores. As dores são processos biológicos disponíveis para todos nos. As dores não distinguem sexo, cor, idade, classe social, crença religiosa, nível intelectual, etc. Porém, o jeito como sentimos as dores é único para cada um de nos. A medida do sofrimento da minha dor é incomensurável pela medida do sofrimento que você mede a sua dor.

        Assim como o sofrimento de uma mesma dor é distinto para cada um de nós, os medicamentos agem de maneira diferente em cada organismo. A escolha do medicamento mais adequado para um organismo é um procedimento de tentativa e erro. O que se sabe, atualmente, é que o único elemento que não pode faltar na composição desse medicamento mais adequado para cada organismo é a combinação com a psicoterapia.

        O uso de medicamentos interfere na consciência. O uso de medicamentos minimiza a percepção do indivíduo da responsabilidade pelos seus atos. O consumo de medicamentos é mais uma meta atingida pela nossa sociedade de consumo.

Condicionamento operante

        Somos condicionados para atingir objetivos. Vamos aos shoppings fingir ser quem não somos, para comprar algo de que não precisamos, com um dinheiro que não temos, para impressionar alguém que não conhecemos. E se acaso você for aquele indivíduo que se recusa a fingir ser quem não é, a comprar o que não precisa, a gastar o dinheiro que não tem, você será enquadrado em algum transtorno recém descoberto para consumir determinado medicamento recém lançado pela indústria da “saúde”.

        A sociedade de consumo condiciona os seus indivíduos a ter para ser. A sociedade de consumo condiciona os seus indivíduos ao desapego sem vínculos, quanto mais desapego sem vínculos, mais falta, mais consumo. A sociedade do objetivo condiciona os seus indivíduos para a impaciência com a demora em obter os resultados. A sociedade da informação condiciona os seus indivíduos a aparecer para ser.

        A sociedade dos direitos humanos, dos todos somos iguais, não aceita que alguém seja feliz se for diferente. A falta de autoconhecimento deixa os indivíduos inseguros. Para se sentir seguros, os indivíduos escolhem fazer parte da massa. A massa de consumo. Os indivíduos inseguros consomem. Os indivíduos que se conhecem se distinguem da massa. A massa insegura faz valer a sua força física para impor a sua forma de viver ao que lhe é desigual. O temor da massa de perder a sua segurança produz o sentimento de desigualdade. O sentimento de desigualdade inventa os abusos e as relações hierarquizadas de poder. Ah, como é difícil ser um. Acho que preciso de psicoterapia!