Como é que você sabe que você é você?

        Você sabe como você sabe o que você sente? Como é que você sabe que você é você que está sentindo? Você sabe como se ligam aquilo que você sabe, a mente, e aquilo que você sente, o corpo? Vamos tentar uma compreensão, dentre outras tantas que estão por aí.

        Você sabe o que é atitude? Alguns psicólogos definem atitude como um “constructo hipotético”. Chi …. Caramba! Já começou complicando! Sem estresse! Constructo hipotético é somente uma entidade que não existe fisicamente. Calma! Calma! Não é uma entidade espiritual. É uma ideia. Constructo hipotético é uma ideia sobre alguma coisa. A psicologia está repleta de constructos hipotéticos, assim como as pesquisas cientificas.

        Mas voltemos a atitude. Alguns cientistas creem que a atitude precede e causa o comportamento de uma pessoa, quando ela se encontra diante um objeto particular ou em uma certa situação. Quando os psicólogos falam de atitudes se referem em geral a um afeto ou disponibilidade para responder de certa maneira frente a um objeto ou fenômeno social. Hum… continua complicado! Calma, vamos pesquisando! Afinal, segundo alguns psicólogos, todos nós somos cientistas – eu, você, a torcida do Flamengo.

        Nina Bull, entre 1947/1951, examinou a relação entre a emoção e a postura, associando essa relação como uma relação entre o corpo e a mente. Vejam que coisa fantástica ela concluiu: que existe uma relação de sentimento que está associada com a emoção e uma atitude motora (postura ou posicionamento) e que uma mudança quantitativa nos sentimentos resulta numa mudança no comportamento expressivo.

        Que máximo! Quer dizer que se eu mudar a intensidade de um sentimento, por exemplo, a raiva, eu mudarei a minha postura? Mas claro, quanto mais raivoso mais tenso a gente vai ficando. Cada vez mais vou expressando uma postura parecida como uma postura de combate, de luta!

        Seis principais estados emocionais foram denominados por Nina Bull: alegria, triunfo, medo, raiva, desgosto e depressão. Uns deles possuem uma significação positiva, para algumas pessoas, como os que se traduzem como agradáveis: alegria e triunfo. Os demais inspiram estados desagradáveis, para alguns.

        Para cada emoção estudada, Nina Bull concluiu que existe um complexo particular de atitudes motoras, associadas com esta emoção. Ainda mais, ela afirma que determinados comportamentos aumentam, amplificam este sentimento. Em outras palavras, existe uma postura particular para cada emoção que intensifica as emoções, determinando-se desta forma a relação entre o afeto e o sistema nervoso.

        A sua atividade cognitiva, ou seja, seu pensamento, é, portanto, afetado por processos emocionais. Os rendimentos nos exames ou outras situações de avaliação podem ser diminuídos quando você é tomado por uma reação ansiosa de medo.

        Você pode estar se perguntando como isso acontece. Como as atitudes são ativadas e expressas no corpo? Tem gente que estuda isso e se apoia na hipótese de que as atitudes são ativadas e expressas no corpo através do sistema nervoso central e do sistema nervoso periférico.

        Ah… e você achava que era causado pelo sopro divino! Que nada, o neuroanatomista James Papez (1937) já demonstrara que a emoção não é função de centros cerebrais específicos e sim de um circuito, envolvendo quatro estruturas básicas, interconectadas por feixes nervosos: o hipotálamo, o tálamo, o giro cingulado e o hipocampo.

        Caramba! Quanta estrutura envolvida apenas para eu sentir raiva! É.… e ainda tem aquela tal amígdala. Amigdala? O que a sua amigdala tem a ver com as suas emoções? E quem fez cirurgia e retirou as amigdalas? Calma! Essa amigdala não é o gânglio linfático localizado na garganta, não. Essa amigdala é uma estrutura em forma de amêndoa, situada dentro da região anteroinferior do lobo temporal cerebral.

        Essa amigdala é fundamental para a autopreservação. Ela é o centro identificador do perigo. É a amigdala que nos possibilita o medo e a ansiedade, e nos coloca em situação de alerta. Sentindo medo e ansiedade você se prepara para fugir ou enfrentar o perigo. Essa amigdala cerebral é muita nossa amiga.

        Você sabe que todo cientista é uma pessoa cruel, né. Pois, então, você sabia que eles destruíram as amígdalas (são duas, uma para cada um dos hemisférios cerebrais) de um ratinho (os ratinhos são os bichinhos preferidos para a crueldade cientifica). Isso fez com que o bichinho se tornasse dócil, sexualmente não-discriminativo, afetivamente descaracterizado e indiferente às situações de risco.

        Emoções e sentimentos, como ira, pavor, paixão, amor, ódio, alegria e tristeza, são criações mamíferas, processadas no sistema límbico. É no sistema límbico que se organizam os pensamentos, as emoções e os desejos, e é onde a pessoa se reconhece como um eu. Atenção, onde se organizam e não onde se originam!

        Porém, esse acesso a como uma pessoa se reconhece como um eu, ainda não foi identificado diretamente no organismo físico.

Psicologia e Psicoterapia

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Referencias

FROHLICH, Sulamita e FRANCO, Carlos Alberto da silva. Os pares de nervos cranianos: uma abordagem em neurociência cognitiva. UFRJ – IM – DCC NEUROCIÊNCIA COGNITIVA E COMPUTAÇÃO MP – 01/2004. Acesso em 28 de janeiro de 2015. Disponível em

O que é invenção da nossa cultura?

         Natural e cultural, sexo e gênero. O que é da natureza do homem, o que é invenção da nossa cultura? O sexo corresponde somente ao que é biológico – órgãos sexuais e hormônios sexuais? O gênero é uma construção social? As relações entre os sexos são relações somente para a procriação? As relações de gênero são relações de poder? Existe alguma relação entre sexo e poder?

         Existem teóricos que garantem que o binário sexo macho e sexo fêmea é uma produção cultural. Existe diferença entre os sexos dos indivíduos de uma espécie ou isso vale somente para a espécie homo sapiens? Mas por que a existência de sexos distintos entre indivíduos de uma espécie não valeria para o homo sapiens?  Essa ideia binaria de sexos macho e fêmea é uma construção cultural ou foi Deus quem fez? E Deus, quem fez?

         É a partir do século 17 que a cultura ocidental começa a fazer as distinções nas características físicas dos indivíduos da espécie homo sapiens entre masculinas e femininas. Para os indivíduos masculinos acharam que ficava bom características masculinas e para os indivíduos femininos acharam que seria mais apropriado características femininas. Foi a partir desse pensamento que os órgãos sexuais passaram a ter nomes distintos e que um seria masculino e o outro feminino. É que vinha surgindo a ideia de identidade, coisa que até aquele século ainda não se cogitava. Até aquela época, as pessoas eram vistas como um todo: as nações, as tribos, os religiosos, os súditos, os bons, os maus. É então que a partir do século 17, nós inventamos o indivíduo. Para ter existência, um indivíduo necessita de características que o identifiquem como tal. E a primeira característica requerida de um indivíduo é a respeito do seu sexo. É menino ou menina?

A criação do gênero

         Para suportar a invenção da identidade, os homo sapiens, agora chamados de indivíduos, passam a ser caracterizados, identificados e instituídos pelo gênero (invenção cultural). Como tendência biológica do homo sapiens de separar tudo para compreender, surge o binômio gênero masculino e gênero feminino. Outra tendência biológica do homo sapiens é considerar que as coisas são duplas e são opostas entre si. Nesse pensamento de separação e oposição, como bem e mal, nada e tudo, triste e alegre, forte e fraco, orgulho e humildade, valentia e covardia, o homo sapiens inventou os gêneros masculino e feminino e os opuseram um contra o outro. E, satisfeitos com a sua nova invenção, criaram as características para distinguir os gêneros. Classificaram o gênero masculino ao lado do bem, do tudo, do alegre, do forte, do orgulho, do valente, etc. ou seja, somente coisas positivas, para fora, para cima, para o celestial. E o gênero feminino classificou-se do lado do mal, do nada, do triste, do fraco, da humildade, do covarde, etc. ou seja, ao lado de coisas negativas, para dentro, para o profundo, o abismal, para o inferno.

Segundo a terceira lei de Newton

        A cultura inventa os gêneros masculino e feminino. Desde então, um indivíduo para ser considerado do gênero masculino haveria de ter todas as características masculinas e para ser do gênero feminino haveria de ter todas as características femininas. Mas qual a origem dessas características masculinas e femininas? Ora, os indivíduos?  O indivíduo inventa a cultura que inventa o indivíduo, que inventa a si mesmo.

        Segundo a terceira lei de Newton, para toda ação (força) sobre um objeto, em resposta à interação com outro objeto, existirá uma reação (força) de mesmo valor e direção, mas com sentido oposto. Ou seja, tudo que vai, vem. Assim, o próprio indivíduo inventa a si mesmo. Antes fosse só isso! Mas acontece que a cultura (inventada pelos indivíduos) inventa o indivíduo. Que coisa mais confusa! Pois é, dizem ate que isso é coisa de “viado”. Ora, isso parece coisa da cultura do sexo/gênero binário. A cultura do sexo/gênero binário visa impedir que os indivíduos se comportem fora do binário sexo/gênero masculino/feminino. Desta forma, a cultura dos indivíduos inventa o sexo como produto dos gêneros masculino e feminino.

A luta pelo poder

        Mas tudo isso é muito confuso! Ou simples assim: se você tem o órgão sexual do macho da espécie homo sapiens é porque você é do gênero masculino e se você tem o órgão sexual da fêmea da espécie homo sapiens você é do gênero feminino. Ora, mas não é assim mesmo? Se você acha que é assim mesmo, você está querendo dizer que: o indivíduo que tem características masculinas terá, portanto, o órgão sexual do macho homo sapiens e que o indivíduo que tem características femininas terá o órgão sexual da fêmea homo sapiens. Correto? Então, você está me dizendo que a cultura determina o sexo do indivíduo. Portanto, o sexo e o gênero são construções sociais. E como toda construção social (invenção), visa o saber e o poder de uns homo sapiens sobre outros homo sapiens.

         Mas nem tudo no homo sapiens é saber e poder, pois reagindo a essa invenção social de relacionar dogmaticamente o sexo com o gênero, assistimos atualmente a uma crescente movimentação de indivíduos buscando se expressar independentemente dessas formas sexo/gênero masculino/feminino saber/poder.

         Ora, mas os indivíduos têm tantas outras formas para se expressar, pois foram escolher logo se expressar através do sexo? Podiam se expressar através da música, da literatura, da pintura, do futebol, da sua profissão, foram escolher logo se expressar alterando as características inventadas culturalmente para o seu sexo? É que a identidade, como vimos, inventada pela sociedade, tem como fundamento o sexo dos indivíduos. Por isso toda autoexpressão passa pela forma como cada indivíduo vive o seu próprio sexo. Ser um indivíduo é igual a ser uma maneira única de se expressar sexualmente.

A cultura determina como cada indivíduo deve se comportar

        Toda essa complexa engrenagem gera um código de normas, regras, modelos morais e de corpo. Esse código forma um sistema sexo/gênero que determina o que é aceitável, o que pode ser dito e o que pode ser compreendido das expressões sexuais. Todo esse sistema sexo/gênero, portanto, cria o sexo. O gênero cria o sexo e não o seu contrário. Portanto, é ilusória a suposta evidencia de que o sexo biológico determina as identidades das pessoas.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        Assim, o corpo do homo sapiens é construído por meio de apetrechos, vestimentas, adornos, piercings, escarificações, tatuagens, modificações corporais. O corpo do homo sapiens é uma produção efetuada por meio de modelos dominantes da estética corporal de uma sociedade. O corpo do homo sapiens é determinado pelo olhar do outro homo sapiens. Os movimentos atuais de expressão da identidade retornam para o corpo. Mais uma vez, a cultura homo sapiens, quando se percebe perdida no mundo das ideias, retorna ao corpo. É que toda cultura humana passa pela estética. E a estética do corpo é a única natureza humana possível, o resto são ideias em torno de.