Uma produção espontânea e despreocupada dos movimentos

        Existe uma psicoterapia que busca proporcionar aos seus alunos um ensino que considera o corpo na sua singularidade, em respeito à complexidade anatômica e dinâmica de cada um. Essa pratica de psicoterapia propõe um conhecimento experiencial da dinâmica do corpo através da observação dos seus movimentos. Num segundo momento utiliza-se a observação efetuada de forma consciente para produzir ludicamente novas possibilidades de movimentos. O lúdico provoca uma produção espontânea e despreocupada dos movimentos.

        Um movimento sem sentido é um desperdício intencional e desajustado. Um movimento vem sempre expresso com um sentimento. Entretanto, há o momento para sentir o movimento e outro para conhecer o movimento.

        Um movimento não é a representação de um sentimento, mas do próprio movimento em relação com os acontecimentos. Qualquer ação corporal pode ser descrita: através da parte do corpo que se move, em que direção o movimento se realiza, em que velocidade se processa e de quanta intensidade utiliza. Os nossos tecidos, órgãos e músculos retêm e conservam na memória os nossos gestos.

O corpo é a própria matéria para a criação de si mesmo

        As práticas que utilizam a expressão corporal podem nos capacitar a ampliação da nossa consciência do corpo e dos seus movimentos para utilizar o corpo de forma mais diversa e espontânea. Essa pratica se utiliza dos movimentos singulares dos seus alunos para ressurgir novos movimentos inexplorados e ainda não corporificados.

        Essas práticas possibilitam aos antigos movimentos se desencadearem e se desenrolarem em diferentes partes do corpo. Isso possibilita um acesso a partes do corpo inexploradas, uma desconstrução de uma maneira habitual de se mover, de estar no mundo. A desarticulação e a decomposição de antigas formas de se movimentar possibilita uma multiplicidade de novos movimentos.

        O movimento tem origem no corpo e não fora dele. É a partir do movimento que o corpo se relaciona com o ambiente. O corpo se movimenta então se relaciona. E esse movimento está repleto de sentimento. Trata-se de sentir o movimento. Sentir o movimento é expressar o movimento com consciência. O que essa psicoterapia busca é as possibilidades de movimentos que são produzidas a partir das sensações.

        Mas para que possamos acessar a multiplicidade de movimentos que são produzidos a partir das sensações, antes precisamos ter um corpo. Criar um corpo é a primeira tarefa da psicoterapia do movimento.

O processo é mais importante que o resultado

        “O modo como fazemos uso do corpo afeta diretamente o desempenho funcional dele. A qualidade de uso do corpo exerce uma influência contínua sobre o nosso funcionamento, formando um hábito. Quando nos afastamos de antigos hábitos, nos afastamos também de antigas ideias pré-concebidas”.

        Essa psicoterapia começa a partir das nossas sensações. A percepção do corpo em movimento interfere diretamente sobre a consciência que temos de nós mesmos. O aluno dá início a essa psicoterapia quando experiencia novas avaliações sensoriais na percepção do movimento, sem passar por um processo de intelectualização.

        A técnica de Frederick Matthias Alexander (1869-1955) consiste em não-fazer o movimento. No lugar disso, fazer uma pausa para pensar e sentir a intenção do movimento antes de nos movermos. Essa pratica solicita que nos coloquemos inteiramente no momento presente, para não-fazer o movimento, para possibilitar que outro movimento surja. Isso significa “recusar-se a atuar diretamente na busca de seu ‘fim’ e manter toda a atenção nos ‘meios pelos quais’ esse fim pode ser alcançado”.

Agimos por impulso

        “O pensamento tem movimento. Nos tornarmos conscientes de nós mesmos através de nossos movimentos. Certamente o processo inverso também ocorre – nossos pensamentos influenciam nossos movimentos e podem modificá-los”.

        “A técnica de Moshé Feldenkrais (1904-1984) visa um corpo organizado para se mover com o mínimo de esforço e o máximo de eficiência. Uma forte característica da técnica é a execução excessivamente lenta dos movimentos. O objetivo é aguçar nossa atenção para separar a ação da intenção do movimento. Ao focar nossa atenção nos meios pelos quais executamos uma ação, exploramos o alcance máximo dessa ação no espaço e no tempo e, consequentemente, eliminamos a maior parte do esforço inútil”.

        A incapacidade de variar os níveis de tensão de nossos comportamentos automáticos constitui uma ação compulsiva, que será executada em qualquer lugar da mesma forma como nas experiências anteriores. “Nessa perspectiva, a compulsão é um comportamento parasita que impede a expressão da espontaneidade: toda ação é espontânea quando não é compulsiva. Isto significa dizer que ampliar o repertório de possibilidades que tenho para realizar minhas ações, é também oferecer outros recursos viáveis para reações não compulsivas diante de novas experiências, abrindo caminho para a espontaneidade”.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        A tarefa do psicoterapeuta é “criar um ambiente acolhedor que facilite a conquista do funcionamento integral (e espontâneo) por parte do aluno ou paciente. Deve-se permitir que as pessoas levem o tempo de que precisarem para realizar a experiência em si mesmas. O melhor modo de agir deve ser encontrado por escolha pessoal, sem nenhuma compulsão moral para agir ‘certo’”.

Referencias

RESENDE, Catarina Mendes. Saúde e corpo: contribuições para uma formalização teórica e pratica do método Angel Vianna de Conscientização do Movimento como um instrumento terapêutico. Rio de Janeiro: UFRJ/Instituo de Estudos em Saúde Coletiva, 2008.

 

As pessoas vivem cheias de tedio

         Apesar de tantas opções de divertimento ou, talvez, por conta disso, as pessoas vivem cheias de tedio. Quando termina o divertimento, o passeio, a balada, o cinema, o almoço, as pessoas se dão conta que estão com elas mesmas. É quando o tedio se faz presente. Mas isso é bem fácil de explicar: é muito difícil ficar com alguém que a gente não conhece. Afinal, o que temos para conversar com essa pessoa?

         As pessoas estão sempre irritadas, intolerantes, contrariadas, sofrendo por antecipação. As pessoas se concentram apenas por poucos instantes e a memória retém muito pouca experiencia. As pessoas se comportam dessa mesma maneira com relação a si mesmas: convivem pouco consigo e se ignoram. As pessoas recebem muita informação, diariamente, sobre o mundo, sobre tudo o que está acontecendo. Mas a informação sobre si mesmas, onde é que elas conseguem?

         Algumas pessoas tem a estranha pratica de escovar os dentes após as refeições. Outras pessoas tem a estranha pratica de tomar banho pelo menos uma vez por dia. E quantas vezes por dia higienizamos nossas emoções e os nossos pensamentos? Se não escovamos os dentes após as refeições, o que fazemos com aquela sobra de comida que ficou entre os dentes? Se não tomamos banho, o que fazemos com o odor que exala do nosso corpo? E quando uma ansiedade nos invade, uma ideia punitiva nos atormenta, como procedemos?

O tedio é uma escolha?

         Somos mesmo livres? Os nossos pensamentos são tão livres que pensamos coisas que outras pessoas jamais pensaram? Escolhemos o que pensamos? E o que fazemos? Somos livres para fazer o que temos vontade? Estou sentado numa cadeira, sinto sede, me levanto da cadeira, caminho até a cozinha, abro a geladeira, pego o vasilhame com agua gelada, encho um copo com um pouco daquela agua. Como sou livre para fazer o que eu quero, eu jogo a agua na pia e retorno para sentar na cadeira onde me encontrava. Concluo, então, que sou livre para fazer o que quiser, mas continuo com sede. Mas por que é que isso não acontece com meus pensamentos e as minhas emoções? Meus pensamentos e minhas emoções me escravizam. Por que é que parece que é algo que pensa em mim e não eu que penso?

         Nossos pensamentos são formados nas nossas experiencias, nas nossas relações com o ambiente e na relação que mantemos com a gente mesmo. Aquilo a que chamamos de eu é um produto das interações que experienciamos com o mundo. Os nossos pensamentos são o produto da interação de vários fatores: nossa genética, as relações com o fisiológico de quem ou onde fomos gerados, o nosso ambiente social e geográfico, as nossas relações com a gente mesmo.

         Essas interações são realizadas sem que nós tenhamos quaisquer escolhas sobre como essas interações deveriam ser processadas. As escolhas que hoje fazemos estão fundamentadas no produto dessas interações que fizemos. Essas escolhas que hoje fazemos são tomadas fundamentadas em escolhas que não tivemos a menor influência sobre elas. Fizemos essas interações sem que pudéssemos decidir sobre qual direção tomar. E ainda dizem que somos livres para escolher? As nossas escolhas são o produto de uma escolha fundamentada numa base de dados sobre a qual tivemos muita pouca escolha.

Podemos desfazer o tedio?

         O registro das nossas experiencias é de certa forma construído sem a nossa influencia consciente. A nossa própria consciência é produto desses registros. Sendo assim, se é essa nossa consciência, fundada em bases por nos ignoradas, que representa a nossa capacidade de escolha, somos mesmo dotados de liberdade de escolha?

         Submetidos a ideia dessa suposta liberdade de escolha, muitas pessoas, em todas as sociedades do mundo, se cobram maneiras de comportamento. Essas pessoas se punem quando falham na obtenção das suas metas. As pessoas se punem caso se comportem de maneiras que não correspondam as suas expectativas.

         A consciência de um fenômeno não é uma compreensão direta daquele fenômeno. O que pensamos de um acontecimento é um produto gerado por um processo complexo que envolve as nossas sensações, as nossas emoções, os nossos sentimentos. As nossas emoções e os nossos sentimentos são também gerados por um complexo processo de produção do qual não temos nenhuma consciência. Mas nem tudo está perdido, se não podemos escolher como sentimos, podemos compreender como sentimos. E compreendendo como sentimos, podemos fazer diferente.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        Você não sabe como fazer isso sozinho? Mas quer fazer do seu jeito?

Referencias

CURY, Augusto. Ansiedade: como enfrentar o mal do século: a Síndrome do Pensamento Acelerado e como e por que a humanidade adoeceu coletivamente, das crianças aos adultos. São Paulo: Saraiva, 2014.