Sofrer uma violência gera violência em quem a sofre?

        De onde surge a violência? Violência gera mais violência? Somos todos violentos? Existe distinção entre uma violência em que se emprega força “física” e uma violência “psicológica” em que se emprega força emocional? Sofrer uma violência gera violência em quem a sofre? A violência gera raiva na vítima que responde violentamente contra si mesmo ou contra o seu agressor?

        Somos animais dotados de pensamentos e sentimentos arredios ou gregários, desconfiados ou curiosos, agressivos ou compassivos em relação ao mundo. Se a agressão gera mais agressão, por analogia, compaixão pode gerar mais compaixão. Se respondemos com violência recebemos mais violência em troca. Se reagimos com violência é porque aprendemos a responder dessa maneira. Se quisermos mudar o mundo, precisamos antes mudar a nós mesmos.

        Você prefere ser tratado com violência ou com compaixão? Compadecer-se de alguém é tentar sentir como esse alguém está se sentindo. Tentar, pois nunca sentiremos como alguém se sente. It’s impossible! O sentimento de um indivíduo somente por ele pode ser vivenciado. Mas podemos nos lembrar como nos sentimos quando um sofrimento nos atormenta. Porém, também podemos ser violentos com a gente mesmo. E, assim, agimos com relação aos outros, violentamente. Você age com violência ou compaixão consigo mesmo?

        Conforme você se relaciona consigo mesmo, da mesma forma você se relaciona com as outras coisas e pessoas. Se você é violento consigo mesmo, você é violento com os demais. Se você é compassivo consigo, você é compassivo com o mundo. A sua forma de comunicação consigo mesmo gera o seu jeito de se comunicar com o mundo e vice-versa. Você cria o mundo através do jeito como você experiencia o seu mundo e através do jeito como você é determinado pelo mundo em que você vive.

A dominação se exerce pela Palavra

        A espécie homo sapiens foi capaz de construir esse sistema de comunicação através das palavras falada, escrita, pensada, calada. Supomos que, inicialmente, a palavra tenha servido para facilitar a compreensão do mundo pelas pessoas. A palavra faria com que todos pudessem se entender sobre cada situação ou objeto existente. Que maravilhoso! Quando alguém fala ‘tenho sede’, um outro alguém lhe oferece um pouco de agua. Se alguém fala ‘banana’, eu sei do que ele está falando. Quão maravilhosas são as palavras! Falar da beleza estética da mulher do seu vizinho para um amigo e ele concordar sobre a admiração que também exerce em apreciar uma específica parte daquela.

        Mas com a evolução da linguagem, a palavra se transformou no mais eficiente poder de dominação de um homo sapiens sobre outro homo sapiens. Mas utilize as palavras de forma cautelosa diante de um animal, tipo cobra, jacaré ou tigre, ele não conhece as palavras e pode não compreender o que você esteja tentando comunicar. Mas, se você quer ser um homo sapiens que exerce poder sobre os outros homo sapiens, domine as palavras. Seja eloquente orador, como os gregos antigos nas praças públicas inventando a democracia (o poder exercido pela oratória).

        Esse poder de dominação de homens não somente é exercido sobre uma multidão de homens, mas, principalmente, sobre o mais próximo, sobre aquele que se encontra do seu lado. A linguagem fortalece a compreensão do mundo e favorece a habilidade dos mais capazes na oratória. Parece ser uma característica biológica do homo sapiens considerar que os fenômenos têm causa e efeito. Essa característica, conjugada com a habilidade da oratória, capacita o homo sapiens para fazer diagnósticos e julgamentos sobre os fatos e as pessoas.

A violência é um estado de dominação

        Apesar de tanta doçura e comedimento ao dirigir a nossa palavra, a violência de nossa existência biológica não nega – somos animais. Animais violentos e territoriais que se utilizam das palavras para demarcar o nosso território. A capacidade da oratória, a necessidade de exercer o poder sobre as coisas e as pessoas e de demarcar seu território transformaram a comunicação verbal entre os homo sapiens em uma arma de dominação e destruição.

        Estamos sempre atentos ao que o outro faz, como faz, para que faz, diagnosticando e julgando o seu comportamento. Sempre na intenção de dominação do outro. A violência é o exercício do poder de dominação sobre algo ou alguém. “Quando nos concentramos em tornar mais claro o que o outro está observando, sentindo e necessitando em vez de diagnosticar e julgar, descobrimos a profundidade de nossa própria compaixão, pela ênfase em escutar – a nós e aos outros.       Quando utilizamos a comunicação para ouvir nossas necessidades mais profundas e as dos outros, percebemos os relacionamentos por um novo enfoque”.

O processo da comunicação não-violenta

        “Os quatro componentes do modelo da comunicação não-violenta: observação, sentimento, necessidades e pedido. As ações concretas que estamos observando e que afetam nosso bem-estar; como nos sentimos em relação ao que estamos observando; as necessidades, valores, desejos, etc. que estão gerando nossos sentimentos; as ações concretas que pedimos para enriquecer nossa vida”.

        “Primeiramente, observamos o que está de fato acontecendo numa situação: o que estamos vendo os outros dizerem ou fazerem que é enriquecedor ou não para nossa vida? O truque é ser capaz de articular essa observação sem fazer nenhum julgamento ou avaliação – mas simplesmente dizer o que nos agrada ou não naquilo que as pessoas estão fazendo. Em seguida, identificamos como nos sentimos ao observar aquela ação: magoados, assustados, alegres, divertidos, irritados, etc. Em terceiro lugar, reconhecemos quais de nossas necessidades estão ligadas aos sentimentos que identificamos aí”. E, finalmente, pedimos o que necessitamos da outra pessoa para enriquecer a nossa vida”.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        “A comunicação não-violenta ajuda a nos ligarmos uns aos outros e a nós mesmos, possibilitando que nossa compaixão natural floresça. Ela nos guia no processo de reformular a maneira pela qual nos expressamos e escutamos os outros, mediante a concentração em quatro áreas: o que observamos, o que sentimos, do que necessitamos, e o que pedimos para enriquecer nossa vida. A comunicação não-violenta promove maior profundidade no escutar, fomenta o respeito e a empatia”.

Referencias

ROSEMBERG, Marshall B. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006.

 

Sentimentos de dor e de prazer formam o nosso jeito de ser

Dar a palavra aos sentimentos

        O que é dor? O que é prazer? Como você sabe que sente dor e não prazer ou vice-versa? Você já pensou que o seu jeito de sentir dor ou de sentir prazer tem a ver com a maneira como você lida com as coisas da sua vida? Os nossos sentimentos de dor e de prazer formam o nosso jeito de ser. Os sentimentos de dor ou prazer constituem os nossos padrões mentais.

        “Dentre todos os fenômenos mentais que podemos descrever, os sentimentos e os seus ingredientes essenciais – a dor e o prazer – são de longe os menos compreendidos no que diz respeito a sua biologia e em particular a neurobiologia”.

        Algum dia você já se perguntou para que serve ter sentimentos? Você, uma vez, não, algumas vezes, pensou que preferia levar a vida do seu animalzinho de estimação? Afinal, ele tem comida na hora certa, dorme quando quer e ainda tem o seu carinho e o seu cuidado!

        E quanto a você? Esse animalzinho que sente, nem sempre estimado, o que lhe provoca dor? Outras vezes, muito amado e bem cuidado, transborda de prazer; prazer que passa tão rápido! Talvez o melhor mesmo fosse não sentir. Melhor do que ficar nessa gangorra de ajustes e correções para atingir um equilíbrio entre a dor e o prazer.

A emoção e os sentimentos humanos, os nossos afetos

        Dor e prazer talvez sejam dois conceitos fundamentais na tentativa de compreender os seres humanos e as suas maneiras de viver.

        Tomemos por exemplo que você pode pensar que o amor é um estado agradável causado por algo exterior a você. Bem, então essa é uma ideia que você tem sobre algo exterior a você que lhe causa um estado agradável. A essa ideia você chama de amor.

        Então, o que você faz é separar o processo de sentir do processo de ter uma ideia sobre algo exterior que lhe pode causar uma emoção. No exemplo acima, o amor, um estado agradável. Quando você desloca a sua emoção para uma ideia, você evita lidar com a dor ou o prazer que essa emoção possa lhe proporcionar.

        Apreciemos agora o fato de como você faz para evitar sentir dor ou prazer ou sentir mais dor e mais prazer. Suponha que você está sentindo uma emoção que lhe provoca dor. Você pode querer sentir mais dor ou deixar de sentir a dor. O que você faz?

        Vamos supor, por exemplo, que o seu estado emocional, no momento, é uma saudade. Essa saudade lhe provoca um estado desagradável que chamaremos de dor. Você, então, busca lembrar de mais coisas que lhe aumentam o nível do seu estado desagradável de dor. Então, você sente mais saudade, mais dor.

        Agora, você não suporta mais esse estado desagradável de dor, por sentir saudade, em que você se encontra. O que você faz para parar de sentir essa dor? Como você faz para parar de sentir essa saudade?

        O poder dos afetos é tal que a única possibilidade de, no nosso caso, deixar de sentir dor é sentir um afeto contrário ainda mais forte do que esse que estamos sentindo. A esse afeto mais forte que a dor que estamos sentindo chamamos de prazer. Na psicoterapia, vivenciamos as nossas dores e nos abrimos para os sentimentos de prazer que nos reeducam para lidar com as nossas dores.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

       “Um afeto não pode ser controlado ou neutralizado exceto por um afeto contrário mais forte do que o afeto que necessita ser controlado”.

Referencias

DAMÁSIO, António. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.