As pessoas vivem cheias de tedio

         Apesar de tantas opções de divertimento ou, talvez, por conta disso, as pessoas vivem cheias de tedio. Quando termina o divertimento, o passeio, a balada, o cinema, o almoço, as pessoas se dão conta que estão com elas mesmas. É quando o tedio se faz presente. Mas isso é bem fácil de explicar: é muito difícil ficar com alguém que a gente não conhece. Afinal, o que temos para conversar com essa pessoa?

         As pessoas estão sempre irritadas, intolerantes, contrariadas, sofrendo por antecipação. As pessoas se concentram apenas por poucos instantes e a memória retém muito pouca experiencia. As pessoas se comportam dessa mesma maneira com relação a si mesmas: convivem pouco consigo e se ignoram. As pessoas recebem muita informação, diariamente, sobre o mundo, sobre tudo o que está acontecendo. Mas a informação sobre si mesmas, onde é que elas conseguem?

         Algumas pessoas tem a estranha pratica de escovar os dentes após as refeições. Outras pessoas tem a estranha pratica de tomar banho pelo menos uma vez por dia. E quantas vezes por dia higienizamos nossas emoções e os nossos pensamentos? Se não escovamos os dentes após as refeições, o que fazemos com aquela sobra de comida que ficou entre os dentes? Se não tomamos banho, o que fazemos com o odor que exala do nosso corpo? E quando uma ansiedade nos invade, uma ideia punitiva nos atormenta, como procedemos?

O tedio é uma escolha?

         Somos mesmo livres? Os nossos pensamentos são tão livres que pensamos coisas que outras pessoas jamais pensaram? Escolhemos o que pensamos? E o que fazemos? Somos livres para fazer o que temos vontade? Estou sentado numa cadeira, sinto sede, me levanto da cadeira, caminho até a cozinha, abro a geladeira, pego o vasilhame com agua gelada, encho um copo com um pouco daquela agua. Como sou livre para fazer o que eu quero, eu jogo a agua na pia e retorno para sentar na cadeira onde me encontrava. Concluo, então, que sou livre para fazer o que quiser, mas continuo com sede. Mas por que é que isso não acontece com meus pensamentos e as minhas emoções? Meus pensamentos e minhas emoções me escravizam. Por que é que parece que é algo que pensa em mim e não eu que penso?

         Nossos pensamentos são formados nas nossas experiencias, nas nossas relações com o ambiente e na relação que mantemos com a gente mesmo. Aquilo a que chamamos de eu é um produto das interações que experienciamos com o mundo. Os nossos pensamentos são o produto da interação de vários fatores: nossa genética, as relações com o fisiológico de quem ou onde fomos gerados, o nosso ambiente social e geográfico, as nossas relações com a gente mesmo.

         Essas interações são realizadas sem que nós tenhamos quaisquer escolhas sobre como essas interações deveriam ser processadas. As escolhas que hoje fazemos estão fundamentadas no produto dessas interações que fizemos. Essas escolhas que hoje fazemos são tomadas fundamentadas em escolhas que não tivemos a menor influência sobre elas. Fizemos essas interações sem que pudéssemos decidir sobre qual direção tomar. E ainda dizem que somos livres para escolher? As nossas escolhas são o produto de uma escolha fundamentada numa base de dados sobre a qual tivemos muita pouca escolha.

Podemos desfazer o tedio?

         O registro das nossas experiencias é de certa forma construído sem a nossa influencia consciente. A nossa própria consciência é produto desses registros. Sendo assim, se é essa nossa consciência, fundada em bases por nos ignoradas, que representa a nossa capacidade de escolha, somos mesmo dotados de liberdade de escolha?

         Submetidos a ideia dessa suposta liberdade de escolha, muitas pessoas, em todas as sociedades do mundo, se cobram maneiras de comportamento. Essas pessoas se punem quando falham na obtenção das suas metas. As pessoas se punem caso se comportem de maneiras que não correspondam as suas expectativas.

         A consciência de um fenômeno não é uma compreensão direta daquele fenômeno. O que pensamos de um acontecimento é um produto gerado por um processo complexo que envolve as nossas sensações, as nossas emoções, os nossos sentimentos. As nossas emoções e os nossos sentimentos são também gerados por um complexo processo de produção do qual não temos nenhuma consciência. Mas nem tudo está perdido, se não podemos escolher como sentimos, podemos compreender como sentimos. E compreendendo como sentimos, podemos fazer diferente.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        Você não sabe como fazer isso sozinho? Mas quer fazer do seu jeito?

Referencias

CURY, Augusto. Ansiedade: como enfrentar o mal do século: a Síndrome do Pensamento Acelerado e como e por que a humanidade adoeceu coletivamente, das crianças aos adultos. São Paulo: Saraiva, 2014.

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