Uma produção espontânea e despreocupada dos movimentos

        Existe uma psicoterapia que busca proporcionar aos seus alunos um ensino que considera o corpo na sua singularidade, em respeito à complexidade anatômica e dinâmica de cada um. Essa pratica de psicoterapia propõe um conhecimento experiencial da dinâmica do corpo através da observação dos seus movimentos. Num segundo momento utiliza-se a observação efetuada de forma consciente para produzir ludicamente novas possibilidades de movimentos. O lúdico provoca uma produção espontânea e despreocupada dos movimentos.

        Um movimento sem sentido é um desperdício intencional e desajustado. Um movimento vem sempre expresso com um sentimento. Entretanto, há o momento para sentir o movimento e outro para conhecer o movimento.

        Um movimento não é a representação de um sentimento, mas do próprio movimento em relação com os acontecimentos. Qualquer ação corporal pode ser descrita: através da parte do corpo que se move, em que direção o movimento se realiza, em que velocidade se processa e de quanta intensidade utiliza. Os nossos tecidos, órgãos e músculos retêm e conservam na memória os nossos gestos.

O corpo é a própria matéria para a criação de si mesmo

        As práticas que utilizam a expressão corporal podem nos capacitar a ampliação da nossa consciência do corpo e dos seus movimentos para utilizar o corpo de forma mais diversa e espontânea. Essa pratica se utiliza dos movimentos singulares dos seus alunos para ressurgir novos movimentos inexplorados e ainda não corporificados.

        Essas práticas possibilitam aos antigos movimentos se desencadearem e se desenrolarem em diferentes partes do corpo. Isso possibilita um acesso a partes do corpo inexploradas, uma desconstrução de uma maneira habitual de se mover, de estar no mundo. A desarticulação e a decomposição de antigas formas de se movimentar possibilita uma multiplicidade de novos movimentos.

        O movimento tem origem no corpo e não fora dele. É a partir do movimento que o corpo se relaciona com o ambiente. O corpo se movimenta então se relaciona. E esse movimento está repleto de sentimento. Trata-se de sentir o movimento. Sentir o movimento é expressar o movimento com consciência. O que essa psicoterapia busca é as possibilidades de movimentos que são produzidas a partir das sensações.

        Mas para que possamos acessar a multiplicidade de movimentos que são produzidos a partir das sensações, antes precisamos ter um corpo. Criar um corpo é a primeira tarefa da psicoterapia do movimento.

O processo é mais importante que o resultado

        “O modo como fazemos uso do corpo afeta diretamente o desempenho funcional dele. A qualidade de uso do corpo exerce uma influência contínua sobre o nosso funcionamento, formando um hábito. Quando nos afastamos de antigos hábitos, nos afastamos também de antigas ideias pré-concebidas”.

        Essa psicoterapia começa a partir das nossas sensações. A percepção do corpo em movimento interfere diretamente sobre a consciência que temos de nós mesmos. O aluno dá início a essa psicoterapia quando experiencia novas avaliações sensoriais na percepção do movimento, sem passar por um processo de intelectualização.

        A técnica de Frederick Matthias Alexander (1869-1955) consiste em não-fazer o movimento. No lugar disso, fazer uma pausa para pensar e sentir a intenção do movimento antes de nos movermos. Essa pratica solicita que nos coloquemos inteiramente no momento presente, para não-fazer o movimento, para possibilitar que outro movimento surja. Isso significa “recusar-se a atuar diretamente na busca de seu ‘fim’ e manter toda a atenção nos ‘meios pelos quais’ esse fim pode ser alcançado”.

Agimos por impulso

        “O pensamento tem movimento. Nos tornarmos conscientes de nós mesmos através de nossos movimentos. Certamente o processo inverso também ocorre – nossos pensamentos influenciam nossos movimentos e podem modificá-los”.

        “A técnica de Moshé Feldenkrais (1904-1984) visa um corpo organizado para se mover com o mínimo de esforço e o máximo de eficiência. Uma forte característica da técnica é a execução excessivamente lenta dos movimentos. O objetivo é aguçar nossa atenção para separar a ação da intenção do movimento. Ao focar nossa atenção nos meios pelos quais executamos uma ação, exploramos o alcance máximo dessa ação no espaço e no tempo e, consequentemente, eliminamos a maior parte do esforço inútil”.

        A incapacidade de variar os níveis de tensão de nossos comportamentos automáticos constitui uma ação compulsiva, que será executada em qualquer lugar da mesma forma como nas experiências anteriores. “Nessa perspectiva, a compulsão é um comportamento parasita que impede a expressão da espontaneidade: toda ação é espontânea quando não é compulsiva. Isto significa dizer que ampliar o repertório de possibilidades que tenho para realizar minhas ações, é também oferecer outros recursos viáveis para reações não compulsivas diante de novas experiências, abrindo caminho para a espontaneidade”.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        A tarefa do psicoterapeuta é “criar um ambiente acolhedor que facilite a conquista do funcionamento integral (e espontâneo) por parte do aluno ou paciente. Deve-se permitir que as pessoas levem o tempo de que precisarem para realizar a experiência em si mesmas. O melhor modo de agir deve ser encontrado por escolha pessoal, sem nenhuma compulsão moral para agir ‘certo’”.

Referencias

RESENDE, Catarina Mendes. Saúde e corpo: contribuições para uma formalização teórica e pratica do método Angel Vianna de Conscientização do Movimento como um instrumento terapêutico. Rio de Janeiro: UFRJ/Instituo de Estudos em Saúde Coletiva, 2008.

 

Você não vê sentido na sua existência?

        Você se sente angustiado e não vê sentido na vida que está levando? Você se sente limitado, aprisionado e acuado? Você sente que essa vida que você está levando não é a vida que você imaginou para você? Você sente que vive a vida dos outros e não a sua própria vida? Você não vê sentido na sua existência?

        Você vive se lamentando muito por ter nascido nesta época de dificuldades? Não parece uma época muito inspiradora, mesmo. Você sente uma sensação de perda, pessimismo e desencanto com o presente?

        Sim, é verdade. Você tem uma mente que deixa você desanimado. Você se sente tão desanimado, mas tão desanimado que nem tem forças para o suicídio.  Que tal se você experimentasse viver sentimentos humanos e necessários, tais como a angústia, a desilusão, a tristeza, a perda e o cansaço? Somente para sair um pouco dessa sua rotina desanimada!

        Você está sempre se desculpando e culpando os outros, o sistema, os seus pais, a vida, tudo? O que é isso que você faz com você? Você sabe qual é o jeito certo de fazer as coisas? Você diz que faz tudo errado, mas que esse não é o seu jeito de fazer as coisas.

        Você sente muita inveja daqueles que fazem o que querem? Bem, é você quem acredita nisso – que eles fazem o que querem. Será que os outros fazem mesmo aquilo que querem? Você é aquele que sempre faz o que os outros querem? E você é somente aquele que queria apenas poder querer aquilo que faz!

        Se você quer ser médico (a), professor (a), padeiro (a), um “bom” (a) filho (a), corrupto (a), etc., você precisa fazer alguma coisa a respeito disso. Se você quer ter um projeto de vida e valores, você precisa fazer alguma coisa a respeito disso?

        No entanto, você se sente tão desanimado. Você se sente tão perdido. Você se sente cansado. Você se sente muito cansado.

O que a psicologia pode fazer por você?

        Em diversos momentos das nossas vidas nos deparamos com dificuldades nos relacionamentos, nas conquistas ou nas satisfações. O que faz a psicologia é entender como essas dificuldades se processam em nos. A psicologia nos ajuda entender como nos comportamos dessa ou daquela maneira nos ajuda a lidar com as dificuldades de forma satisfatória.

        A psicologia nos ajuda conhecer os nossos limites, as nossas potencialidades e capacidades, assim, aprendemos a evitar sofrimentos desnecessários.

        Durante um processo de psicoterapia você será encorajado a vivenciar e expressar os seus sentimentos. E através da identificação e compreensão de como os seus sentimentos se formam você aprendera a lidar com eles com autonomia de poder.

O desafio é ser o que somos numa vida que é o que é

        Convenceram as pessoas de que elas vivem para ser felizes. A psicologia não se propõe mostrar nenhum caminho para a felicidade. A vida é o que é. E cada um de nós é como é. O que podemos fazer então para nos sentir de “bem com a vida”? O desafio é ser o que somos numa vida que é o que é. E como fazemos isso? Podemos tentar nos conhecer mais. É possível saber como são os nossos desejos, os nossos medos? Podemos descobrir que coisas nos fazem felizes? É possível descobrir como nos comportamos nas pequenas ações do nosso dia-a-dia? Podemos tentar pensar menos no que os outros pensam sobre nós? Podemos fazer muitas coisas para viver a vida como ela é, sem precisar deixar a vida nos levar para onde ela quiser?

        E como é que eu faço para me conhecer mais? A psicoterapia pode ajudar nisso. No começo rola um certo preconceito do tipo: “terapia é coisa de maluco”, “eu não preciso disso, não sou doente”. “Se for para pagar alguém para me ouvir falar, eu vou para o bar com meus amigos”. Mas psicoterapia não é coisa de maluco. Ela tanto pode lhe ajudar a resolver um problema pontual, quanto pode ser uma jornada em busca do autoconhecimento. A psicoterapia não é o único procedimento, nem obrigatório, para o autoconhecimento. Mas para se autoconhecer necessitamos de uma relação com uma outra pessoa. Ninguém transforma ninguém, mas ninguém se transforma sozinho.

Para cada um o seu cada um

        Desde criança, somos levados a acreditar que viver tem um objetivo. Uns creem que o objetivo dessa vida é se preparar para uma outra vida. Outros creem que precisam dar um sentido a essa vida que vivem. Alguns dão sentido a sua vida quando a vida se transforma em atingir objetivos. Outros acreditam que ter é ser feliz. Estamos sempre vivendo uma vida que vira. Vivemos para o futuro.

        Acordamos de mais uma noite mal dormida, antes do sono saciar, para cumprir uma programação diária de sucesso, de metas a atingir. Levantamos da cama para acordar. Comemos produtos saudáveis pela manhã para não ficarmos doentes. Não comemos pelo prazer, mas pela meta de ser saudável. Escovamos os dentes com a pasta indicada pelo especialista para evitar tártaros e caries. Vamos trabalhar para ganhar dinheiro. Que importa se o chefe é autoritário, se os colegas querem o seu cargo, se o trabalho é tedioso, trabalhamos para ganhar dinheiro. Almoçamos para saciar a fome: não importa a qualidade do que comemos, o objetivo é “matar” a fome. Precisamos de transportes mais rápidos e eficientes para chegar onde temos de chegar. Precisamos fazer tudo mais rápido para chegar rápido em algum lugar, onde rapidamente ficaremos. Precisamos de mais tempo para descansar. Precisamos de mais tempo para dormir. Passeamos para nos divertir. Estamos sempre precisando de mais tempo para fazer as coisas. Precisamos de um objetivo para fazer as coisas. Quando fazemos por fazer, não precisamos de um tempo, simplesmente, fazemos. Fazemos pelo prazer de fazer.

Para cada sofrimento, um medicamento

        Da mesma forma lidamos com os sofrimentos. Usamos medicamentos para evitar sentir dores. Usamos medicamentos quando sentimos dores. Usamos medicamentos para sofrimentos imaginados. Usamos medicamentos para medicar os efeitos colaterais dos medicamentos que utilizamos para não sentir dores. Cada vez mais consumimos medicamentos para atingir as nossas metas.

        Estamos indispostos ou fatigados, usamos medicamentos para ficar excitados, mais inteligentes e atraentes. Ficamos muito agitados e precisamos descansar, usamos medicamentos calmantes para aplacar a nossa ansiedade. Ficamos tristes, muito tristes, melancólicos, usamos medicamentos antidepressivos para nos juntar aos indivíduos felizes da sociedade. Sentimos o tedio da vida, usamos medicamentos reguladores do humor para achar graça de tudo que acontece na vida – a vida é alegria, é tempo de sorrir, sorria, você está sendo filmado! Precisamos descansar dessa vida de alegria, usamos medicamentos indutores do sono. Temos coisas muito chatas para fazer, usamos medicamentos aditivos para a concentração.

        E usamos tantos outros medicamentos para atingir tantos outros objetivos que precisamos alcançar. Essa maneira de viver se parece com o cachorro que não sabe que o rabo é seu e se move em torno de si mesmo tentando alcançar o próprio rabo. Usar medicamentos para atingir objetivos é correr atrás do próprio rabo. O uso de medicamentos acelera o atingimento das metas e dificulta a vivencia do processo de conquista dos objetivos. A psicoterapia circula na contramão desse comportamento de atingimento de metas. A psicoterapia propõe a vivencia do processo.

A medida do sofrimento de cada um

        Os medicamentos são muito uteis para aplacar os sofrimentos. Somente você está autorizado a dizer o quanto dói as suas dores. As dores são processos biológicos disponíveis para todos nos. As dores não distinguem sexo, cor, idade, classe social, crença religiosa, nível intelectual, etc. Porém, o jeito como sentimos as dores é único para cada um de nos. A medida do sofrimento da minha dor é incomensurável pela medida do sofrimento que você mede a sua dor.

        Assim como o sofrimento de uma mesma dor é distinto para cada um de nós, os medicamentos agem de maneira diferente em cada organismo. A escolha do medicamento mais adequado para um organismo é um procedimento de tentativa e erro. O que se sabe, atualmente, é que o único elemento que não pode faltar na composição desse medicamento mais adequado para cada organismo é a combinação com a psicoterapia.

        O uso de medicamentos interfere na consciência. O uso de medicamentos minimiza a percepção do indivíduo da responsabilidade pelos seus atos. O consumo de medicamentos é mais uma meta atingida pela nossa sociedade de consumo.

Condicionamento operante

        Somos condicionados para atingir objetivos. Vamos aos shoppings fingir ser quem não somos, para comprar algo de que não precisamos, com um dinheiro que não temos, para impressionar alguém que não conhecemos. E se acaso você for aquele indivíduo que se recusa a fingir ser quem não é, a comprar o que não precisa, a gastar o dinheiro que não tem, você será enquadrado em algum transtorno recém descoberto para consumir determinado medicamento recém lançado pela indústria da “saúde”.

        A sociedade de consumo condiciona os seus indivíduos a ter para ser. A sociedade de consumo condiciona os seus indivíduos ao desapego sem vínculos, quanto mais desapego sem vínculos, mais falta, mais consumo. A sociedade do objetivo condiciona os seus indivíduos para a impaciência com a demora em obter os resultados. A sociedade da informação condiciona os seus indivíduos a aparecer para ser.

        A sociedade dos direitos humanos, dos todos somos iguais, não aceita que alguém seja feliz se for diferente. A falta de autoconhecimento deixa os indivíduos inseguros. Para se sentir seguros, os indivíduos escolhem fazer parte da massa. A massa de consumo. Os indivíduos inseguros consomem. Os indivíduos que se conhecem se distinguem da massa. A massa insegura faz valer a sua força física para impor a sua forma de viver ao que lhe é desigual. O temor da massa de perder a sua segurança produz o sentimento de desigualdade. O sentimento de desigualdade inventa os abusos e as relações hierarquizadas de poder. Ah, como é difícil ser um. Acho que preciso de psicoterapia!

As suas necessidades de cuidado duram uma vida inteira

        Do que você precisa para viver? Será que você incluiria a psicoterapia como algo imprescindível para a sua sobrevivência? Você se olha e se vê como qualquer outro bicho-animal? Um bichinho-animal precisa para viver: respirar, comer e de outro bicho-animal mais experiente que cuide dele. Esse cuidado dura até que o bichinho-animal adquira comportamentos que o capacitem a cuidar de si mesmo por toda a sua vida. Esse aprendizado varia de alguns minutos a alguns poucos dias. Praticamente, um bicho-animal já nasce sabendo viver. Quando você se olha e se vê como bicho-homem, as suas necessidades de cuidado duram uma vida inteira. O bicho-homem não nasce sabendo viver, ele aprende enquanto vive.

        Dentre algumas necessidades básicas descobertas pelo bicho-homem, destaco três perguntas que alguns desses bichos fazem: quem sou eu, de onde eu vim e para onde eu vou? Esses são os bichos que procuram a psicoterapia, os perguntadores, os inquietos, os curiosos, os cientistas, os adeptos de religiões e os insatisfeitos com as suas próprias respostas e as respostas dos outros para as suas questões.

        Tem, também, aqueles bichos que são levados para a psicoterapia por alguém, por engano ou por ocasião, pois não tem a menor ideia do que está se passando com eles. São aqueles bichos com dificuldades de aprendizagem, com dificuldades de concentração, com dificuldades de relacionamentos, com dificuldades de lidar com as dificuldades dos outros, enfim, em dificuldades. Há aqueles outros bichos com indefinições profissionais, vítimas de abusos sexuais dentro da própria família e fora dela, vítimas do alcoolismo, com falta de foco, com falta de projetos de vida, com falta de amor, com falta.

        Mas também tem aqueles bichos que procuram a psicoterapia por vontade própria. Aqueles que querem entender os amores desfeitos ou que estão por se desfazer ou como fazer um. Aqueles que ainda querem entender os seus complicados relacionamentos com os pais ou com os filhos. Aqueles que tem sentimentos de rejeição e muitas outras questões. O bicho-homem não cessa de criar necessidades para si.

        Ah! Tem também aqueles bichos desenganados pela medicina. Aqueles orientados para procurar a psicoterapia porque os motivos das suas queixas são de “fundo emocional”. E mais alguns tantos outros bichos precisam de psicoterapia por motivos impensáveis como a asma, gagueira, hipertensão, dores no corpo, insônia, depressão, irritabilidade e outros incômodos crônicos menos famosos.

        Os bichos buscam a psicoterapia ou são levados até ela? Algo parece comum, muitos bichos buscam a psicoterapia para encontrar respostas para o que consideram que não vai bem na sua vida. E, por incrível que pareça, não é que eles encontram! Os bichos encontram uma pessoa em si mesmos. Alguém que sempre esteve ali com eles e eles ainda não tinham notado.

        Se você deseja mudar um comportamento, um jeito de sentir, uma forma de pensar, a psicoterapia é uma atividade que ajuda você a obter êxito nessa mudança. Você também pode tentar mudar sozinho seus comportamentos, sentimentos e pensamentos.

Basta saber como proceder

        O que um psicoterapeuta faz é acompanhar você no seu processo de mudança. E cá entre nós, estar acompanhado num processo de mudança é bem melhor do que estar sozinho. É que aprendemos o nosso jeito de ser nas relações que temos com o mundo. Portanto, o que pretendemos mudar é a nossa forma de nos relacionar com o mundo. Essa forma de se relacionar com o mundo passa pela forma como nos relacionamos com nós mesmos. Esse é o desafio da psicoterapia: compreender como nos relacionamos com nós mesmos. E para isso, nada melhor do que ter uma outra pessoa por perto nessa caminhada.

Quando você não sabe como fazer sozinho

        Como você sabe que você precisa de ajuda? Quando você necessita fazer algo, mas você não sabe como fazer sozinho. Da mesma forma, você precisa de ajuda psicológica, quando você não sabe como fazer sozinho.

        Você sente culpa por algo que fez. Você precisa desfazer a culpa, mas você não sabe como desfazer sozinho. Você está sempre se desculpando pelo que faz. Você necessita parar de se desculpar pelo que faz, mas você não sabe como fazer sozinho. Você se justifica porque esse é o seu jeito – você é assim mesmo! Você precisa fazer diferente, mas você não sabe como fazer sozinho. Você se sente um pobre coitado. Você necessita se sentir mais estimado, mas você não sabe como fazer sozinho. Você tem noção do quanto seus comportamentos prejudicam a sua vida, mas você não sabe como fazer diferente.

        Você percebe que sua vida está limitada em algum aspecto pessoal, interpessoal, social ou financeiro. Você precisa mudar, mas você não sabe como. As coisas não andam. Você necessita fazer as coisas evoluírem na sua vida, mas você não sabe como. Você se sente limitado nas suas ações. Você precisa se libertar de antigos pensamentos, mas você não sabe como. Você não consegue mudar o seu jeito de ser, mas você não sabe como mudar sozinho.

        Então, um ajudante pode fazer alguma coisa com você. Um ajudante pode colaborar com você e ajuda-lo com as suas necessidades. Um ajudante pode ajudar você a expor os seus sentimentos e pensamentos sem julgar. Um ajudante pode ajudar você a compreender que os pensamentos, sentimentos e comportamentos das outras pessoas são diferentes dos seus. Um ajudante pode ajudar você a aprender novos comportamentos. Um ajudante pode ajudar você a se ajudar sem precisar de ajudante.

        Você conquistara mudanças nas suas respostas emocionais e comportamentais proporcionadas pela ajuda psicológica. Você se sentira mais confiante. Você sentira aumento considerável na sua autoestima.

        Você aprendera sobre si mesmo.

Mas como saber se você precisa mesmo de ajuda?

        Imagine que você caminha por uma das tantas calçadas esburacadas da sua cidade sem atentar para os seus buracos. Você pisa num desses buracos, se desestabiliza e cai no chão. Você pode se levantar sozinho. Você pode ficar caído. Você pode pedir ajuda para se levantar. Você aceita ajuda ou você não aceita e se levanta sozinho e segue o seu caminho.

        Você continua a sua caminhada sem atentar para os buracos na calçada. Guiado pelo seu anjo da guarda, você chegara ao seu destino sem mais nenhuma queda. Mas seu anjo também está desatento nesse momento e você queda de novo ao chão. Você pode ficar caído. Você pode se levantar sozinho. Você pode pedir ajuda. Você pode aceitar ajuda ou você não aceita ajuda e se levanta sozinho e vida que segue.

        Você continua a sua caminhada, mais estressado a cada passo. Antes de terminar o quarteirão, você queda outra vez. Você então percebe que é a terceira vez que você cai. Você percebe que você caiu de novo e se pergunta o porquê. Você percebe que está sempre repetindo a mesma coisa. Você percebe.

        É assim que você sabe que precisa de ajuda para reconhecer as suas necessidades. Você percebe que precisa de ajuda para desenvolver recursos para alterar os padrões que lhe causam sofrimento. Você percebe que você precisa de ajuda para caminhar e não para se levantar.

        Mas você não procura ajuda. As pessoas que lhe cercam – sua família, seus amigos, os seus famosos preferidos e os seus personagens das telenovelas – lhe dizem que você precisa ter “força de vontade”, como elas. Você precisa ser “forte”, como elas. Você precisa ser.… como elas.

        É isso o que elas dizem para você, cheias de “boas” intenções. Mas sabe, o que você precisa mesmo é ser como você é.

        Você não procura ajuda porque essas suas pessoas queridas lhe dizem: o psicólogo lhe dirá o que fazer. Essas pessoas jamais tiveram a experiencia de fazer uma psicoterapia e desconhecem o que faz um psicólogo. Mas estão sempre prontas para emitir a opinião delas sobre você. E dizem mais: você ainda pagará bem caro por isso. Elas lhes dizem que o psicólogo fara aquilo que elas fazem – dizer a você o que fazer. E elas cobram bem menos por isso.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        Você recebera a ajuda do psicólogo para reconhecer como você lida com a sua vida. E decidira, por si mesmo, o que fazer com esse novo conhecimento. Você é o único responsável pela sua vida.

 

Significados contem alto grau de contaminação normativa

        A palavra psicoterapia é formada por duas outras palavras cujos significados contem alto grau de contaminação normativa. Psico, que vem de psique, de origem grega, adquiriu qualidades divinas ao ser entendido hegemonicamente como alma, embora os gregos antigos também a utilizassem para se referir ao sangue e à respiração.

        E terapia, também de origem grega, significava o tratamento de uma doença. Entre nós, está consagrada como o ato de curar. Podemos concluir então que psicoterapia é o ato de curar a alma de uma doença.

        Não é nenhum pouco espantoso, então, se temer a psicoterapia, já que é um “tratamento” para curar a sua alma de uma doença. Quer dizer, somente no início, porque no decorrer do processo psicoterapêutico você pode descobrir que sofre de metástase psíquica.

        O que pode ser mais assustador do que você ser “tratado” de doente por ser o que você é?

Mas, afinal, para que serve a psicoterapia?

        Hoje se compreende que qualquer atividade que propicie bem-estar é terapêutico. Caminhar, jogar, cozinhar, correr ou falar dos outros. Espezinhar alguém, matar ou roubar, também é terapêutico para muitos. Então, terapêutico ainda tem a ver com cura?

        Atualmente, se diz terapêutico e não mais psicoterapêutico. Onde foi parar a psique, a alma? Ela se tornou prescindível? Quer dizer que você não precisa mais de uma alma? Que você não tem mais alma?

 

        Veja que apesar das qualidades divinas da alma, você a trata como um objeto, algo que “você” tem. Algo como uma família, um carro ou um sapato. Onde foi mesmo que você deixou a sua alma?

        Pois então, chega. “Eu vou pagar a conta do analista pra nunca mais ter que saber quem eu sou. Saber quem eu sou? ” (Cazuza, 1988). Você já não tem mesmo mais nenhuma alma para curar!

        A psicoterapia reúne um conjunto de técnicas especificas para lhe facilitar a compreensão de si mesmo.

        De início, o simples compartilhar dos conflitos já ajuda a aliviar a pressão causadora do sofrimento. Durante o processo terapêutico, você passa a compreender como se formam os seus comportamentos. Desta maneira você pode perceber as situações por outros ângulos.

        O processo toma tempo, demanda esforço e comprometimento da sua parte. É um processo algumas vezes doloroso. Pode ser como tratar uma ferida.

Mas afinal, o que é a Psicoterapia?

        A Psicoterapia consiste em sessões regulares de Psicologia Clínica.

        Ao longo das sessões de psicoterapia, você experiencia novas situações, emoções, outras facetas de si, novas formas de comportamento e se convence de que você consegue fazer coisas de maneiras diferentes e satisfatórias para si.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        A psicoterapia nada mais é que um espaço para você dizer de si, para você ouvir a sua própria voz. É o espaço em que se torna possível você expressar a sua angústia – tão verdadeiramente sentida, através daquele “aperto no peito” – e dar-lhe uma forma mais consciente de contornos firmes e concretos.

O que é psicoterapia?

        O termo terapia tem sua origem na civilização grega, onde significa cuidado. O cuidado consiste de um procedimento realizado por algum especialista num determinado assunto. Tal procedimento resulta em benéficos ou melhorias para quem o recebe. “Este benefício é, portanto, uma mudança, e uma mudança para melhor”.

        Se em grego, o cuidado quer dizer terapia, em latim chama-se cura. A cura também implica num procedimento para melhorar uma situação. Tanto o cuidado quanto a cura indicam “a direção em que se deseja obter uma transformação”.

        Pois bem, o termo psico de origem grega significava alma, espirito, sangue e respiração. Podemos então traduzir para o português o termo psicoterapia como o cuidado da alma, a cura do espirito, o cuidado ou a cura do sangue ou da respiração.

        Mas do que cuida a psicoterapia? A psicoterapia seria um procedimento que resultaria em benefícios para quem o recebe. A psicoterapia, portanto, beneficia uma mudança na estrutura da alma, espirito, sangue ou respiração de um indivíduo. E como medir o benefício obtido na psicoterapia? Pela mudança ocorrida no beneficiado. E esta mudança só pode ser obtida com a participação ativa do interessado – o paciente.

        A psicoterapia era um método de trabalho usado pela medicina no final do éculo 19 e início do século 20. Esse método se propunha a curar as doenças nervosas por meios psíquicos e não por meios físicos. As doenças mais conhecidas na época eram a histeria, a neurastenia e a melancolia. Mas como saber se o paciente sofria de uma doença nervosa que necessitaria de um tratamento por meios psíquicos e não físicos? De modo geral, uma doença era considerada de origem nervosa se não tivesse causas físicas. A esta doença chamou-se neurose.

        Inicialmente, usou-se a hipnose como a técnica principal do método psicoterapêutico. O hipnotizador operava por meio da sugestão. O hipnotizador dizia ao paciente o que fazer para se liberar dos sintomas que o incomodavam.

 

        Freud chegou à conclusão de que a sugestão do hipnotizador não resolvia o problema do paciente. A sugestão do hipnotizador poderia silenciar o problema ou encobri-lo. Porém, cessada a sugestão, o problema retornava do mesmo jeito, as vezes mais agravado.

        Assim, Freud desaconselhou o uso da sugestão e recomendou o uso da neutralidade e da abstinência no tratamento psicoterapêutico. O dispositivo psicoterapêutico busca chegar aos problemas psíquicos do paciente pelos meios psíquicos. Portanto, ao psicoterapeuta é aconselhado ser neutro e privar-se de sugestionar o paciente.

        A psicoterapia, desde então, passou a ser um tratamento psíquico, cuja principal técnica é uma conversa terapêutica. Mas essa conversa se diferencia das demais conversas mundanas, por se tratar de uma conversa que visa a influir sobre o psíquico do paciente por meios psíquicos.

        Sendo assim, meu caro e minha cara, se você tem pressa, não faça psicoterapia esperando que o psicoterapeuta vá lhe dizer o que fazer para resolver os seus problemas. A psicoterapia é uma pratica artesanal, sutil e singular, pouco adequada “as exigências consumistas de felicidade imediata e sem esforço que marcam nossa sociedade atual”.

        A psicoterapia é composta por vários métodos terapêuticos. Cada método está articulado com uma concepção do que vem a ser o ser humano. Assim, cada método privilegia certos aspectos e exclui outros. E com toda a certeza, esses métodos não podem ser combinados visto que partem de concepções distintas do ser humano.

        Mostramos no post O que é psicologia? que não temos uma psicologia e sim várias psicologias coexistindo lado a lado. Da mesma maneira, existem várias psicoterapias coexistindo lado a lado, fundamentadas em diversas concepções do que vem a ser, ser humano.

 

Referencias

 

MEZAN, Renato. Psicanalise e psicoterapias. Estudos avançados 10 (27), 1996. Acesso em 02 de março de 2017. Disponível em