A representatividade e a autoridade das instituições tradicionais

        Os movimentos sociais que explodiram na década de 1960 contavam com a participação de indivíduos das classes medias que encorajavam os indivíduos das classes mais populares para se engajarem nas lutas. Aqueles movimentos questionavam a representatividade e a autoridade das instituições tradicionais como o Estado, a Igreja, a Escola e a Família. De forma geral, esses movimentos afirmavam que o privado é político e a desigualdade ultrapassava o econômico.

        Nesse contexto social, das décadas de 1960 e 1970, surgem os movimentos feministas e os movimentos homossexuais com inspiração liberacionista. Esses movimentos viam as mulheres e os homossexuais como indivíduos oprimidos que deviam lutar pela sua liberdade. Esses movimentos concebem o poder como uma atividade de repressão, operando de cima para baixo, da classe dominante para a classe dominada. Esses movimentos estavam fundamentados na luta de classes de inspiração na teoria de Karl Marx (1818-1883), na opressão exercida pelas classes dominantes sobre as classes dominadas.

        Nas décadas de 1970 e 1980, a sociedade heterossexual tentou mostrar que a maioria das pessoas eram heterossexuais. Os movimentos de liberação homossexuais caíram na armadilha heterossexual de que a homossexualidade seria algo restrito a uma minoria que a sociedade precisava aprender a conhecer e respeitar. Naquela época, a homossexualidade era chamada de homossexualismo.

A homossexualidade é algo socialmente forjado

        O termo homossexualismo foi criado no ambiente medico, no século 19. O sufixo ismo denota uma condição patológica como diversas outras condições consideradas doenças. O sufixo ismo também denota um conceito teórico fechado em si mesmo, portanto, sem interação com outros sistemas. Daí a luta dos movimentos homossexuais para alterar a pratica sexual para sexualidade e não sexualismo, pois como já se tinha conhecimento, a pratica heterossexual não se limitava apenas a procriação da espécie.

        Durante as décadas de 1970 e 1980, fizeram-nos pressupor que a maioria das pessoas eram heterossexuais. Fazendo-nos ter a impressão de que a “homossexualidade era algo restrito a uma minoria diferente que a sociedade precisava aprender a conhecer e respeitar”. Entretanto, esse pressuposto de que a maioria das pessoas é heterossexual é bastante questionável. “Se a homossexualidade é uma construção social, a heterossexualidade também é”. O binário hétero-homo é também uma construção histórica. “As pessoas nunca couberam apenas em um número limitado de orientações do desejo”.

O advento da AIDS confirma o paradigma heterossexual

        Eis que no início da década de 1980, algo de novo vem desequilibrar os paradigmas sociais. Rapidamente, a AIDS no meio da década já é considerada uma epidemia – o câncer gay. “A epidemia é tanto um fato biológico como uma construção social. A AIDS foi construída culturalmente e houve uma decisão de delimita-la como DST. Uma epidemia que surge a partir de um vírus, que poderia ter sido pensada como a hepatite B. Ou seja, uma doença viral, acabou sendo compreendida como uma doença sexualmente transmissível. Então, a AIDS foi um choque. E da forma como foi compreendida tornou-se uma resposta conservadora a Revolução Sexual”, iniciada nos anos 1960. “A epidemia de AIDS mostrou que, na primeira oportunidade, os valores conservadores e os grupos sociais interessados em manter tradições se voltaram contra as vanguardas sociais”.

A Queer Nation

        “A ideia por trás do Queer Nation era a de que parte da nação foi rejeitada, foi humilhada, considerada abjeta, motivo de desprezo e nojo, medo de contaminação. É assim que surge o Queer, como reação e resistência a um novo momento biopolítico instaurado pela AIDS.

        Queer é um xingamento, é um palavrão em inglês. Realmente é um palavrão, um xingamento, uma injuria.     A problemática Queer não é exatamente a da homossexualidade, mas a da abjeção. A ‘abjeção’ se refere ao espaço a que a coletividade costuma relegar aqueles e aquelas que considera uma ameaça ao seu bom funcionamento, a ordem social e política. O ‘aidético’, identidade do doente de AIDS na década de 1980, encarnava esse fantasma ameaçador contra o qual a coletividade expunha seu código moral.

        Os movimentos Queer focarão mais na critica as exigências sociais, aos valores, as convenções culturais com forças autoritárias e preconceituosas. E se pautarão menos pela demanda de aceitação ou incorporação coletiva. O Queer, portanto, não é uma defesa da homossexualidade, é a recusa dos valores morais violentos que instituem e fazem valer a linha da abjeção, essa fronteira rígida entre os que são socialmente aceitos e os que são relegados a humilhação e ao desprezo coletivo”.

O poder está em toda parte

        “O movimento homossexual e sua bandeira do ‘orgulho gay’ é uma palavra de ordem com origem em uma classe média branca letrada que, provavelmente de forma inconsciente, parecia tentar criar uma imagem limpa e aceitável da homossexualidade”. Os movimentos homossexuais veem o poder como algo que opera pela repressão. Os sujeitos homossexuais lutam pela liberdade da sua expressão sexual.

        “O Queer busca tornar visíveis as injustiças e violências implicadas na disseminação e na demanda do cumprimento das normas e das conversões culturais, violências e injustiças envolvidas tanto na criação dos ‘normais’ quanto dos ‘anormais’”. Para o Queer Nation, o poder é concebido como mecanismos sociais disciplinadores. No Queer, a luta é para descontruir as crenças, normas e convenções culturais que constituem os sujeitos.

        Ninguém detém o poder. Nos é que associamos o poder a alguém ou a uma instituição. O poder é uma situação estratégica constituída numa dada sociedade em uma época especifica.

A sexualidade como algo construído socialmente

        “Essa nova onda dos movimentos sociais problematiza a cultura e a imposição social de normas e convenções culturais que, de forma astuciosa e frequentemente invisível, nos forma como sujeitos, ou melhor, nos assujeitam.

        O gênero é relacionado a normas e convenções culturais que variam no tempo e de sociedade para sociedade. Homens e mulheres que constroem um perfil de gênero esperado e escondem seu desejo por pessoas do mesmo sexo sofrem menos perseguição? A sociedade incentiva essa forma ‘comportada’, no fundo, reprimida e conformista, de lidar com o desejo, inclusive por meio da forma como persegue e maltrata aqueles que são cotidianamente humilhados sendo xingados de afeminados, bichas, viados, termos que lembram o sentido original de Queer na língua inglesa.

        As pessoas aprendem sobre sexualidade ouvindo injurias com relação a si próprias ou com relação aos outros. Quer você seja a pessoa que sofre a injuria, é xingada, é humilhada; quer seja a que ouve ou vê alguém ser maltratado dessa forma, é nessa situação da vergonha que descobre o que é a sexualidade.

        Daí ser simplista resumir essas violências no termo ‘homofobia’, a violência dirigida a homossexuais, pois essas violências se dirigem a todos e todas, apenas em graus diferentes. Essas violências são expressão da forma como somos socializados dentro de um regime de terrorismo cultural. Algo coletivamente imposto e experienciado; sobretudo, algo que vai além de atos isolados de violência. Fazendo do medo da violência a forma mais eficiente de imposição da heterossexualidade compulsória”.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        “A ameaça constante de retaliações e violências nos induz a adotar comportamentos heterossexuais. Ironias, piadas, injurias e ameaças costumam preceder tapas, socos ou surras. A recusa violenta de formas de expressão de gênero ou sexualidade em desacordo com o padrão é antecedida e até apoiada por um processo educativo, ou seja, por um currículo oculto comprometido com a imposição da heterossexualidade compulsória”.

Referencias

MISKOLCI, Richard. Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças. Belo Horizonte: Autentica Editora: UFOP – Universidade Federal de Ouro Preto, 2016 – Serie Cadernos da Diversidade; 6.

 

O que é invenção da nossa cultura?

         Natural e cultural, sexo e gênero. O que é da natureza do homem, o que é invenção da nossa cultura? O sexo corresponde somente ao que é biológico – órgãos sexuais e hormônios sexuais? O gênero é uma construção social? As relações entre os sexos são relações somente para a procriação? As relações de gênero são relações de poder? Existe alguma relação entre sexo e poder?

         Existem teóricos que garantem que o binário sexo macho e sexo fêmea é uma produção cultural. Existe diferença entre os sexos dos indivíduos de uma espécie ou isso vale somente para a espécie homo sapiens? Mas por que a existência de sexos distintos entre indivíduos de uma espécie não valeria para o homo sapiens?  Essa ideia binaria de sexos macho e fêmea é uma construção cultural ou foi Deus quem fez? E Deus, quem fez?

         É a partir do século 17 que a cultura ocidental começa a fazer as distinções nas características físicas dos indivíduos da espécie homo sapiens entre masculinas e femininas. Para os indivíduos masculinos acharam que ficava bom características masculinas e para os indivíduos femininos acharam que seria mais apropriado características femininas. Foi a partir desse pensamento que os órgãos sexuais passaram a ter nomes distintos e que um seria masculino e o outro feminino. É que vinha surgindo a ideia de identidade, coisa que até aquele século ainda não se cogitava. Até aquela época, as pessoas eram vistas como um todo: as nações, as tribos, os religiosos, os súditos, os bons, os maus. É então que a partir do século 17, nós inventamos o indivíduo. Para ter existência, um indivíduo necessita de características que o identifiquem como tal. E a primeira característica requerida de um indivíduo é a respeito do seu sexo. É menino ou menina?

A criação do gênero

         Para suportar a invenção da identidade, os homo sapiens, agora chamados de indivíduos, passam a ser caracterizados, identificados e instituídos pelo gênero (invenção cultural). Como tendência biológica do homo sapiens de separar tudo para compreender, surge o binômio gênero masculino e gênero feminino. Outra tendência biológica do homo sapiens é considerar que as coisas são duplas e são opostas entre si. Nesse pensamento de separação e oposição, como bem e mal, nada e tudo, triste e alegre, forte e fraco, orgulho e humildade, valentia e covardia, o homo sapiens inventou os gêneros masculino e feminino e os opuseram um contra o outro. E, satisfeitos com a sua nova invenção, criaram as características para distinguir os gêneros. Classificaram o gênero masculino ao lado do bem, do tudo, do alegre, do forte, do orgulho, do valente, etc. ou seja, somente coisas positivas, para fora, para cima, para o celestial. E o gênero feminino classificou-se do lado do mal, do nada, do triste, do fraco, da humildade, do covarde, etc. ou seja, ao lado de coisas negativas, para dentro, para o profundo, o abismal, para o inferno.

Segundo a terceira lei de Newton

        A cultura inventa os gêneros masculino e feminino. Desde então, um indivíduo para ser considerado do gênero masculino haveria de ter todas as características masculinas e para ser do gênero feminino haveria de ter todas as características femininas. Mas qual a origem dessas características masculinas e femininas? Ora, os indivíduos?  O indivíduo inventa a cultura que inventa o indivíduo, que inventa a si mesmo.

        Segundo a terceira lei de Newton, para toda ação (força) sobre um objeto, em resposta à interação com outro objeto, existirá uma reação (força) de mesmo valor e direção, mas com sentido oposto. Ou seja, tudo que vai, vem. Assim, o próprio indivíduo inventa a si mesmo. Antes fosse só isso! Mas acontece que a cultura (inventada pelos indivíduos) inventa o indivíduo. Que coisa mais confusa! Pois é, dizem ate que isso é coisa de “viado”. Ora, isso parece coisa da cultura do sexo/gênero binário. A cultura do sexo/gênero binário visa impedir que os indivíduos se comportem fora do binário sexo/gênero masculino/feminino. Desta forma, a cultura dos indivíduos inventa o sexo como produto dos gêneros masculino e feminino.

A luta pelo poder

        Mas tudo isso é muito confuso! Ou simples assim: se você tem o órgão sexual do macho da espécie homo sapiens é porque você é do gênero masculino e se você tem o órgão sexual da fêmea da espécie homo sapiens você é do gênero feminino. Ora, mas não é assim mesmo? Se você acha que é assim mesmo, você está querendo dizer que: o indivíduo que tem características masculinas terá, portanto, o órgão sexual do macho homo sapiens e que o indivíduo que tem características femininas terá o órgão sexual da fêmea homo sapiens. Correto? Então, você está me dizendo que a cultura determina o sexo do indivíduo. Portanto, o sexo e o gênero são construções sociais. E como toda construção social (invenção), visa o saber e o poder de uns homo sapiens sobre outros homo sapiens.

         Mas nem tudo no homo sapiens é saber e poder, pois reagindo a essa invenção social de relacionar dogmaticamente o sexo com o gênero, assistimos atualmente a uma crescente movimentação de indivíduos buscando se expressar independentemente dessas formas sexo/gênero masculino/feminino saber/poder.

         Ora, mas os indivíduos têm tantas outras formas para se expressar, pois foram escolher logo se expressar através do sexo? Podiam se expressar através da música, da literatura, da pintura, do futebol, da sua profissão, foram escolher logo se expressar alterando as características inventadas culturalmente para o seu sexo? É que a identidade, como vimos, inventada pela sociedade, tem como fundamento o sexo dos indivíduos. Por isso toda autoexpressão passa pela forma como cada indivíduo vive o seu próprio sexo. Ser um indivíduo é igual a ser uma maneira única de se expressar sexualmente.

A cultura determina como cada indivíduo deve se comportar

        Toda essa complexa engrenagem gera um código de normas, regras, modelos morais e de corpo. Esse código forma um sistema sexo/gênero que determina o que é aceitável, o que pode ser dito e o que pode ser compreendido das expressões sexuais. Todo esse sistema sexo/gênero, portanto, cria o sexo. O gênero cria o sexo e não o seu contrário. Portanto, é ilusória a suposta evidencia de que o sexo biológico determina as identidades das pessoas.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        Assim, o corpo do homo sapiens é construído por meio de apetrechos, vestimentas, adornos, piercings, escarificações, tatuagens, modificações corporais. O corpo do homo sapiens é uma produção efetuada por meio de modelos dominantes da estética corporal de uma sociedade. O corpo do homo sapiens é determinado pelo olhar do outro homo sapiens. Os movimentos atuais de expressão da identidade retornam para o corpo. Mais uma vez, a cultura homo sapiens, quando se percebe perdida no mundo das ideias, retorna ao corpo. É que toda cultura humana passa pela estética. E a estética do corpo é a única natureza humana possível, o resto são ideias em torno de.

A sexualidade que não produz animaizinhos

Sexo falado e sexualidade na pratica 2

        No capitulo anterior de Sexo falado e sexualidade na pratica concluímos que a sexualidade, para ser considerada sexualidade, precisa produzir animaizinhos. Portanto, a sexualidade que não produz animaizinhos, mesmo parecendo com a sexualidade que produz animaizinhos, não é sexualidade. Então, que pratica é essa que traz tanta confusão. Que pratica é essa que provoca tanta incompreensão? Como a espécie homem resolveu essa questão?

 

Vamos falar sobre o seu sexo

        Bem, ou mal. Como nada dura para sempre, o silencio a respeito de falar sobre o seu sexo começou a frequentar as salas festivas e os confessionários religiosos da sociedade. A espécie homo sapiens sapiens foi acrescentando outras características a primitiva característica instintiva da sexualidade.

         A espécie homo sapiens sapiens enxertou noções de vida social e práticas culturais no conceito de sexualidade como instinto. Rompido o silencio a respeito de falar sobre o seu sexo,. A espécie homo sapiens sapiens passou a admitir que os animais desenvolvem características sexuais de acordo com o ambiente em que vivem. Rompido o silencio a respeito de falar sobre o seu sexo. A sexualidade muda da categoria de instinto para a categoria de pratica de uma expressão cultural.

 

Quando o seu sexo passou a ser normatizado

        Depois que abandonou o uso da força física para sobreviver (abandonou?), a espécie homo sapiens sapiens aprendeu que a palavra é o poder. He-Man já bradava: “Eu tenho a força”. E isso bastava para que ele fosse poderoso. E como a sexualidade deixou de ser um domínio pessoal para ser de domínio social, abriu-se o caminho para os fracos, aqueles que não tem força física, ditarem regras para a expressão sexual da sociedade. Consequentemente, alguns poucos passaram a ditar a maneira como todos os demais deveriam expressar a sua sexualidade.

        Quando se considera que a sexualidade é influenciada pela cultura, surgem os guardiões sociais que se julgam no direito de ditar as regras de expressão de toda sociedade. Daí aquela pratica que não tinha nome, pois não produzia animaizinhos, mas que parecia com a sexualidade, começou a ser normatizada pelo grupo social dominante. Aquela coisa que parecia ser sexualidade, mas não era, agora tem regras para se expressar. É claro, já que aquela coisa não produzia animaizinhos, precisava de regras para que controlassem aquilo que ela estava produzindo, já que não eram animaizinhos. Além, do mais, estamos no início da sociedade de mercado, onde tudo está à venda para consumo.

 

A luta do bem contra o mal

        Bem, ou mal. E como ninguém concorda com ninguém mesmo e quando concorda é porque não entendeu do que se trata. O que as pessoas querem é se dar bem! Bem, ou mal. Há aqueles que não concordam com as normas pré-estabelecidas e se revoltam e reagem contra as regras. Esses revoltosos e reagentes lutam pelo direito que, supostamente por eles suposto, cada um de nós teria de expressar a sua sexualidade, da sua própria maneira. Aquela sexualidade que não é sexualidade, pois não produz animaizinhos. Esses revoltados e reagentes lutam pelo direito à liberdade de expressão da sexualidade, que não produz animaizinhos.

 

A sexualidade dos fracos e reprimidos

        Mas os fracos são poderosos com as palavras. Os fracos fazem as normas e as regras para subjugar os fortes. E as leis ditam como os indivíduos devem se comportar para viver na sociedade. Os fracos são aqueles que tomam para si o poder das palavras falada, escrita, pensada, oculta e imaginada. Tomando para si o poder das palavras, os fracos submetem todos os demais as suas normas. Submetem os fortes, os fracos, aqueles… meio assim ou assado e aqueles que não estão nem aí para isso tudo. Dá-se início a época da repressão da sexualidade, daquela sexualidade que não produz animaizinhos.

        Como a sexualidade, atualmente, já não é mais aquela sexualidade que só produzia animaizinhos, mas é uma expressão cultural, a repressão da sexualidade é também uma repressão social. Portanto, pode-se concluir que a luta pela liberdade social é a mesma luta pela liberdade de expressão da sexualidade, que não produz animaizinhos.

        E se antes a sexualidade era só produzir animaizinhos, agora ela virou uma luta pela liberdade de repressão e pela liberdade de expressão. Mas que necessidade de repressão é essa, que não se tem mais, que luta pela liberdade de reprimir a sexualidade que não produz animaizinhos? E que liberdade é essa, que se deixou de ter, que luta para ter a sexualidade que não produz animaizinhos?

 

A pratica da sexualidade que não produz animaizinhos

        Os fracos e reprimidos dizem que nos dias atuais há muita liberdade sexual. Uma devassidão generalizada, uma pornografia ilimitada. Se a sexualidade é produzir animaizinhos, os fracos e reprimidos devem estar se referindo a liberdade de produzir animaizinhos, que não está mais limitada ao casamento entre um homem e as suas mulheres. Apesar de, como já vimos, nem mesmo entre o casal heteronormativo, toda a sexualidade produz animaizinhos.

        Os revoltosos e reagentes ainda lutam pela liberdade sexual. Os revoltosos e reagentes lutam pela liberdade de praticar uma sexualidade que não produz animaizinhos. Os revoltosos e reagentes lutam pela liberdade de não produzir animaizinhos quando praticarem a sexualidade.

 

A pratica da repressão e da liberdade sexual

        Haverá mesmo uma repressão sexual ou uma liberdade sexual, atualmente? O que ouvimos, hoje, é um discurso generalizado tanto dos fracos e reprimidos e dos revoltosos e reagentes sobre o que é a sexualidade do outro e não sobre a sua própria sexualidade. As pessoas se importam mais com quem o seu vizinho se deita do que com quem elas se deitam.

        O que ouvimos sobre a sexualidade é um blá, blá, blá permitido, ansiado e desejado por todos. No século 19, quando se começou a falar sobre o seu sexo, o discurso estava restrito aos jantares festivos e aos confessionários religiosos. Nos dias atuais, continua-se a falar sobre o seu sexo, mas o discurso ampliou os seus ambientes. Discursam sobre o seu sexo nas reuniões familiares, nas escolas, nos bares, nas esquinas, nas mídias sociais, na música popular, nos esportes, ou seja, onde há gente.

        Ainda se fala sobre o seu sexo subjugando-o aos significados das regras sociais dos fracos e reprimidos e dos revoltosos e reagentes. Fala-se sobre o seu sexo lhe dando a impressão de que você tem a liberdade de falar sobre o seu sexo. Mas será que é falar sobre o seu sexo o que você demanda? Ou o que você quer mesmo é praticar a sua sexualidade sem precisar falar dela, nem dar conta dela para alguém?

 

O poder do blá, blá, blá sobre o sexo

        O que ainda acontece é mais e mais blá, blá, blá sobre a sua sexualidade. Esse blá, blá, blá p´é uma forma de manter o poder sobre você, através do discurso sobre a sua sexualidade. A sexualidade que produz animaizinhos está inserida numa ordem econômica e social. A sexualidade que não produz animaizinhos está inserida numa ordem moral, portanto, pessoal e intransferível.

        Hoje se pratica mais o sexo falado do que o sexo… sabe, o sexo? Aquele? Não sabe como é? Você me pede que eu desenhe? Ah! Que pena, não sei desenhar. Obrigado pela sua atenção. Obrigado por se permitir ler sobre o que eu tinha a dizer sobre o seu sexo. Esse foi o meu blá, blá, blá.

A sexualidade é influenciada pela interação de fatores

Sexo falado e sexualidade na pratica 1

        A sexualidade é “… um aspecto central de ser humano ao longo da vida engloba sexo, identidades e papéis de gênero, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução. A sexualidade é vivida e expressa em pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, comportamentos, práticas, papéis e relacionamentos. Embora a sexualidade possa incluir todas essas dimensões, nem todas elas são sempre experimentadas ou expressadas. A sexualidade é influenciada pela interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, políticos, culturais, legais, históricos, religiosos e espirituais” (WHO, 2006a).

        Ufa! Essa definição de sexualidade divulgada pela WHO (World Health Organization) abrange tantas características, utilidades, influencias e dimensões que fica mesmo difícil dizer o que é a sexualidade. É tanta coisa que não fica nada. Esse conceito de sexualidade, que talvez vise a esclarecer, só torna assustadora qualquer tentativa de expressão da sexualidade.

        O que quer dizer a OMS quando define a sexualidade como um aspecto central do ser humano? Onde se encontra o centro do ser humano? Ou, o que é o centro para um ser humano? O que é o ser humano? E as expressões da sexualidade? São tantas as possibilidades que determinar uma maneira ou duas de expressão da sexualidade, como o binário homo heterossexual, fica parecendo coisa de autoritarismo. O autoritarismo é expresso por um indivíduo ou grupo de indivíduos quando se julgam mais aptos que os demais indivíduos para determinar o sentido da vida deles, e principalmente, da vida dos outros.

 

Quando não se falava sobre o seu sexo

        Era uma vez, quando ainda não se falava sobre o seu sexo. É espantoso, mas é vero. Houve uma época em que não se falava sobre o seu sexo, somente se fazia sexo. Naqueles tempos remotos, a sexualidade era considerada uma atividade instintiva da espécie homem, bem como das demais espécies animais. E pasmem, naqueles tempos longínquos, já se pressupunha que esse instinto ligado ao sexo teria uma finalidade.

        Como será que se sentiram nossos mais longínquos ancestrais quando viram as suas mulheres aumentarem o volume da barriga e depois sair um animalzinho de dentro dela? E não é que associaram isso ao fazer sexo? Mas, como pode uma coisa dessas? De onde surgiu essa associação de fazer sexo com a produção de animaizinhos?

        Bem, o fato é que, muito tempo depois daqueles tempos em que a espécie homem se assustava com o nascimento dos seus animaizinhos, concluiu-se que a sexualidade animal teria a finalidade de reproduzir novos animaizinhos. Naquele tempo, quando ainda não se falava sobre o seu sexo, todos os comportamentos que não produzissem animaizinhos eram considerados praticas “contra a natureza”. Naqueles tempos do era uma vez, quando ainda não se falava sobre o seu sexo, já se normatizava sobre o seu comportamento sexual.

        Naquele tempo, quando ainda não se falava sobre o seu sexo, era sabido que a sexualidade servia para a procriação e também se sabia como isso era feito. A sexualidade ascendeu ao status de algo que existe pois era a responsável pela produção de animaizinhos. Portanto, quando a sexualidade não produzia animaizinhos era considerada contra a natureza. Como nomear, então, aquele comportamento que, aparentemente parecia ser sexualidade, pois tentava produzir animaizinhos, mas não produzia outros animaizinhos?

 

A pratica da sexualidade que é “contra a natureza”

        Será que essa sexualidade que não produz animaizinhos também seria instinto? Poderia o ato de produzir animaizinhos, embora não produzindo animaizinhos também ser instintivo? Ou somente quando a sexualidade produz animaizinhos ela é instinto? Considerando que a sexualidade dos animais produz outros animaizinhos, então, quando a pratica da sexualidade não produz animaizinhos, não é sexualidade. Portanto, o ato que não produz animaizinhos não pode ser considerado uma pratica “contra a natureza”, já que não é sexualidade.

        A pratica da sexualidade que se parece com o ato de produzir animaizinhos, mas que não produz animaizinhos, portanto não é a sexualidade. Então, que pratica será essa que apesar de visar a produção de animaizinhos, portanto seria a sexualidade, mas não produz animaizinhos, portanto não é a sexualidade?

        Não perca o próximo capítulo de Sexo falado e sexualidade na pratica 2. Enquanto isso, deixe o seu sexo abaixo, quer dizer, deixe o seu comentário sobre o seu sexo abaixo. Não, não, não! Não é nada disso. Não deixe nada, não. Leve. Leve alguma coisa daqui. Leve algo sobre esse meu bla, bla, bla sobre o seu sexo. Leve algo do meu sexo falado. Ou, melhor, faça sexo. Ou, talvez, não faça. Deixa estar! Mas lembre-se: “sexo não tem sexo: é quem gosta com quem quer” (Tavares, 2007).

 

Referencias

TAVARES, Bráulio. A resposta do computador. In TAVARES, Ulisses. Quando nem Freud explica, tente a poesia! São Paulo: Francis, 2007.

(WHO) WORLD HEALTH ORGANIZATION. Saúde sexual e reprodutiva: definir a saúde sexual. Acesso em 04 de junho de 2017. Disponível em

O nosso sexo é uma determinação atemporal e imutável

        “Não há um lugar de chegar, não há destino prefixado, o que interessa é o movimento e as mudanças que se dão ao longo do trajeto”.

        Quando nascemos somos nomeados um indivíduo do sexo macho ou fêmea da espécie homo sapiens. Logo, o nosso sexo é uma determinação atemporal e imutável, considerado biológico, anterior a cultura e binário (macho ou fêmea). Essa nomeação constatada no nascimento e registrada em cartório implica que esse dado do sexo, macho ou fêmea, ira determinar o gênero do recém-nascido animalzinho. E vincular esse gênero, macho ou fêmea, como as únicas duas formas de comportamento aceitas para a espécie homo sapiens.

        Crescemos na suposição de que não há nenhuma outra remota possiblidade de não seguir essa ordem de nascimento: macho ou fêmea. “A afirmação ‘é um menino’ ou ‘é uma menina’ inaugura um processo de masculinização ou de feminização com o qual o sujeito se compromete”. Daí em diante, o indivíduo para existir, pertencer a uma sociedade, se vera obrigado a obedecer às normas que regulam a cultura em que vive.

        Porém, algo imprevisível acontece. Não existe garantia de que os indivíduos nomeados macho se comportem da forma que se espera que um macho se comporte. O mesmo acontece com os indivíduos nomeados fêmea desde o nascimento, nada garante que eles se comportem como indivíduos fêmeas. Assim, tornou-se imprescindível que fosse constantemente reiterada essa nomeação, nem sempre com sutileza, mas com certeza de modo explícito e dissimulado. Quase um mantra diário que nos obriga a repetir: devo me comportar como homem, pois sou macho ou devo me comportar como mulher, pois sou fêmea.

        A sociedade ostenta um trabalho educacional continuo, repetitivo e interminável posto em ação para obrigar os seus indivíduos a se regularem aos gêneros e sexo biológico considerados ‘legítimos’. A educação é tão intensa que provoca a participação dos próprios indivíduos no processo de produção de gênero e sexo compatível com o nomeado pela sociedade. Embora, participantes ativos da construção do seu próprio sexo, esses indivíduos o fazem tomados de constrangimentos.

A verdade sobre o comportamento sexual dos indivíduos

        Dizem que nos últimos dois séculos, nunca se falou tanto sobre sexo. Dizem as más línguas que se fala mais de sexo do que se faz sexo, apesar de toda a publicidade contraria. Falar de sexo tornou-se objeto de atenção para cientistas, religiosos, psiquiatras, antropólogos, educadores, humoristas, cineastas, dramaturgos, escritores, animadores de auditório, bebedores de cerveja, churrasqueiros de laje, etc. O sexo torna-se algo que se pratica na oralidade.

        Como consequência de tanta oralidade, o sexo passa a ser descrito, compreendido, explicado, regulado, higienizado, educado, normatizado. Todo um conjunto de conhecimentos é erguido sobre o sexo. E para os detentores desse conhecimento sobre o sexo é autorizada a normatização de regras e comportamentos para controle da pratica sexual. Esse controle é exercido através das formas de regulação do sexo autorizadas a ditar as normas das práticas sexuais. Sexo se faz dessa maneira, não daquela. Isso é sexo, aquilo não é sexo. Essa pratica sexual é sadia, essa outra pratica é insana. Essa pratica é adequada, essa outra é bizarra. Autorizados pela sociedade dos indivíduos, os estados, as igrejas, as ciências reivindicam para si a verdade sobre o comportamento sexual de todos os indivíduos.

O poder criativo da Palavra

        O homo sapiens é uma espécie biológica animal mamífera muito criativa. Com a sua capacidade biológica da linguagem, a espécie animal humana consegue criar qualquer realidade.

        “No princípio era a Palavra e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus. No princípio ela estava com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dela e sem ela nada se fez do que foi feito. Nela estava a vida, e a vida era a luz dos seres humanos” (João, 2010).

A invenção da homossexualidade

        Desde sempre a espécie homo sapiens vem criando tudo pela palavra. Desse mesmo útero, a espécie animal homem criou a homossexualidade. A homossexualidade e o indivíduo homossexual foram criados no século 19. Antes daquele século, as relações amorosas e sexuais entre as pessoas do mesmo sexo eram consideradas uma atividade indesejável ou pecaminosa. Mas se admitia que qualquer indivíduo poderia sucumbir a essas atividades indesejáveis e pecaminosas.

        Porém, a partir da metade do século 19, a pratica da homossexualidade, que antes era uma atividade que podia ser praticada por qualquer um, passa a ser uma atividade de um indivíduo especifico. Esse indivíduo foi então, marcado, reconhecido e nomeado de homossexual. Esse indivíduo foi categorizado e nomeado como um desviante da norma heterossexual de se comportar. Assim, a homossexualidade, antes uma atividade possível de ser praticada por qualquer um, passa a ser uma atividade produzida por certo indivíduo. A homossexualidade ganha relevância social. A homossexualidade ganha o status de uma produção do discurso. A homossexualidade é uma criação da palavra.

        O discurso produzido sobre a homossexualidade tem conotação negativa sobre a sua pratica. Essa conotação negativa produz políticas e teorias de regulamentação e disciplina dos seus praticantes. As instituições estabelecem os limites, as possibilidades e as restrições para a pratica da homossexualidade. A primeira regra de definição da homossexualidade consta que seria uma relação sexual praticada entre pessoas do mesmo sexo. Essa definição parece indiscutível? Isso parece obvio para os dias atuais. Porém, numa sociedade em que o sexo podia ser praticado sem restrição de sexo e idade, essa normatização produz uma especificação do desejo.

        Portanto, com a produção dos discursos sobre o indivíduo homossexual, muda-se o foco da sexualidade da sua pratica para o indivíduo que a pratica. Toda a responsabilidade pela existência da sexualidade é imputada ao indivíduo. Essa é a nova criação social: a sexualidade é um produto do indivíduo, o único responsável pela sua pratica.

O homossexual é um indivíduo abjeto com práticas epidêmicas

        No início dos anos 1980, o surgimento da AIDS, apelidado de ‘câncer gay’, renova a homofobia. Homofobia que já era latente na sociedade, após o século anterior responsabilizar o indivíduo pela produção da homossexualidade. A intolerância, o desprezo e a exclusão social dos indivíduos nomeados homossexuais foram crescendo durante o século 20. Com o surgimento da AIDS, os discursos sobre a sexualidade se deslocam dos indivíduos para as práticas sexuais. O medo da sociedade não-sexualizada de que a homossexualidade era uma doença epidêmica concretizou-se com o surgimento da AIDS.  A homossexualidade é doença e a gente pega.

        Com a AIDS, a sociedade incentiva ainda mais a exclusão social desses indivíduos abjetos com suas práticas epidêmicas. A sociedade reforça a nomeação do indivíduo homossexual, através dos xingamentos: viado, bicha, sapatão, boiola, baitola, maricas, fanchona, etc. “A força de uma invocação sempre repetida, um insulto que ecoa e reitera os gritos de muitos grupos homófobos, ao longo do tempo, e que, por isso, adquire força, conferindo um lugar discriminado e abjeto aqueles a quem é dirigido”.

        A ignorância é uma forma de conhecimento. A ignorância é produzida por uma forma de conhecimento. O conhecimento sobre a homossexualidade é um modo de conhecer a sexualidade. O conhecimento da sexualidade é sustentado por um jeito heterossexual de conhecer.

Referencias

JOÃO, São. O Evangelho segundo São João. In BIBLIA SAGRADA. Novo Testamento. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2010.

LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autentica, 2016.

 

Quais são os processos necessários para existir o sujeito?

        O que é “o sujeito”? Quais são os processos necessários para existir o sujeito? Como os sujeitos são construídos? Como saber se esses processos de construção do sujeito são eficazes ou não? A ideia de sujeito surge com a psicanalise após o surgimento da ideia de indivíduo no século 19. A ideia de indivíduo se sustenta através da normatização do que seria identidade. A ideia de identidade se fundamenta nas ideias construídas sobre o que seriam o sexo e o gênero. Como na política tudo acaba em pizza, na psicologia tudo começa no sexo.

        Vários teóricos rejeitam a ideia de que o ‘sexo’ seja uma entidade biologicamente determinada, como se acreditava a alguns anos atrás. Atualmente, elegeram, em substituição, a teoria de que “o sexo e a sexualidade são discursivamente construídos ao longo do tempo pelas diversas culturas” (Salih, 2015).

Sexo, uma definição

        “1. Conjunto de características que, nos seres humanos, nos animais e nas plantas, distinguem o sistema reprodutor, seus contrastes e suas interações (sexo feminino/masculino);

        3. Bras. Órgão sexual, masculino ou feminino;

        As características sexuais de um ser humano, cujo conjunto chamamos de ‘sexo’, são, na reprodução, transmitidas geneticamente pelo resultado da combinação do par de cromossomos que determina o sexo. Toda mulher tem um par de cromossomos X, e todo homem tem um cromossomo X e um Y. Assim, se nas combinações de cromossomos do feto resultar um par XX, este será do sexo feminino; se resultar um par XY, será do sexo masculino.

        Os órgãos do sistema reprodutor da mulher são o ovário, as trompas e o útero (e a vagina como receptáculo do pênis e do sêmen na relação sexual); os do homem são os testículos e a próstata (e o pênis como penetrador na vagina e ejaculador do sêmen na relação sexual). Os caracteres sexuais secundários são determinados pelos hormônios feminino (o estrogênio) ou masculino (a testosterona)” (Aulete, 2017).

Sexologia

        “Disciplina ligada à biologia, que toma por objeto de estudo a atividade sexual humana com um objetivo descritivo e terapêutico. A sexologia, ou “ciência do sexual”, constituiu-se no fim do século XIX […] cujo objetivo era estudar o comportamento sexual humano e lutar pela igualdade de direitos em matéria de prática sexual” (Roudinesco, 1998).  A sexologia considera o sexo uma atividade humana. A sexologia conhece a sexualidade como um comportamento humano, portanto, a sexualidade é algo estritamente humano. Não se considera sexualidade a pratica sexual realizada por outros animais.

Sexualidade, o ponto de vista da psicanalise

        “Todos os cientistas do fim do século XIX preocupavam-se com a questão da sexualidade, na qual viam uma determinação fundamental da atividade humana. Assim, faziam da sexualidade uma evidência e do fator sexual a causa primária da gênese dos sintomas neuróticos. Daí a criação da sexologia como ciência biológica e natural do comportamento sexual.

        Impregnado das mesmas interrogações que seus contemporâneos, Freud, no entanto, foi o único dentre eles a inventar (grifo meu) não a prova do fenômeno sexual, mas uma nova conceituação, capaz de traduzir, nomear ou até construir essa prova. Por isso, ele efetuou uma verdadeira ruptura teórica (ou epistemológica) com a sexologia, estendendo a noção de sexualidade a uma disposição psíquica universal e extirpando-a de seu fundamento biológico, anatômico e genital, para fazer dela a própria essência da atividade humana” (Roudinesco, 1998).

        Portanto, para a psicanalise, a sexualidade é uma entidade psíquica sem vínculo com a biologia, anatomia ou genitalidade, e totalmente independente do comportamento dos indivíduos. Podemos dizer que a psicanalise inventa (verbo utilizado pela Roudinesco) a existência de um ente denominado de sexualidade nos mesmos moldes que, na antiguidade, se inventou um ente chamado alma.

A morte do sujeito?

        Produzidos nas décadas de 1950 a 1970, estudos sobre gênero, sobre gays e lésbicas e sobre a teoria feminista consideram a existência de um sujeito preexistente.  O sujeito é definido como um ser, algo que existe a despeito de qualquer outra coisa. Assim como a alma existe e pronto, condição hipotética isenta de comprovação. O sujeito é antes de tudo um ser. Ou seja, esses estudos pressupõem que existem sujeitos. Esses estudos pressupõem que esses sujeitos são categorizáveis: um sujeito masculino, um sujeito feminino, um sujeito gay, um sujeito lésbica, o sujeito macho, o sujeito fêmea. “A teoria Queer empreende uma investigação e uma desconstrução dessas categorias, afirmando a indeterminação e a instabilidade de todas as identidades sexuadas” (Salih, 2015) e de gênero.

        A teoria Queer investigando a “constituição do sujeito supõe que sexo e gênero são efeitos – e não causas – de instituições, discursos e práticas” (Salih, 2015). Ou seja, nós não nascemos com o sexo e o gênero pelo qual somos identificados. O nosso sexo, o nosso gênero, a nossa sexualidade são criados ou causados pelas instituições, os discursos e as práticas.

        Sendo assim, “o sujeito não é uma entidade preexistente, essencial” (Salih, 2015). Do que se depreende que as nossas identidades são construídas, portanto “podem ser reconstruídas sob formas que desafiem e subvertam as estruturas de poder existentes” (Salih, 2015).

Referencias

AULETE DIGITAL. Acesso em 24 de fevereiro de 2017. Disponível em

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

SALIH, Sara. Judith Butler e a Teoria Queer. Belo Horizonte: Autentica Editora, 2015.