Os sentimentos nos tornam humanos

        O que são os “sentimentos – o que eles significam, como funcionam, de onde procedem, e como compreende-los e usa-los”.  “Nossos sentimentos são nosso sexto sentido, o sentido que interpreta, organiza, dirige e resume os outros cinco. Os sentimentos nos tornam humanos”.

        As ferramentas, os sentidos, com que cada um de nós percebe o mundo varia um pouco para cada um de nós, bem pouquinho. Mas o que varia mesmo, e muito, é a maneira como cada um de nós percebe como o mundo faz sentido. Este processo de integrar o mundo ao nosso próprio estilo é um processo universal, ou seja, todos nós nos comportamos dessa maneira. E é também um processo criativo, pois é ele que nos singulariza, nos torna pessoas únicas. “A pessoa que carrega consigo muita raiva não apaziguada, por exemplo, provavelmente achara o mundo que encontra também raivoso e, assim, justifica e perpetua seu próprio sentimento de raiva”.

        O mundo existe independente da nossa existência, porém, o mundo, para nós, é o que percebemos dele. O mundo é uma criação nossa. Quando compreendemos que somos nós que criamos o nosso mundo, nos tornamos responsáveis por nós mesmos, por nossa vida. Aquilo a que chamamos de realidade é compreendido pelos nossos sentimentos. A realidade é uma criação dos nossos sentimentos. Como cada um sente o mundo do seu próprio jeito, a realidade que compartilho com os outros é a minha realidade compartilhada com a realidade do outro, que é outra realidade diferente da minha.

        Os sentimentos são a maneira como nós percebemos o que denominamos de realidade. “Cada um de nós é os sentimentos que tem”.

        “Sem consciência do que significam nossos sentimentos, não há uma real consciência da vida. A realidade que fazemos derivar de nossas percepções, em grande parte, é criação de nossas próprias necessidades e expectativas”.

Os pensamentos

        Os sentimentos são processos criativos que ocorrem em todos os indivíduos humanos. Esses processos formam padrões de comportamentos que podem ser previsíveis e compreensíveis. Já os pensamentos são um modo indireto de perceber a realidade. São os nossos “sentimentos que nos dizem quando alguma coisa é dolorosa e machuca, porque os sentimentos são o machucado. O pensamento explica o machucado, justifica-o, racionaliza-o, coloca-o dentro de uma perspectiva”.

        A inteligência é uma qualidade cognitiva que não propicia nenhuma vantagem na compreensão dos sentimentos. Muitas das vezes é prejudicial para o processo de compreensão dos sentimentos. As pessoas, que se pensam mais inteligentes que as outras pessoas, pensam que podem compreender a vida ordenando os seus pensamentos.

As emoções

        É característica de todo organismo vivo reagir a uma ameaça de dano. Evitar um dano emocional é um processo básico de conservação da vida, existente em todo organismo vivo que se emociona. Às vezes, no entanto, reagimos com tanta intensidade contra um sentimento doloroso que construímos defesas contra a própria viabilidade da existência desse sentimento. Tal processo de evitação dos sentimentos torna difícil acessar e compreender o sentimento evitado, porque o “empurramos para debaixo do tapete”. Parece que com essa pratica intencionamos ganhar tempo para processar os sentimentos que nos incomodam. Nós nos afastamos dos nossos sentimentos para nos proteger deles, para evitar danos momentâneos. Com esse comportamento, adiamos o contato com o sofrimento causado, acreditando que escapamos dele.

Uma evolução da nossa maneira de sentir

        A primeira etapa do desenvolvimento humano é de total dependência. O bebe humano deixado por sua própria conta após o seu nascimento não sobrevivera. A dependência é um sentimento que nos acompanhara durante toda a nossa existência, apesar de todos os esforços para a independência.

        Aprendemos diversos comportamentos durante a nossa evolução para um humano adulto. Aprendemos a fazer coisas por nós mesmos e até alteramos a maneira de fazer as coisas que nos foi ensinada. Aprendemos a nos comportar por nossa própria capacidade. Em sequência a nossa evolução, aprendemos um jeito próprio de como fazer as coisas. A esse jeito próprio de fazer as coisas chamamos de liberdade. Essa liberdade para fazer as coisas da nossa própria maneira nos torna uma pessoa única, singular. Para essa nova característica adquirida, damos o nome de identidade.

        Quando estamos plenamente à vontade com os nossos sentimentos sem precisar nos afastar deles, adquirimos a capacidade de distinguir o que é o meu sentimento com relação ao mundo e o que é que acontece no mundo que me está afetando. Essa nova fase na nossa evolução é conhecida como autonomia. Essa autonomia é conseguida quando me comprometo com os meus sentimentos e deles me aproprio. Eu me aproximo dos meus sentimentos e cuido deles como se eles fossem um bebe, totalmente dependente.

        Mas como fazemos para nos comprometer com os nossos sentimentos? Como aprendemos a cuidar de nós mesmos?

 

Referencias

VISCOTT, David. A linguagem dos sentimentos. São Paulo: Summus, 1982.

A sexualidade que não produz animaizinhos

Sexo falado e sexualidade na pratica 2

        No capitulo anterior de Sexo falado e sexualidade na pratica concluímos que a sexualidade, para ser considerada sexualidade, precisa produzir animaizinhos. Portanto, a sexualidade que não produz animaizinhos, mesmo parecendo com a sexualidade que produz animaizinhos, não é sexualidade. Então, que pratica é essa que traz tanta confusão. Que pratica é essa que provoca tanta incompreensão? Como a espécie homem resolveu essa questão?

 

Vamos falar sobre o seu sexo

        Bem, ou mal. Como nada dura para sempre, o silencio a respeito de falar sobre o seu sexo começou a frequentar as salas festivas e os confessionários religiosos da sociedade. A espécie homo sapiens sapiens foi acrescentando outras características a primitiva característica instintiva da sexualidade.

         A espécie homo sapiens sapiens enxertou noções de vida social e práticas culturais no conceito de sexualidade como instinto. Rompido o silencio a respeito de falar sobre o seu sexo,. A espécie homo sapiens sapiens passou a admitir que os animais desenvolvem características sexuais de acordo com o ambiente em que vivem. Rompido o silencio a respeito de falar sobre o seu sexo. A sexualidade muda da categoria de instinto para a categoria de pratica de uma expressão cultural.

 

Quando o seu sexo passou a ser normatizado

        Depois que abandonou o uso da força física para sobreviver (abandonou?), a espécie homo sapiens sapiens aprendeu que a palavra é o poder. He-Man já bradava: “Eu tenho a força”. E isso bastava para que ele fosse poderoso. E como a sexualidade deixou de ser um domínio pessoal para ser de domínio social, abriu-se o caminho para os fracos, aqueles que não tem força física, ditarem regras para a expressão sexual da sociedade. Consequentemente, alguns poucos passaram a ditar a maneira como todos os demais deveriam expressar a sua sexualidade.

        Quando se considera que a sexualidade é influenciada pela cultura, surgem os guardiões sociais que se julgam no direito de ditar as regras de expressão de toda sociedade. Daí aquela pratica que não tinha nome, pois não produzia animaizinhos, mas que parecia com a sexualidade, começou a ser normatizada pelo grupo social dominante. Aquela coisa que parecia ser sexualidade, mas não era, agora tem regras para se expressar. É claro, já que aquela coisa não produzia animaizinhos, precisava de regras para que controlassem aquilo que ela estava produzindo, já que não eram animaizinhos. Além, do mais, estamos no início da sociedade de mercado, onde tudo está à venda para consumo.

 

A luta do bem contra o mal

        Bem, ou mal. E como ninguém concorda com ninguém mesmo e quando concorda é porque não entendeu do que se trata. O que as pessoas querem é se dar bem! Bem, ou mal. Há aqueles que não concordam com as normas pré-estabelecidas e se revoltam e reagem contra as regras. Esses revoltosos e reagentes lutam pelo direito que, supostamente por eles suposto, cada um de nós teria de expressar a sua sexualidade, da sua própria maneira. Aquela sexualidade que não é sexualidade, pois não produz animaizinhos. Esses revoltados e reagentes lutam pelo direito à liberdade de expressão da sexualidade, que não produz animaizinhos.

 

A sexualidade dos fracos e reprimidos

        Mas os fracos são poderosos com as palavras. Os fracos fazem as normas e as regras para subjugar os fortes. E as leis ditam como os indivíduos devem se comportar para viver na sociedade. Os fracos são aqueles que tomam para si o poder das palavras falada, escrita, pensada, oculta e imaginada. Tomando para si o poder das palavras, os fracos submetem todos os demais as suas normas. Submetem os fortes, os fracos, aqueles… meio assim ou assado e aqueles que não estão nem aí para isso tudo. Dá-se início a época da repressão da sexualidade, daquela sexualidade que não produz animaizinhos.

        Como a sexualidade, atualmente, já não é mais aquela sexualidade que só produzia animaizinhos, mas é uma expressão cultural, a repressão da sexualidade é também uma repressão social. Portanto, pode-se concluir que a luta pela liberdade social é a mesma luta pela liberdade de expressão da sexualidade, que não produz animaizinhos.

        E se antes a sexualidade era só produzir animaizinhos, agora ela virou uma luta pela liberdade de repressão e pela liberdade de expressão. Mas que necessidade de repressão é essa, que não se tem mais, que luta pela liberdade de reprimir a sexualidade que não produz animaizinhos? E que liberdade é essa, que se deixou de ter, que luta para ter a sexualidade que não produz animaizinhos?

 

A pratica da sexualidade que não produz animaizinhos

        Os fracos e reprimidos dizem que nos dias atuais há muita liberdade sexual. Uma devassidão generalizada, uma pornografia ilimitada. Se a sexualidade é produzir animaizinhos, os fracos e reprimidos devem estar se referindo a liberdade de produzir animaizinhos, que não está mais limitada ao casamento entre um homem e as suas mulheres. Apesar de, como já vimos, nem mesmo entre o casal heteronormativo, toda a sexualidade produz animaizinhos.

        Os revoltosos e reagentes ainda lutam pela liberdade sexual. Os revoltosos e reagentes lutam pela liberdade de praticar uma sexualidade que não produz animaizinhos. Os revoltosos e reagentes lutam pela liberdade de não produzir animaizinhos quando praticarem a sexualidade.

 

A pratica da repressão e da liberdade sexual

        Haverá mesmo uma repressão sexual ou uma liberdade sexual, atualmente? O que ouvimos, hoje, é um discurso generalizado tanto dos fracos e reprimidos e dos revoltosos e reagentes sobre o que é a sexualidade do outro e não sobre a sua própria sexualidade. As pessoas se importam mais com quem o seu vizinho se deita do que com quem elas se deitam.

        O que ouvimos sobre a sexualidade é um blá, blá, blá permitido, ansiado e desejado por todos. No século 19, quando se começou a falar sobre o seu sexo, o discurso estava restrito aos jantares festivos e aos confessionários religiosos. Nos dias atuais, continua-se a falar sobre o seu sexo, mas o discurso ampliou os seus ambientes. Discursam sobre o seu sexo nas reuniões familiares, nas escolas, nos bares, nas esquinas, nas mídias sociais, na música popular, nos esportes, ou seja, onde há gente.

        Ainda se fala sobre o seu sexo subjugando-o aos significados das regras sociais dos fracos e reprimidos e dos revoltosos e reagentes. Fala-se sobre o seu sexo lhe dando a impressão de que você tem a liberdade de falar sobre o seu sexo. Mas será que é falar sobre o seu sexo o que você demanda? Ou o que você quer mesmo é praticar a sua sexualidade sem precisar falar dela, nem dar conta dela para alguém?

 

O poder do blá, blá, blá sobre o sexo

        O que ainda acontece é mais e mais blá, blá, blá sobre a sua sexualidade. Esse blá, blá, blá p´é uma forma de manter o poder sobre você, através do discurso sobre a sua sexualidade. A sexualidade que produz animaizinhos está inserida numa ordem econômica e social. A sexualidade que não produz animaizinhos está inserida numa ordem moral, portanto, pessoal e intransferível.

        Hoje se pratica mais o sexo falado do que o sexo… sabe, o sexo? Aquele? Não sabe como é? Você me pede que eu desenhe? Ah! Que pena, não sei desenhar. Obrigado pela sua atenção. Obrigado por se permitir ler sobre o que eu tinha a dizer sobre o seu sexo. Esse foi o meu blá, blá, blá.

Os sintomas que você diz sentir

        Você procurou o seu médico porque sentiu umas pontadas de dor no estômago ou sentiu o seu coração bater acelerado ou porque aquela dor de cabeça não cessa ou por causa de dores na coluna ou por medo de estar com uma grave doença. O seu médico examinou você, cuidadosamente, fez alguns exames clínicos e laboratoriais, porém não encontrou nada “físico” que pudesse provocar os sintomas que você diz sentir.

        Então, mais cuidadosamente, ele, o seu médico, age, delicadamente também, para não ferir o seu orgulho de herói. Ele lhe diz: os seus exames estão “normais”, o que você está sentindo deve ser emocional. Chi.… você pensa: eu sou um fracassado, não sei nem cuidar de mim mesmo. Muita calma nessa hora! Esses sintomas, que estão se manifestando em você de forma incomoda, têm a ver com o seu jeito de lidar com a sua ansiedade.

Mas o que é ansiedade, mesmo?

        A ansiedade é uma característica biológica que encontramos no bicho homem, porém, sabemos que outros animais também têm esta característica. A ansiedade ocorre quando temos o pressentimento de que a nossa existência corre o risco de se acabar.

        Esse perigo de morte da nossa vida pode ser real ou imaginário. Pode-se argumentar qual seria a diferença para quem corre risco de morte, se o perigo é real ou imaginário. Afinal, se a realidade é o que percebemos dela, ser real ou imaginário, não faz a menor diferença para quem vive essa situação. A diferença existe somente para quem observa.

        Bem, mas voltando a ansiedade, ela é uma característica do estar vivo. Quem está vivo, evita a morte com todas as suas forças. Quem está vivo, luta pela manutenção da vida, enfrenta até mesmo um dragão. Seja lá o que for, é o seu dragão, mesmo que pareça um gatinho para os outros. Quem está vivo, foge para manter a vida, se afasta do risco da morte. Quem está vivo, se finge de morto para manter a vida, se esconde das ameaças de morte. Quem está vivo, até se mata para manter a vida, defende a vida com a sua própria morte.

Todos nós somos ansiosos

        A ansiedade é uma característica de grande parte dos animais vertebrados que possuem uma massa cerebral constituída de neurônios denominada de amígdala, cuja função é de alertar o organismo sobre uma situação de risco. Uma situação de risco evoca a ansiedade. Assim como existem diferentes maneiras de estar vivo, também existem diferentes maneiras de estar ansioso.

        Cada um de nós faz as coisas do seu jeito. Repito, cada um do seu jeito. Cada um de nós vive cada situação a sua própria maneira. O seu jeito de andar, por exemplo, não é igual ao jeito de andar de mais ninguém. O seu jeito de evitar o desequilíbrio ao caminhar é diferente de qualquer outra pessoa. Assim, o jeito de estar ansioso é somente seu, ninguém mais fica ansioso do jeito que você fica.

Ansiedade ou morte!

        A ansiedade poderia ser caracterizada como uma emoção que traduz um sentimento de insegurança ou medo da morte. Portanto, viver e ansiar são inseparáveis. Vida e ansiedade, tudo a ver! A característica da grande e definitiva morte seria a ausência ou extinção da vida. A característica das pequenas mortes que vivemos diariamente é um desafio para as nossas maneiras de estar vivo. Mas, o que é viver ou morrer as nossas maneiras de estar vivo? Quem responde essa? Claro, é a ansiedade. É a nossa ansiedade que nos mostra como reagir aos estímulos que provocam, incomodam, entristecem e alegram a nossa existência.

        Assim, a ansiedade nossa de todo o dia se expressa pelo medo de ser ignorante, pelo medo de estar mal informado, pelo medo de perder o controle, pelo medo de perder, pelo medo de morrer de repente, pelo medo de morrer demoradamente, pelo medo do fracasso, pelo medo do sucesso, pelo medo de ter medo, pelo medo de ter ansiedade, pelo medo do tédio.

Podemos expressar a nossa ansiedade de todo dia pelo medo

        Bem, então a nossa ansiedade que é uma característica ou função biológica se expressa no bicho homem pelo medo. Isso, o medo é uma das formas de expressão da nossa ansiedade. Ah, que bom. Quer dizer que existem outras formas de expressar a ansiedade? Claro, podemos viver a nossa ansiedade de diversas maneiras, com medo ou sem medo. Cada um de nós vive a sua ansiedade de modo singular e único. Repito, de modo singular e único, do seu jeito único de estar no mundo.

        Afora o medo, a ansiedade também pode ser expressa por alguns daqueles sintomas que levaram você a procurar o seu médico. A ansiedade pode ser vivida por algumas manifestações físicas como boca seca, pulso acelerado, transpiração abundante, dores no tórax, vertigens, desmaios, dores crônicas, estados físicos que vão e voltam, tipo alergias, resfriados, entre outras. Uma das ansiedades mais “na moda” atualmente tem expressão na doença autoimune, exemplo da pessoa que se mata para defender a própria vida. O suicídio é a única questão filosófica que realmente importa. O suicídio voltou a estar na moda.

A ansiedade tem causa?

        Portanto, a ansiedade é um estado biológico e funcional do organismo humano. A ansiedade é um alarme disparado no organismo para enfrentar diversas situações da vida quotidiana. A ansiedade funciona como uma forma de reagirmos aos estímulos do ambiente interno e externo.

        A ansiedade é desencadeada pelo habito que cada um de nós tem de enfrentar as dificuldades da vida. E são tantos os desafios! Muitos e constantes e aparecem de qualquer lugar, em qualquer tempo, de onde menos se espera. A expectativa é uma forma de ansiedade antecipatória de algo criado pela nossa imaginação. A ansiedade pode surgir do desafio de um relacionamento afetivo, da rejeição da expressão sexual, da exclusão social, do uso de substancias viciantes, do teste para um emprego, etc.

A ansiedade e seus sub usos

        Os nossos contemporâneos desejam ser vistos como singulares e únicos, mas ter a consciência de ser singular e único traz junto o sentimento da solidão. Os nossos contemporâneos, para fugirem da solidão, estão com essa mania de caracterizar cada vivencia singular da ansiedade em transtorno disso ou daquilo. Com isso fornecem rótulos de ansiedade para que cada um de nós se sinta um pouco amado e inserido na sociedade.

        Assim, dizemos que estamos estressados, sofremos de déficit de atenção, sofremos de hiperatividade, sofremos de inatividade, sofremos de depressão, sofremos de bipolaridade, sofremos de medo, sofremos de pânico. Todo esse arsenal de rótulos são diferentes nomeações da nossa já conhecida ansiedade. Comum mesmo, para todos nós, é o sofrimento. Esse é inevitável – momentâneo ou duradouro.

As suas necessidades de cuidado duram uma vida inteira

        Do que você precisa para viver? Será que você incluiria a psicoterapia como algo imprescindível para a sua sobrevivência? Você se olha e se vê como qualquer outro bicho-animal? Um bichinho-animal precisa para viver: respirar, comer e de outro bicho-animal mais experiente que cuide dele. Esse cuidado dura até que o bichinho-animal adquira comportamentos que o capacitem a cuidar de si mesmo por toda a sua vida. Esse aprendizado varia de alguns minutos a alguns poucos dias. Praticamente, um bicho-animal já nasce sabendo viver. Quando você se olha e se vê como bicho-homem, as suas necessidades de cuidado duram uma vida inteira. O bicho-homem não nasce sabendo viver, ele aprende enquanto vive.

        Dentre algumas necessidades básicas descobertas pelo bicho-homem, destaco três perguntas que alguns desses bichos fazem: quem sou eu, de onde eu vim e para onde eu vou? Esses são os bichos que procuram a psicoterapia, os perguntadores, os inquietos, os curiosos, os cientistas, os adeptos de religiões e os insatisfeitos com as suas próprias respostas e as respostas dos outros para as suas questões.

        Tem, também, aqueles bichos que são levados para a psicoterapia por alguém, por engano ou por ocasião, pois não tem a menor ideia do que está se passando com eles. São aqueles bichos com dificuldades de aprendizagem, com dificuldades de concentração, com dificuldades de relacionamentos, com dificuldades de lidar com as dificuldades dos outros, enfim, em dificuldades. Há aqueles outros bichos com indefinições profissionais, vítimas de abusos sexuais dentro da própria família e fora dela, vítimas do alcoolismo, com falta de foco, com falta de projetos de vida, com falta de amor, com falta.

        Mas também tem aqueles bichos que procuram a psicoterapia por vontade própria. Aqueles que querem entender os amores desfeitos ou que estão por se desfazer ou como fazer um. Aqueles que ainda querem entender os seus complicados relacionamentos com os pais ou com os filhos. Aqueles que tem sentimentos de rejeição e muitas outras questões. O bicho-homem não cessa de criar necessidades para si.

        Ah! Tem também aqueles bichos desenganados pela medicina. Aqueles orientados para procurar a psicoterapia porque os motivos das suas queixas são de “fundo emocional”. E mais alguns tantos outros bichos precisam de psicoterapia por motivos impensáveis como a asma, gagueira, hipertensão, dores no corpo, insônia, depressão, irritabilidade e outros incômodos crônicos menos famosos.

        Os bichos buscam a psicoterapia ou são levados até ela? Algo parece comum, muitos bichos buscam a psicoterapia para encontrar respostas para o que consideram que não vai bem na sua vida. E, por incrível que pareça, não é que eles encontram! Os bichos encontram uma pessoa em si mesmos. Alguém que sempre esteve ali com eles e eles ainda não tinham notado.

        Se você deseja mudar um comportamento, um jeito de sentir, uma forma de pensar, a psicoterapia é uma atividade que ajuda você a obter êxito nessa mudança. Você também pode tentar mudar sozinho seus comportamentos, sentimentos e pensamentos.

Basta saber como proceder

        O que um psicoterapeuta faz é acompanhar você no seu processo de mudança. E cá entre nós, estar acompanhado num processo de mudança é bem melhor do que estar sozinho. É que aprendemos o nosso jeito de ser nas relações que temos com o mundo. Portanto, o que pretendemos mudar é a nossa forma de nos relacionar com o mundo. Essa forma de se relacionar com o mundo passa pela forma como nos relacionamos com nós mesmos. Esse é o desafio da psicoterapia: compreender como nos relacionamos com nós mesmos. E para isso, nada melhor do que ter uma outra pessoa por perto nessa caminhada.

Todos nós somos psicólogos práticos

Psicologia como ciência do comportamento

        Existe uma crença generalizada de que todos nós somos psicólogos práticos. Será realmente possível uma generalização sobre o comportamento do homem?

Do comportamento ao automatismo

        A tentativa da ciência de explicação das coisas apoia-se na noção de que os eventos são causas e efeitos de outros eventos sucessivos. A psicologia para ser reconhecida como ciência busca explicar o comportamento humano segundo o mesmo conceito.

        Entretanto, Sócrates (470-395 a.C.) já havia trazido uma explicação moralista e ética a respeito do comportamento do homem. Bem como Platão (427-347 a.C.) com a sua explicação racional de que o mundo que vivenciamos é uma ilusão e o mundo real seria o mundo das ideias.

        Porém, com Aristóteles (384-322 a.C.) valoriza-se a observação como forma de se chegar a explicar os eventos. Incluindo-se, nesses eventos, o comportamento do homem.

        Lá pelos anos 1250, “Tomás de Aquino (1224-1275) se utilizou das ideias de Aristóteles sobre as relações corpo-alma” e as suas observações sobre o funcionamento do homem para sustentar as suas crenças religiosas.

        No século 16, René descartes (1596-1650), constitui o homem sendo composto por duas realidades. Uma realidade material, “o corpo, comparável a uma máquina e, portanto, cujos movimentos seriam previsíveis a partir do conhecimento de suas ‘peças’ e relações entre elas”. E de uma outra realidade, imaterial, “a alma, livre dos determinismos físicos”. Com Descartes, a alma não poderia ser estudada pelas leis das ciências naturais: a biologia, a física e a química.

        Dessa concepção sobre o homem decorre duas áreas de estudo: “a parte material, o corpo, a quem se deveria dedicar a ciência; e a parte imaterial, a alma ou mente, domínio da filosofia”.

Corpo versus mente

        “Os filósofos dos séculos 18 e 19, que tinham a mente e o seu funcionamento como objeto de estudo de grande interesse, dividiram-se em duas escolas de pensamento: o empirismo inglês e o racionalismo alemão”.

        “John Locke (1632-1704) é considerado o fundador do empirismo. Comparou a mente com uma ‘tabula rasa’ onde seriam impressas, pela experiência, todas as ideias e o conhecimento”. Nada existiria na mente que não tivesse passado pelos sentidos.

        Por outro lado, “os filósofos racionalistas acreditavam que a mente tinha a capacidade inata para gerar ideias, independentemente dos estímulos do meio ambiente”. Esses filósofos acreditavam que o ente humano seria uma máquina dois em um, composta por dois elementos. Um dos elementos era o corpo, sensível ao mundo externo irreal e, o outro elemento, a alma, insensível ao mundo externo.

        Os racionalistas enfatizaram que “a percepção é ativamente seletiva e não um processo passivo de registro, como colocavam os empiristas, e, também, afirmando que fazemos interpretações individuais das informações dos órgãos dos sentidos”. Como as interpretações são individuas, cada um de nós, por isso, percebe coisas diferentes de um mesmo acontecimento.

        Para os empiristas, a percepção era composta de partes, ou elementos mais simples. “Para os racionalistas, cada percepção é uma entidade indivisível, global, cuja analise destruiria suas características próprias”.

        Apesar de percebida como produto de origem corporal, a mente era concebida como um fenômeno imaterial. Porém, “um grupo de pesquisadores procurou mostrar que havia relação entre as características dos estímulos e a percepção dos mesmos”.

Do que a mente é ao que a mente faz

        Gustav Theodor Feccher (1801-1887) é considerado o ‘fundador da Psicofísica’ ou o ‘pai da Psicologia Experimental’. A psicologia pode ser descrita como o estudo quantitativo das relações existentes entre a vida mental e os estímulos do mundo físico.

        Costuma-se estabelecer como data para o nascimento da psicologia, tal qual conhecemos hoje, o ano de 1879, quando Wilhelm Wundt (1832-1920) criou o primeiro laboratório de psicologia na Universidade de Leipzig, na Alemanha.

        Wundt fez nascer uma escola psicológica que se denominou estruturalismo porque buscava a estrutura da mente, isto é, compreender os fenômenos mentais pela decomposição dos estados de consciência produzidos pela estimulação ambiental.

        Em seguida despontam os funcionalistas William James (1842-1910), John Dewey (1859-1952) e James Cattel (1860-1944) que se interessaram mais no que a mente faz, nas suas funções, do que no que a mente é, ou em como se estrutura.

        Baseados nas concepções de Charles Darwin (1809-1882) sobre a evolução orgânica com a finalidade de adaptação ao ambiente, os funcionalistas estabeleceram, como objeto da psicologia, a interação continua entre o organismo e o seu ambiente.

        A importância do funcionalismo está na amplitude de interesses que trouxe para a psicologia. É a partir de Darwin que se tomam, para estudo, problemas práticos e relevantes da nossa vida cotidiana. Qual seria a finalidade de se estudar os problemas práticos e relevantes da nossa vida cotidiana? A quem pode interessar o estudo dos problemas práticos e relevantes da nossa vida cotidiana? Seria a psicologia, a ciência mais capacitada para estudar esses problemas práticos e relevantes da nossa vida cotidiana? Esse estudo é, realmente, necessário? A psicologia é necessária? O que a psicologia pode fazer por você?

Referencias

BRAGHIROLLI, Elaine Maria, BISI, Guy Paulo, RIZZON, Luiz Antônio e NICOLETTO, Ugo. Psicologia geral. Petrópolis: Vozes, 2010.

A sexualidade é influenciada pela interação de fatores

Sexo falado e sexualidade na pratica 1

        A sexualidade é “… um aspecto central de ser humano ao longo da vida engloba sexo, identidades e papéis de gênero, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução. A sexualidade é vivida e expressa em pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, comportamentos, práticas, papéis e relacionamentos. Embora a sexualidade possa incluir todas essas dimensões, nem todas elas são sempre experimentadas ou expressadas. A sexualidade é influenciada pela interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, políticos, culturais, legais, históricos, religiosos e espirituais” (WHO, 2006a).

        Ufa! Essa definição de sexualidade divulgada pela WHO (World Health Organization) abrange tantas características, utilidades, influencias e dimensões que fica mesmo difícil dizer o que é a sexualidade. É tanta coisa que não fica nada. Esse conceito de sexualidade, que talvez vise a esclarecer, só torna assustadora qualquer tentativa de expressão da sexualidade.

        O que quer dizer a OMS quando define a sexualidade como um aspecto central do ser humano? Onde se encontra o centro do ser humano? Ou, o que é o centro para um ser humano? O que é o ser humano? E as expressões da sexualidade? São tantas as possibilidades que determinar uma maneira ou duas de expressão da sexualidade, como o binário homo heterossexual, fica parecendo coisa de autoritarismo. O autoritarismo é expresso por um indivíduo ou grupo de indivíduos quando se julgam mais aptos que os demais indivíduos para determinar o sentido da vida deles, e principalmente, da vida dos outros.

 

Quando não se falava sobre o seu sexo

        Era uma vez, quando ainda não se falava sobre o seu sexo. É espantoso, mas é vero. Houve uma época em que não se falava sobre o seu sexo, somente se fazia sexo. Naqueles tempos remotos, a sexualidade era considerada uma atividade instintiva da espécie homem, bem como das demais espécies animais. E pasmem, naqueles tempos longínquos, já se pressupunha que esse instinto ligado ao sexo teria uma finalidade.

        Como será que se sentiram nossos mais longínquos ancestrais quando viram as suas mulheres aumentarem o volume da barriga e depois sair um animalzinho de dentro dela? E não é que associaram isso ao fazer sexo? Mas, como pode uma coisa dessas? De onde surgiu essa associação de fazer sexo com a produção de animaizinhos?

        Bem, o fato é que, muito tempo depois daqueles tempos em que a espécie homem se assustava com o nascimento dos seus animaizinhos, concluiu-se que a sexualidade animal teria a finalidade de reproduzir novos animaizinhos. Naquele tempo, quando ainda não se falava sobre o seu sexo, todos os comportamentos que não produzissem animaizinhos eram considerados praticas “contra a natureza”. Naqueles tempos do era uma vez, quando ainda não se falava sobre o seu sexo, já se normatizava sobre o seu comportamento sexual.

        Naquele tempo, quando ainda não se falava sobre o seu sexo, era sabido que a sexualidade servia para a procriação e também se sabia como isso era feito. A sexualidade ascendeu ao status de algo que existe pois era a responsável pela produção de animaizinhos. Portanto, quando a sexualidade não produzia animaizinhos era considerada contra a natureza. Como nomear, então, aquele comportamento que, aparentemente parecia ser sexualidade, pois tentava produzir animaizinhos, mas não produzia outros animaizinhos?

 

A pratica da sexualidade que é “contra a natureza”

        Será que essa sexualidade que não produz animaizinhos também seria instinto? Poderia o ato de produzir animaizinhos, embora não produzindo animaizinhos também ser instintivo? Ou somente quando a sexualidade produz animaizinhos ela é instinto? Considerando que a sexualidade dos animais produz outros animaizinhos, então, quando a pratica da sexualidade não produz animaizinhos, não é sexualidade. Portanto, o ato que não produz animaizinhos não pode ser considerado uma pratica “contra a natureza”, já que não é sexualidade.

        A pratica da sexualidade que se parece com o ato de produzir animaizinhos, mas que não produz animaizinhos, portanto não é a sexualidade. Então, que pratica será essa que apesar de visar a produção de animaizinhos, portanto seria a sexualidade, mas não produz animaizinhos, portanto não é a sexualidade?

        Não perca o próximo capítulo de Sexo falado e sexualidade na pratica 2. Enquanto isso, deixe o seu sexo abaixo, quer dizer, deixe o seu comentário sobre o seu sexo abaixo. Não, não, não! Não é nada disso. Não deixe nada, não. Leve. Leve alguma coisa daqui. Leve algo sobre esse meu bla, bla, bla sobre o seu sexo. Leve algo do meu sexo falado. Ou, melhor, faça sexo. Ou, talvez, não faça. Deixa estar! Mas lembre-se: “sexo não tem sexo: é quem gosta com quem quer” (Tavares, 2007).

 

Referencias

TAVARES, Bráulio. A resposta do computador. In TAVARES, Ulisses. Quando nem Freud explica, tente a poesia! São Paulo: Francis, 2007.

(WHO) WORLD HEALTH ORGANIZATION. Saúde sexual e reprodutiva: definir a saúde sexual. Acesso em 04 de junho de 2017. Disponível em

Será que esse tal de psicológico existe?

Não julgar “é uma postura tipicamente pós-moderna. A crítica é característica da modernidade” (Maffesoli, 2008).

        O psicológico existe ou é mais uma das invenções do homem? Você já percebeu que o que chamamos de psicológico é sempre alguma coisa abstrata? Você nunca viu o psicológico. Você nunca ouviu o psicológico. Você nunca tocou num psicológico. Você já cheirou um psicológico? Você sabe que sabor tem o psicológico? Será que esse tal de psicológico existe?

        Às vezes, esse tal de psicológico é uma manifestação de processos internos que acontecem em você, outras vezes é um produto das suas vivências externas. Às vezes, esse tal de psicológico é um conteúdo do seu mundo interno, outras vezes é um processo desse mesmo mundo. Mas esse tal de psicológico é sempre visto de forma abstrata e como se fosse natural, quer dizer, como se sempre tivesse sido desse jeito.

        Outra característica, desse tal de psicológico é que ele é considerado como algo da espécie homem. Isso quer dizer que todos os indivíduos da espécie homem, sem exceção, têm esse tal do psicológico.

        Você pode nomear, esse tal de psicológico, por um número enorme de palavras e expressões, como por exemplo: manifestações do aparelho psíquico, individualidade, subjetividade, mundo interno, manifestações do homem, pensar e sentir o mundo, consciência, inconsciente, vivências, engrenagens de emoções, motivações, comportamentos, habilidades e potencialidades, experiências emocionais, conflitos pulsionais, psique, pensamento, sensações, entendimento de si e do mundo, manifestações da vida mental, tudo que é percebido pelos sentidos (Bock, 1997).

        Ufa, quantos nomes para se chamar esse tal de psicológico! Será que esse tal de psicológico é mesmo o mesmo para toda a espécie homem? Ou estamos falando de algo que não existe ou que é único para cada um de nós, por isso esses vários nomes? Bem, para simplificar, vou considerar que esse tal de psicológico existe e é único para cada um de nós, embora possa ser chamado por vários nomes.

        Bem, vou escolher chama-lo de subjetividade. Vou chamar esse tal de psicológico de subjetividade para pensar um pouco sobre a sua construção. Escolhi subjetividade porque é como esse tal de psicológico é mais tratado na atualidade por aqueles que “juram” que ele existe.

        O que a palavra subjetividade lhe sugere? Ela lhe parece sugerir imediatamente interioridade? Você confirma? Essa é a percepção mais utilizada atualmente – subjetividade tem a ver com interioridade. Mas porque rapidamente relacionamos subjetividade e interioridade?

        Você sabia que subjetividade e interioridade são enunciados de origens diversas que são posteriormente superpostos pelos discursos psicológicos? Isso mesmo, os discursos psicológicos criaram uma relação de reciprocidade entre subjetividade e interioridade.

        Mas, você sabe, que, ao contrário, a subjetividade, além de ser da ordem dos efeitos, é também da ordem da exterioridade? Ou seja, a subjetividade é produzida em relações saber/poder e também de você consigo mesmo, quando você se coloca como objeto para um trabalho sobre si mesmo, como fazem as ciências, as filosofias, as religiões, as psicologias, as sociologias, etc. (Prado Filho e Martins, 2007).

        Então, você percebe que tanto a subjetividade quanto a interioridade são produções (invenções, criações do homem ou descobertas?) históricas. Michel Foucault, um francês muito insatisfeito e critico com que os outros diziam, afirmou que o cristianismo inventou a interioridade e a modernidade inventou a subjetividade.

        Então, essa relação entre estas duas figuras do discurso – subjetividade e interioridade – é uma relação histórica inventada pela espécie homem. A noção de interioridade inventada pelo cristianismo, há vinte séculos atrás, é anterior a noção de subjetividade inventada na era moderna, que ainda vai completar cinco séculos.

        Você, tão esperto quanto Foucault, percebe que isso indica que o moderno conceito de subjetividade se apoia na ideia cristã de interioridade. Portanto, a nossa vivencia da subjetividade encontra-se, por isso mesmo, totalmente contaminada pela concepção cristã de interioridade (Prado Filho e Martins, 2007).

        Você, como qualquer outro indivíduo da espécie homem, considera que o indivíduo da espécie homem é um animal nesse planeta capaz de produzir as suas próprias condições de existência? Se sim, compreende que a sua subjetividade surge das suas relações sociais com os outros indivíduos da espécie homem e com as coisas que produzimos. Portanto, você concluirá que a sua subjetividade tem a ver com o acesso e o controle das condições sociais de vida disponíveis a você (Lacerda Junior, 2010).

        Sob este aspecto, você percebe que cada indivíduo da espécie homem é uma forma autentica de conhecer a realidade? Você compreende que qualquer cientista, filosofo ou religioso produz sabedoria tão legítima em relação à vida social quanto você também produz?

        Este posicionamento implica que o sentido de verdade e a supremacia do valor da ciência, da filosofia ou da religião, como formas de produção da verdade, é inconsistente. A compreensão da vida passa também pela sua forma de apreender a realidade (Canda, 2010).

        Sendo assim, agora, você sabe o que responder à pergunta do nosso texto – será que esse tal de psicológico existe?

 

Palestra – Mario Sergio Cortella – Você sabe com quem está falando? – Legendado – Duração 9:02

 

Referencias

BOCK, Ana Mercês Bahia. Formação do psicólogo: um debate a partir do significado do fenômeno psicológico. Psicologia ciência e profissão, 1997,17, (2), 37 – 42. Acesso em 18 de outubro de 2014. Disponível em

CANDA, Cilene Nascimento. Lá vai a vida a rodar: reflexões sobre práticas cotidianas em Michel Maffesoli. Revista Rascunhos Culturais •Coxim/MS • v.1 • n.2 • p. 63 – 77 • jul /dez, 2010. Acesso em 12 de maio de 2015. Disponível em

LACERDA JUNIOR, Fernando. Psicologia para fazer a crítica? Apologética, individualismo e marxismo em alguns projetos PSI. PUC-Campinas, 2010. Acesso em 28 de março de 2013. Disponível em

PRADO FILHO, Kleber; MARTINS, Simone. A subjetividade como objeto da (s) Psicologia (s). Psicologia & Sociedade; 19 (3): 14-19, 2007. Acesso em 07 de setembro de 2013. Disponível em

Você não sabe o que é, mas deixa você paralisado

        Você já sentiu aquele frio na barriga, o coração batendo mais forte, parecendo que vai sair pela boca, e a respiração ofegante? Você não sabe o que é, mas deixa você paralisado. Você sente que está plantado no chão e ao mesmo tempo parece que vai explodir como um foguete em direção ao espaço.

        Você não consegue reter nenhum pensamento, nem a sua voz parece ser emitida. Você grita e não ouve a sua voz. Você sente que isso é a tal da ansiedade. Seu coração bate mais rápido que o corriqueiro. Você inspira e expira quase simultaneamente, o oxigênio é acumulado. Você está pronto para explodir.

        A sua circulação sanguínea corre a uma velocidade de avião supersônico, é como tsunami num órgão e deserto em outro. Seus neurônios compartilham sinapses alucinadas. Seus hormônios interagem intensificando a produção de produtos químicos e anticorpos para se defender de um inimigo invisível.

        Você deseja sair de onde está, mas não consegue. Você está imóvel. Você está com medo de perder o controle da situação. Você sente que vai desmaiar. Medo e ansiedade é pouco. Você está em pânico.

        Você percebe que a ansiedade que você sente é um empecilho para você alcançar seus maiores sonhos e objetivos. Será mesmo? Leia o que disse Alfred Hitchcock.

 

“Sorte é tudo… minha sorte na vida foi ser uma pessoa realmente assustada. Eu sou sortudo por ser um medroso, ter um baixo limiar de medo, porque um herói não pode fazer um bom filme de suspense.”

 

        O que será que o Hitchcock fez para conseguir lidar com o seu medo? Hitchcock usou a sua ansiedade ao seu favor. Como ele usou o medo ao seu favor? Parece que nesse caso, ele viveu a sua ansiedade. Quer dizer, ele não negou (fugiu dela, a ignorou, brigou com) a sua ansiedade. Assim, usando a criatividade e a curiosidade para com a sua ansiedade conseguiu transformar o seu medo de forma criativa.

        Agora, imagine se você tivesse em mãos um mapa. Um guia que lhe mostrasse em detalhes o passo-a-passo para lhe tirar desse lugar de dor e sofrimento.

        Um guia cheio de conhecimento de você mesmo. E, depois de algum tempo seguindo esse guia, o seu medo, a sua ansiedade e a falta de conhecimento se transformam em confiança, novos comportamentos e sabedoria para você ser o motorista da sua viagem, para você dirigir a sua vida.

        Você tem agora uma decisão a tomar. Ou continuar parado e paralisado observando seus sonhos e objetivos ficarem cada vez mais distantes. Ou decidir lutar pelo que é seu, pelo que você é. Lutar por você. Mover-se. E seguir o caminho que irá suprir as suas necessidades e orientar você para viver a vida que você sempre sonhou. E tornar você o guia de si mesmo.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        Sim, você decide mudar. Mas como você faz isso?

Quando você não sabe como fazer sozinho

        Como você sabe que você precisa de ajuda? Quando você necessita fazer algo, mas você não sabe como fazer sozinho. Da mesma forma, você precisa de ajuda psicológica, quando você não sabe como fazer sozinho.

        Você sente culpa por algo que fez. Você precisa desfazer a culpa, mas você não sabe como desfazer sozinho. Você está sempre se desculpando pelo que faz. Você necessita parar de se desculpar pelo que faz, mas você não sabe como fazer sozinho. Você se justifica porque esse é o seu jeito – você é assim mesmo! Você precisa fazer diferente, mas você não sabe como fazer sozinho. Você se sente um pobre coitado. Você necessita se sentir mais estimado, mas você não sabe como fazer sozinho. Você tem noção do quanto seus comportamentos prejudicam a sua vida, mas você não sabe como fazer diferente.

        Você percebe que sua vida está limitada em algum aspecto pessoal, interpessoal, social ou financeiro. Você precisa mudar, mas você não sabe como. As coisas não andam. Você necessita fazer as coisas evoluírem na sua vida, mas você não sabe como. Você se sente limitado nas suas ações. Você precisa se libertar de antigos pensamentos, mas você não sabe como. Você não consegue mudar o seu jeito de ser, mas você não sabe como mudar sozinho.

        Então, um ajudante pode fazer alguma coisa com você. Um ajudante pode colaborar com você e ajuda-lo com as suas necessidades. Um ajudante pode ajudar você a expor os seus sentimentos e pensamentos sem julgar. Um ajudante pode ajudar você a compreender que os pensamentos, sentimentos e comportamentos das outras pessoas são diferentes dos seus. Um ajudante pode ajudar você a aprender novos comportamentos. Um ajudante pode ajudar você a se ajudar sem precisar de ajudante.

        Você conquistara mudanças nas suas respostas emocionais e comportamentais proporcionadas pela ajuda psicológica. Você se sentira mais confiante. Você sentira aumento considerável na sua autoestima.

        Você aprendera sobre si mesmo.

Mas como saber se você precisa mesmo de ajuda?

        Imagine que você caminha por uma das tantas calçadas esburacadas da sua cidade sem atentar para os seus buracos. Você pisa num desses buracos, se desestabiliza e cai no chão. Você pode se levantar sozinho. Você pode ficar caído. Você pode pedir ajuda para se levantar. Você aceita ajuda ou você não aceita e se levanta sozinho e segue o seu caminho.

        Você continua a sua caminhada sem atentar para os buracos na calçada. Guiado pelo seu anjo da guarda, você chegara ao seu destino sem mais nenhuma queda. Mas seu anjo também está desatento nesse momento e você queda de novo ao chão. Você pode ficar caído. Você pode se levantar sozinho. Você pode pedir ajuda. Você pode aceitar ajuda ou você não aceita ajuda e se levanta sozinho e vida que segue.

        Você continua a sua caminhada, mais estressado a cada passo. Antes de terminar o quarteirão, você queda outra vez. Você então percebe que é a terceira vez que você cai. Você percebe que você caiu de novo e se pergunta o porquê. Você percebe que está sempre repetindo a mesma coisa. Você percebe.

        É assim que você sabe que precisa de ajuda para reconhecer as suas necessidades. Você percebe que precisa de ajuda para desenvolver recursos para alterar os padrões que lhe causam sofrimento. Você percebe que você precisa de ajuda para caminhar e não para se levantar.

        Mas você não procura ajuda. As pessoas que lhe cercam – sua família, seus amigos, os seus famosos preferidos e os seus personagens das telenovelas – lhe dizem que você precisa ter “força de vontade”, como elas. Você precisa ser “forte”, como elas. Você precisa ser.… como elas.

        É isso o que elas dizem para você, cheias de “boas” intenções. Mas sabe, o que você precisa mesmo é ser como você é.

        Você não procura ajuda porque essas suas pessoas queridas lhe dizem: o psicólogo lhe dirá o que fazer. Essas pessoas jamais tiveram a experiencia de fazer uma psicoterapia e desconhecem o que faz um psicólogo. Mas estão sempre prontas para emitir a opinião delas sobre você. E dizem mais: você ainda pagará bem caro por isso. Elas lhes dizem que o psicólogo fara aquilo que elas fazem – dizer a você o que fazer. E elas cobram bem menos por isso.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        Você recebera a ajuda do psicólogo para reconhecer como você lida com a sua vida. E decidira, por si mesmo, o que fazer com esse novo conhecimento. Você é o único responsável pela sua vida.

 

O nosso sexo é uma determinação atemporal e imutável

        “Não há um lugar de chegar, não há destino prefixado, o que interessa é o movimento e as mudanças que se dão ao longo do trajeto”.

        Quando nascemos somos nomeados um indivíduo do sexo macho ou fêmea da espécie homo sapiens. Logo, o nosso sexo é uma determinação atemporal e imutável, considerado biológico, anterior a cultura e binário (macho ou fêmea). Essa nomeação constatada no nascimento e registrada em cartório implica que esse dado do sexo, macho ou fêmea, ira determinar o gênero do recém-nascido animalzinho. E vincular esse gênero, macho ou fêmea, como as únicas duas formas de comportamento aceitas para a espécie homo sapiens.

        Crescemos na suposição de que não há nenhuma outra remota possiblidade de não seguir essa ordem de nascimento: macho ou fêmea. “A afirmação ‘é um menino’ ou ‘é uma menina’ inaugura um processo de masculinização ou de feminização com o qual o sujeito se compromete”. Daí em diante, o indivíduo para existir, pertencer a uma sociedade, se vera obrigado a obedecer às normas que regulam a cultura em que vive.

        Porém, algo imprevisível acontece. Não existe garantia de que os indivíduos nomeados macho se comportem da forma que se espera que um macho se comporte. O mesmo acontece com os indivíduos nomeados fêmea desde o nascimento, nada garante que eles se comportem como indivíduos fêmeas. Assim, tornou-se imprescindível que fosse constantemente reiterada essa nomeação, nem sempre com sutileza, mas com certeza de modo explícito e dissimulado. Quase um mantra diário que nos obriga a repetir: devo me comportar como homem, pois sou macho ou devo me comportar como mulher, pois sou fêmea.

        A sociedade ostenta um trabalho educacional continuo, repetitivo e interminável posto em ação para obrigar os seus indivíduos a se regularem aos gêneros e sexo biológico considerados ‘legítimos’. A educação é tão intensa que provoca a participação dos próprios indivíduos no processo de produção de gênero e sexo compatível com o nomeado pela sociedade. Embora, participantes ativos da construção do seu próprio sexo, esses indivíduos o fazem tomados de constrangimentos.

A verdade sobre o comportamento sexual dos indivíduos

        Dizem que nos últimos dois séculos, nunca se falou tanto sobre sexo. Dizem as más línguas que se fala mais de sexo do que se faz sexo, apesar de toda a publicidade contraria. Falar de sexo tornou-se objeto de atenção para cientistas, religiosos, psiquiatras, antropólogos, educadores, humoristas, cineastas, dramaturgos, escritores, animadores de auditório, bebedores de cerveja, churrasqueiros de laje, etc. O sexo torna-se algo que se pratica na oralidade.

        Como consequência de tanta oralidade, o sexo passa a ser descrito, compreendido, explicado, regulado, higienizado, educado, normatizado. Todo um conjunto de conhecimentos é erguido sobre o sexo. E para os detentores desse conhecimento sobre o sexo é autorizada a normatização de regras e comportamentos para controle da pratica sexual. Esse controle é exercido através das formas de regulação do sexo autorizadas a ditar as normas das práticas sexuais. Sexo se faz dessa maneira, não daquela. Isso é sexo, aquilo não é sexo. Essa pratica sexual é sadia, essa outra pratica é insana. Essa pratica é adequada, essa outra é bizarra. Autorizados pela sociedade dos indivíduos, os estados, as igrejas, as ciências reivindicam para si a verdade sobre o comportamento sexual de todos os indivíduos.

O poder criativo da Palavra

        O homo sapiens é uma espécie biológica animal mamífera muito criativa. Com a sua capacidade biológica da linguagem, a espécie animal humana consegue criar qualquer realidade.

        “No princípio era a Palavra e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus. No princípio ela estava com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dela e sem ela nada se fez do que foi feito. Nela estava a vida, e a vida era a luz dos seres humanos” (João, 2010).

A invenção da homossexualidade

        Desde sempre a espécie homo sapiens vem criando tudo pela palavra. Desse mesmo útero, a espécie animal homem criou a homossexualidade. A homossexualidade e o indivíduo homossexual foram criados no século 19. Antes daquele século, as relações amorosas e sexuais entre as pessoas do mesmo sexo eram consideradas uma atividade indesejável ou pecaminosa. Mas se admitia que qualquer indivíduo poderia sucumbir a essas atividades indesejáveis e pecaminosas.

        Porém, a partir da metade do século 19, a pratica da homossexualidade, que antes era uma atividade que podia ser praticada por qualquer um, passa a ser uma atividade de um indivíduo especifico. Esse indivíduo foi então, marcado, reconhecido e nomeado de homossexual. Esse indivíduo foi categorizado e nomeado como um desviante da norma heterossexual de se comportar. Assim, a homossexualidade, antes uma atividade possível de ser praticada por qualquer um, passa a ser uma atividade produzida por certo indivíduo. A homossexualidade ganha relevância social. A homossexualidade ganha o status de uma produção do discurso. A homossexualidade é uma criação da palavra.

        O discurso produzido sobre a homossexualidade tem conotação negativa sobre a sua pratica. Essa conotação negativa produz políticas e teorias de regulamentação e disciplina dos seus praticantes. As instituições estabelecem os limites, as possibilidades e as restrições para a pratica da homossexualidade. A primeira regra de definição da homossexualidade consta que seria uma relação sexual praticada entre pessoas do mesmo sexo. Essa definição parece indiscutível? Isso parece obvio para os dias atuais. Porém, numa sociedade em que o sexo podia ser praticado sem restrição de sexo e idade, essa normatização produz uma especificação do desejo.

        Portanto, com a produção dos discursos sobre o indivíduo homossexual, muda-se o foco da sexualidade da sua pratica para o indivíduo que a pratica. Toda a responsabilidade pela existência da sexualidade é imputada ao indivíduo. Essa é a nova criação social: a sexualidade é um produto do indivíduo, o único responsável pela sua pratica.

O homossexual é um indivíduo abjeto com práticas epidêmicas

        No início dos anos 1980, o surgimento da AIDS, apelidado de ‘câncer gay’, renova a homofobia. Homofobia que já era latente na sociedade, após o século anterior responsabilizar o indivíduo pela produção da homossexualidade. A intolerância, o desprezo e a exclusão social dos indivíduos nomeados homossexuais foram crescendo durante o século 20. Com o surgimento da AIDS, os discursos sobre a sexualidade se deslocam dos indivíduos para as práticas sexuais. O medo da sociedade não-sexualizada de que a homossexualidade era uma doença epidêmica concretizou-se com o surgimento da AIDS.  A homossexualidade é doença e a gente pega.

        Com a AIDS, a sociedade incentiva ainda mais a exclusão social desses indivíduos abjetos com suas práticas epidêmicas. A sociedade reforça a nomeação do indivíduo homossexual, através dos xingamentos: viado, bicha, sapatão, boiola, baitola, maricas, fanchona, etc. “A força de uma invocação sempre repetida, um insulto que ecoa e reitera os gritos de muitos grupos homófobos, ao longo do tempo, e que, por isso, adquire força, conferindo um lugar discriminado e abjeto aqueles a quem é dirigido”.

        A ignorância é uma forma de conhecimento. A ignorância é produzida por uma forma de conhecimento. O conhecimento sobre a homossexualidade é um modo de conhecer a sexualidade. O conhecimento da sexualidade é sustentado por um jeito heterossexual de conhecer.

Referencias

JOÃO, São. O Evangelho segundo São João. In BIBLIA SAGRADA. Novo Testamento. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2010.

LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autentica, 2016.