Quando o prazer é direcionado para outras fontes de dor

        Quando uma pessoa experiencia um evento ruim ou uma perda, ela sente dor. A dor provoca um desequilíbrio na pessoa e exige uma reação. Essa reação corretiva precisa ser dirigida para a fonte da dor. A expressão dessa reação chama-se prazer. Porém, esse prazer corretivo da dor pode ser direcionado para outras fontes distintas da dor original. Quando o prazer é direcionado para outras fontes de dor, ele pode ser apreendido como culpa. Quando o prazer corretivo da dor é contido, ele pode se transformar em raiva. Uma magoa ou uma perda podem gerar prazer. Um prazer redirecionado pode conduzir a culpa. Um prazer retido pode provocar raiva de si mesmo.

        Tentamos, em especial, atualmente, evitar sentir dor. As dores são inevitáveis. O que fazemos é evitar que a dor doa agora. Evitamos a dor desviando-a do seu lugar de origem, transformando a dor em outra coisa. Evitamos a dor tentando ignora-la com medicamentos ou exercícios ou ignorâncias. Porém, a melhor maneira de lidar com a dor é sentir a dor por conta dela mesma. Sentir uma dor é reconhece-la, compreende-la, aprender como ela funciona. Mas se você coloca a sua dor em um lugar distinto da sua origem ou em alguém, você está colocando o prazer que trata a dor em outro lugar ou em alguém.

        “Pessoa com tão pouca percepção das coisas e tão pouco disposta a admitir sua responsabilidade por suas ações não é lá muito digna de confiança. Não há maneira de evitar a dor. Não estar cônscio de seus investimentos emocionais significa que você é perigosamente vulnerável, incapaz de se ajustar e de se proteger como deveria”.

        “Nossas expectativas são fontes em potencial de dor. ‘Expectativas… uma vida que for cheia de expectativas geralmente será cheia de desapontamentos’”.

A dor da perda

        “Existem três tipos principais de perda: a perda de alguém que ama você ou a perda de seu amor ou de seu senso de ser amado; a perda de controle; a perda da autoestima. Todo mundo é sensível a todas essas perdas – amor, controle e autoestima. A convicção de que, simplesmente, precisamos ser perfeitos é comum a todas estas distorções pessoais de perda. A vida será desperdiçada na tentativa de sermos alguma outra coisa”.

        “Quando você experimenta um sentimento sem esconder, ele passara mais depressa e menos o exaurira. A perda do amor, do controle ou da estima – são capazes de desencadear sentimentos de ansiedade em cada um de nos. O primeiro passo para assumir o controle de situações que causam ansiedade é perguntar a si mesmo: ‘o que é que eu tenho tanto medo de perder’? É difícil para a terapia obter muito sucesso até a ansiedade ser reduzida a níveis controláveis. Cada um se movimenta em seu próprio ritmo e a sua própria maneira. A individualidade é rotulada como excentricidade, tolerada apenas na teoria; na pratica, espera-se o conformismo”.

A dor do desamparo

        “O medo, como todos os sentimentos, serve para uma importante finalidade – neste caso, é um alerta para que nos defendamos. Qualquer psicologia que não considere a importância do instinto de sobrevivência não tem muito a ver com a realidade. Se tentarmos bloquear o que nos torna ansiosos, o que nos atemoriza, estaremos nos predispondo a um sofrimento maior. Estar ansioso é sentir-se desconfortável. Estar ansioso e estar temeroso tendem a trazer de volta sentimentos de desamparo”.

        Lidar com a nossa dor não é tão simples quanto possa parecer, pois, com a evolução da espécie homo sapiens, nossos sofrimentos não se limitam as dores ocasionadas por cortes, feridas, infecções. Nem sempre localizamos as causas dos nossos sofrimentos. Mas ainda sabemos apontar quando nos perguntam onde dói.

A dor e o prazer da raiva e da culpa

        “A raiva, como a ansiedade, é apenas um nome para uma ampla gama de sentimentos, todos os quais tem em comum o fato de serem reações a magoa ou a perda”.

        Temos a tendência biológica para reagir a um sofrimento expelindo a dor para fora de nos.  Esse comportamento de reagir a um sofrimento extirpando-o, é uma forma de colocar a dor fora do nosso alcance. Colocar a dor fora do nosso alcance nos incapacita de cuidar do nosso sofrimento. Passamos a depender de algo de fora para nos reabilitar. Esse prazer que trataria a dor pertenceria a algo fora do nosso alcance. O prazer que usaríamos para cuidar da nossa dor transformou-se em raiva ou culpa por não sermos capazes de cuidar de nós mesmos.

        Exprimir prazer para com a dor que causou, permite que um ferimento se cure. A raiva reprimida não cuida da magoa que a originou. Direcionar a raiva para dentro de si mesmo, é direcionar o cuidado para longe da dor inicial. Transforma o sofrimento em outro sofrimento que já não sabe mais de onde veio. O que provoca outro sofrimento de não se saber mais quem se é, pois não se sabe mais de onde vem essa dor.

        Nesse estagio tendemos a acreditar que essa dor é maior do que nos. E empoderamos uma entidade sobrenatural dos prazeres que nos libertaria de tanto sofrimento. É, então, que assumimos a responsabilidade por nossa condição, mas não podemos mais combater a dor, pois não sabemos mais de onde ela veio. Então, acreditamos que somos culpados pelo sofrimento que estamos vivendo e impotentes para cuidar deles. E esperamos que uma entidade divina venha nos salvar. E ficamos passivos, sofrendo, lamentando o nosso destino. E recriamos um círculo de sofrimento e esperança interminável que somente a morte ira nos libertar.

Psicologia e Psicoterapia

“A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as ideias das afecções do corpo” (Benedictus de Espinosa).

        Assim, por mais irracional ou inapropriado que isto possa parecer, ficamos com raiva da criatura amada que morreu e nos deixou. Ficamos com raiva de algo que nos aconteceu no passado e cremos que uma vida extraterrestre futura ira nos ‘vingar’. “A melhor maneira de mudar a perspectiva de alguém com relação ao passado é ocupar-se francamente dos sentimentos do presente. Todo processo terapêutico acontece no presente”. Você aprende, em qualquer forma de terapia, uma maneira diferente de vivenciar os seus sentimentos. E é experienciando os seus sofrimentos que você aprende uma nova maneira de lidar com eles.

Referencias

VISCOTT, David. A linguagem dos sentimentos. São Paulo: Summus, 1982.

 

2 respostas para “Quando o prazer é direcionado para outras fontes de dor”

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