Será que esse tal de psicológico existe?

Não julgar “é uma postura tipicamente pós-moderna. A crítica é característica da modernidade” (Maffesoli, 2008).

        O psicológico existe ou é mais uma das invenções do homem? Você já percebeu que o que chamamos de psicológico é sempre alguma coisa abstrata? Você nunca viu o psicológico. Você nunca ouviu o psicológico. Você nunca tocou num psicológico. Você já cheirou um psicológico? Você sabe que sabor tem o psicológico? Será que esse tal de psicológico existe?

        Às vezes, esse tal de psicológico é uma manifestação de processos internos que acontecem em você, outras vezes é um produto das suas vivências externas. Às vezes, esse tal de psicológico é um conteúdo do seu mundo interno, outras vezes é um processo desse mesmo mundo. Mas esse tal de psicológico é sempre visto de forma abstrata e como se fosse natural, quer dizer, como se sempre tivesse sido desse jeito.

        Outra característica, desse tal de psicológico é que ele é considerado como algo da espécie homem. Isso quer dizer que todos os indivíduos da espécie homem, sem exceção, têm esse tal do psicológico.

        Você pode nomear, esse tal de psicológico, por um número enorme de palavras e expressões, como por exemplo: manifestações do aparelho psíquico, individualidade, subjetividade, mundo interno, manifestações do homem, pensar e sentir o mundo, consciência, inconsciente, vivências, engrenagens de emoções, motivações, comportamentos, habilidades e potencialidades, experiências emocionais, conflitos pulsionais, psique, pensamento, sensações, entendimento de si e do mundo, manifestações da vida mental, tudo que é percebido pelos sentidos (Bock, 1997).

        Ufa, quantos nomes para se chamar esse tal de psicológico! Será que esse tal de psicológico é mesmo o mesmo para toda a espécie homem? Ou estamos falando de algo que não existe ou que é único para cada um de nós, por isso esses vários nomes? Bem, para simplificar, vou considerar que esse tal de psicológico existe e é único para cada um de nós, embora possa ser chamado por vários nomes.

        Bem, vou escolher chama-lo de subjetividade. Vou chamar esse tal de psicológico de subjetividade para pensar um pouco sobre a sua construção. Escolhi subjetividade porque é como esse tal de psicológico é mais tratado na atualidade por aqueles que “juram” que ele existe.

        O que a palavra subjetividade lhe sugere? Ela lhe parece sugerir imediatamente interioridade? Você confirma? Essa é a percepção mais utilizada atualmente – subjetividade tem a ver com interioridade. Mas porque rapidamente relacionamos subjetividade e interioridade?

        Você sabia que subjetividade e interioridade são enunciados de origens diversas que são posteriormente superpostos pelos discursos psicológicos? Isso mesmo, os discursos psicológicos criaram uma relação de reciprocidade entre subjetividade e interioridade.

        Mas, você sabe, que, ao contrário, a subjetividade, além de ser da ordem dos efeitos, é também da ordem da exterioridade? Ou seja, a subjetividade é produzida em relações saber/poder e também de você consigo mesmo, quando você se coloca como objeto para um trabalho sobre si mesmo, como fazem as ciências, as filosofias, as religiões, as psicologias, as sociologias, etc. (Prado Filho e Martins, 2007).

        Então, você percebe que tanto a subjetividade quanto a interioridade são produções (invenções, criações do homem ou descobertas?) históricas. Michel Foucault, um francês muito insatisfeito e critico com que os outros diziam, afirmou que o cristianismo inventou a interioridade e a modernidade inventou a subjetividade.

        Então, essa relação entre estas duas figuras do discurso – subjetividade e interioridade – é uma relação histórica inventada pela espécie homem. A noção de interioridade inventada pelo cristianismo, há vinte séculos atrás, é anterior a noção de subjetividade inventada na era moderna, que ainda vai completar cinco séculos.

        Você, tão esperto quanto Foucault, percebe que isso indica que o moderno conceito de subjetividade se apoia na ideia cristã de interioridade. Portanto, a nossa vivencia da subjetividade encontra-se, por isso mesmo, totalmente contaminada pela concepção cristã de interioridade (Prado Filho e Martins, 2007).

        Você, como qualquer outro indivíduo da espécie homem, considera que o indivíduo da espécie homem é um animal nesse planeta capaz de produzir as suas próprias condições de existência? Se sim, compreende que a sua subjetividade surge das suas relações sociais com os outros indivíduos da espécie homem e com as coisas que produzimos. Portanto, você concluirá que a sua subjetividade tem a ver com o acesso e o controle das condições sociais de vida disponíveis a você (Lacerda Junior, 2010).

        Sob este aspecto, você percebe que cada indivíduo da espécie homem é uma forma autentica de conhecer a realidade? Você compreende que qualquer cientista, filosofo ou religioso produz sabedoria tão legítima em relação à vida social quanto você também produz?

        Este posicionamento implica que o sentido de verdade e a supremacia do valor da ciência, da filosofia ou da religião, como formas de produção da verdade, é inconsistente. A compreensão da vida passa também pela sua forma de apreender a realidade (Canda, 2010).

        Sendo assim, agora, você sabe o que responder à pergunta do nosso texto – será que esse tal de psicológico existe?

 

Palestra – Mario Sergio Cortella – Você sabe com quem está falando? – Legendado – Duração 9:02

 

Referencias

BOCK, Ana Mercês Bahia. Formação do psicólogo: um debate a partir do significado do fenômeno psicológico. Psicologia ciência e profissão, 1997,17, (2), 37 – 42. Acesso em 18 de outubro de 2014. Disponível em

CANDA, Cilene Nascimento. Lá vai a vida a rodar: reflexões sobre práticas cotidianas em Michel Maffesoli. Revista Rascunhos Culturais •Coxim/MS • v.1 • n.2 • p. 63 – 77 • jul /dez, 2010. Acesso em 12 de maio de 2015. Disponível em

LACERDA JUNIOR, Fernando. Psicologia para fazer a crítica? Apologética, individualismo e marxismo em alguns projetos PSI. PUC-Campinas, 2010. Acesso em 28 de março de 2013. Disponível em

PRADO FILHO, Kleber; MARTINS, Simone. A subjetividade como objeto da (s) Psicologia (s). Psicologia & Sociedade; 19 (3): 14-19, 2007. Acesso em 07 de setembro de 2013. Disponível em

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